Como encarar os casos de abortos de fetos com comprovadas anomalias?

Laércio Furlan *

O nosso princípio espírita considera sempre a existência de algo mais além da matéria física: o Espírito ou a Alma. O corpo é mero instrumento de aperfeiçoamento do Espírito.

A Cardiologia, através do ecocardiografia, consegue detectar hoje as anomalias cardíacas fetais e já se considera em condições de trabalhar sobre o nosso segundo cliente, o FETO, procurando solução para os defeitos congênitos.

Em recente Congresso Médico, em nossa Capital, foi comentado que quanto menor a idade do transplantado, melhor o resultado. E se o transplante fosse ainda durante a fase fetal, com certeza os resultados seriam mais promissores.

Mas, o que a Medicina faz quando uma criança normal é acometida de um transtorno neurológico e permanece com seqüelas irreversíveis (paralisia infantil ou uma encefalite)? Não a leva à morte, porém, procura dar-lhe todos os recursos existentes e pesquisar novas formas de aliviar a dor e o sofrimento.

A Medicina não pensa em exterminar todo aquele que desde o primeiro dia de vida já se transformou em um anormal. Ela não sacrifica todos aqueles que após o nascimento, apresentem transtornos orgânicos semelhantes aos do feto. E, nos casos de lesões traumáticas durante o parto, a Medicina procura socorrer a criança, dispensando os cuidados necessários por toda a vida.

Depois de nascer, a Medicina assume! Mas, no seu santuário materno existem direitos diferentes.

Deixemos que uma criança com anomalias nasça, depois assumamos o trabalho de salvar-lhe a experiência que Deus colocou nas mãos de pais e filhos e da própria Ciência!

Qual a diferença de cuidar de filhos com anomalias congênitas, dos filhos com doenças irreversíveis adquiridas, muitas vezes, na hora do parto?

Sibélius Donato Tenório, nasceu a 22 de junho de 1973, em Campina Grande - Paraíba, de parto prematuro. Até 3 anos e 8 meses não andava, nem falava e se locomovia arrastando-se de costas pelo chão. Sempre atendido por Neurologista e submetido a Fisioterapia constante, em função da sua falta de coordenação motora. Apesar da incoordenação, revelou-se um pianista e aos 5 anos criou a sua primeira composição. Até hoje não consegue ler partituras musicais. Em fevereiro de 1986, foi apresentando no Programa "Fantástico". Realizou recitais de músicas clássicas e populares em Alagoas, São Paulo, Bahia, Paraíba e em Curitiba, ocasião em que tivemos o prazer de assisti-lo.

Gostaríamos de enfatizar que somente aceitamos o aborto na única condição de risco de vida da mãe e sendo este recurso o último procedimento para salvar a genitora. Preferível salvar a mãe que depois poderá, através do atendimento médico, engravidar sem riscos, fato que temos observado nos quadros de Hipertensão Arterial.

Poderíamos continuar apresentando nossas razões pelas quais encaramos o aborto como terapêutica de exceção.

(Jornal Mundo Espírita de Outubro de 98)