Deus e o Stress

Maria Helena Marcon

Em recente pesquisa, uma psicóloga concluiu que o temor do castigo divino perturba crianças de até doze anos, ao ponto de causar stress.

Elas se acreditam vigiadas em tempo integral e sujeitas a punições, caso não se comportem devidamente.

Como conseqüência têm terror noturno, sentimento de culpa exacerbado, irritação, taquicardia, dores de estômago, dificuldade de concentração, gagueira, sudorese nas mãos e até enurese noturna.

A pesquisa revelou ainda que, de um modo geral, o problema não é religioso mas de educação. São os pais, na ânsia de colocar limites que apresentam a imagem punitiva de Deus. Algo semelhante a outros que utilizam a figura do guarda, do policial, do inspetor como símbolo aterrador, afirmando à criança que ele a levará , trancará em local escuro, se ela não cumprir o que se lhe pede.

É a educação pelo terror, sempre de conseqüências desastrosas. Criança amedrontada tornar-se-á o adulto inseguro, com incapacidade de ousar coisa alguma, de construir, pensar além dos limites estabelecidos e, desta forma, exercitar o seu poder de criatividade.

Enquanto os pais estiverem a necessitar de uma autoridade externa para impor limites aos filhos, demonstram que eles mesmos temem tomar atitudes, colocar regras. Em síntese, desejam que os filhos obedeçam, sem desgastarem a própria imagem, sem parecerem, aos seus pares, antiquados, "fora de foco", ultrapassados.

É comum se observar no supermercado pais em quase desespero perante os filhos que exigem a compra de determinado produto e ameaçam provocar escândalos. "Ou você compra, ou grito. Jogo-me no chão."

O olhar aterrado dos pais é para os lados, a verificar se alguém os observa. E antes que um mais perspicaz possa se dar conta do que ocorre, os pais sussurram ao ouvido do pequeno tirano: "Não grite. Pode levar o produto."

Mais uma vez se perde a preciosa oportunidade de colocar limites aos pequenos, a fim de que, logo cedo, aprendam que nem tudo lhes é possível ter e fazer.

Antes de nos preocuparmos com o julgamento alheio, seria bom que considerássemos que a cada pai e a cada mãe Deus indagará: "(...) Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus: que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se por culpa vossa ele se conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores, quando de vós dependia que fosse ditoso.(...)"

Antes de nos inquietarmos com o comportamento da moda, importante que nos recordemos do nosso compromisso de orientadores das almas dos nossos filhos, na presente etapa, e nos esmeremos em cultivá-las, à semelhança de cuidadoso jardineiro em primoroso jardim.

"Nossos filhos não são nossos filhos", escreveu o poeta árabe Gibran Khalil Gibran, enquanto o divino cantor galileu ensinou que o "espírito sopra onde quer; e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai."

Se, na qualidade de pais, nos empenharmos em bem conduzi-los, poderemos desde o presente guardar a certeza de que os espíritos dos filhos da nossa carne alçarão vôo ao progresso, galgando degraus rumo ao Pai, que é Amor, Bondade e Perfeição.

A tarefa não é tão difícil como possa parecer. ""(...) Não exige o saber do mundo, Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe facilita o desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da alma humana."

E antes e acima de tudo, ensinemos à criança que ela é filha de Deus, que a todos criou e sustenta por Amor. Falemos-lhes da Bondade e da Sua Providência que se manifesta nas menores coisas. Deus justo que faz que o sol se erga sobre justos e injustos, oferece as fontes cristalinas e de ímpar beleza para as necessidades dos seus filhos, preparou a escola terrena para que nela pudéssemos todos aprender, crescer, progredir.

Não ressuscitemos as velhas fórmulas mosaicas, fórmulas que serviram numa época específica e para um povo determinado. Recordemos que desde há dois mil anos, o Cristo nos falou do Pai que veste a erva do campo e providencia alimento às aves do céu. Mostremos aos nossos rebentos que eles, como espíritos imortais, fadados à perfeição são muito valiosos, jóias raras que hão de se burilar no transcurso do tempo, ao ritmo do trabalho, do esforço e do conhecimento.

Bibliografia:

  1. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, FEB, 97. ed., cap. XIV, item 9.
  2. Evangelho de João, III, 8.

(Jornal Mundo Espírita de Maio de 1997)