Entrevista com Divaldo Pereira Franco

Jornal Mundo Espírita de Fevereiro de 2001

A respeito do Movimento Espírita

01. É correto, em nome da caridade, erguerem-se instituições de amparo e socorro a necessitados de ordem material, sem recursos que as possam devidamente sustentar, optando na continuidade por leilões, bingos, quermesses e loterias para sua manutenção?

Parece-me que o momento atual convida-nos, aos espíritas, para uma atividade mais profunda em torno do conceito da caridade, que é a busca dos meios capazes de exterminar as causas geradoras da miséria econômica, decorrente do egoísmo, das injustiças sociais. A educação das novas gerações apresenta-se-nos como de caráter urgente, a fim de que o futuro possa caracterizar-se pela ausência dessa terrível chaga moral da Humanidade.

Assim pensando, não me parece justo que sejam erguidas novas Instituições sem que possuam o respaldo dos recursos financeiros para levá-las adiante, recorrendo-se a expedientes perturbadores, quais sejam: o bingo, as rifas, os leilões, as quermesses e as loterias, que são disfarces que escondem os denominados "jogos de azar" de nefastas conseqüências.

Seria ideal que os interessados em servir, apoiassem as Instituições existentes, que lutam com muitas dificuldades para se manterem, evitando que novas frentes de socorro se apresentem impossibilitadas de seguir adiante.

02. Os companheiros que compomos as equipes de trabalho no Movimento Espírita, traçamos as linhas mestras de tal encontro e tal tarefa, na Espiritualidade?

Quando estamos preparando-nos para a reencarnação e temos consciência das responsabilidades que pesarão sobre os nossos ombros, face às maravilhosas possibilidades de auto-soerguimento, elegemos algumas das tarefas que gostaríamos de executar na Terra, por serem mais compatíveis com o nosso temperamento e estrutura espiritual. Noutras vezes, mais raramente, somos convidados pelos Mentores espirituais a desenvolvermos labores que nos serão valiosos recursos de crescimento interior, enquanto contribuiremos para o processo de aceleração do progresso da Humanidade.

03. Temos observado um crescente número de obras mediúnicas portarem nomes veneráveis nos campos do bem, da ciência e das artes. Quando tais obras se situam muito aquém do que produziram quando encarnados aquelas personalidades, você tem registros de como encaram essa má utilização dos seus nomes os espíritos?

Allan Kardec, com a sua sobriedade e sabedoria, advertiu-nos a todos quanto às mistificações dos Espíritos zombeteiros e perturbadores, mas também, a respeito dos médiuns inescrupulosos e levianos, que trabalham em favor do próprio ego, abordando as conseqüências de uma como de outra atitude. Não obstante, vemos com muita freqüência a repetição de comportamentos incompatíveis com as diretrizes da Doutrina, no campo da mediunidade, mais particularmente da publicação de Obras (livros, peças de teatro, pinturas e músicas), que são firmadas por nomes respeitáveis e nobres, apresentando qualidade muito inferior ao que esses Autores produziram quando reencarnados anteriormente.

É natural que esses Espíritos se sintam constrangidos com a ocorrência, lamentando a insensatez de que são tomados os indivíduos que lhes utilizam a memória indevidamente, mas não se afligem, porque reconhecem que a responsabilidade é de cada qual, deixando os irresponsáveis semeando o futuro que os aguarda...

04. A literatura mediúnica mais recente tem trazido ao conhecimento do público histórias e relatos de pessoas que nos foram contemporâneas, detalhando suas experiências post mortem e suas tarefas assumidas na Espiritualidade, na sequência. Tal postura não pode ser prejudicial, criando oportunidades de endeusamentos?

Uma das características mais marcantes do ser evoluído é a humildade, que se revela através da discrição em torno de si mesmo, e de acontecimentos nos quais foram envolvidos, evitando evocá-los com objetivos de autopromoção e de vaidade, que prosseguem lutando para desses vícios morais despojar-se totalmente.

Se examinarmos os romances biográficos escritos por nobres Espíritos, como Emmanuel, Victor Hugo, Rochester, Charles, através de médiuns seguros, encontraremos relatos de alguma das suas experiências passadas, convidando, porém, os leitores a reflexões acuradas, a fim de que se dêem conta do que lhes aconteceram, evitando que o mesmo lhes suceda.

05. No mundo espiritual, quanto na Terra, existe um Movimento Espírita Jovem, permitindo que os jovens desencarnados prossigam em labores ou os espíritos optam por tarefas, independentemente do período que foram colhidos pela desencarnação?

Existe, sim, no mundo espiritual, um Movimento Espírita Jovem, que recebe aqueles que desencarnam em nossas fileiras ainda na quadra juvenil, estimulando-os ao prosseguimento do bom combate e preparando-os para futuros renascimentos. Quando porém, se trata de Espíritos mais elevados, transcorrido algum tempo após a desencarnação, eles reassumem a postura que independe de faixa etária e se integram nas atividades gerais do processo de evolução desenhado para o planeta terrestre assim como para eles mesmos.

(Jornal Mundo Espírita de Fevereiro de 2001)