Experiência de auditórios

Jornal Mundo Espírita - Fevereiro de 1999

Sem tomar a expressão como regra geral, pois as generalizações quase sempre correm os seus riscos, podemos dizer que a experiência de cada dia ensina muita coisa que os livros não podem ensinar. Por isso mesmo, quando se quer dizer que alguém não tem muita leitura, mas tem muita prática da vida, geralmente se fala assim: não é lido, mas é vivido. Realmente. Há pessoas que não tiveram tempo nem condições de estudar muito ou fazer cursos regulares, mas aprenderam muito, com a própria vida, na luta cotidiana. E formam um patrimônio de experiência que muita gente gostaria de ter, pois é uma riqueza que não se calcula em contabilidade. É o caso, por exemplo, de homens que nunca estudaram Psicologia, mas têm uma psicologia muito própria, um tino profundo acerca de seus semelhantes. Raramente se enganam em suas observações e restrições. Isso significa, enfim, que o embate do dia-a-dia tem seu valor, nunca deve ser desprezado, embora se reconheça necessariamente a importância do conhecimento teórico ou da cultura sistematizada. Mas a voz da experiência tem seu momento de autoridade.

Pois bem, o meio espírita oferece um dos melhores campos de experiência em diversos sentidos. Confesso, a esta altura da vida, que já aprendi um pouco, com a observação direta, vendo com os próprios olhos. Em matéria de conferências ou palestras espíritas, o contato constante com o nosso movimento já me permite colher algumas lições. A primeira observação que se faz, ou deve fazer, é a de que os auditórios espíritas são um tanto heterogêneos, não propriamente quanto a idéias básicas da Doutrina, mas quanto às tendências e preocupações pessoais. Mais ainda: as motivações são muito deferentes. Há pessoas que vão ao Centro, no dia de palestra, justamente porque gostam, fazem questão de não perder uma conferência ou explanação doutrinária; outras, diferentemente, têm as suas preferências por este ou aquele conferencista e, por isso mesmo, não demonstram interesse quando o orador ou conferencista não é exatamente o de sua simpatia; ainda outras, em número bem reduzido, vão mais pelo assunto, são motivadas, portanto, pelo tema, e não pela pessoa que vai falar; também há os que são levados, na realidade, pelos títulos humanos do conferencista ou pela projeção de seu nome na vida social ou intelectual; temos ainda os ouvintes ocasionais, sem compromisso com o meio espírita, mas apenas "observadores neutros". Como se vê, os auditórios espíritas não têm a homogeneidade que às vezes parece. As considerações que estou fazendo a esse respeito são o resultado de uma experiência já um tanto longa em recintos espíritas. Já observei, já ouvi e anotei muitas críticas e reações em palestras doutrinárias.

Afinal de contas, o que a convivência com auditórios espíritas já me ensinou até hoje foi, em resumo, o seguinte: sempre que fizermos uma palestra ou explanação, seja qual foi o tipo de assistentes, devemos ter o cuidado de "temperar" a linguagem e colocar os argumentos em condições de atender a todos, pois o expositor espírita nunca fala exclusivamente para uma assembléia uniforme, sob o ponto de vista da motivação. No mesmo auditório, com assistência às vezes pequena, sempre encontramos pessoas situadas em faixas de interesse diferentes: aquelas que têm apenas sede de conhecimento puro, mais preocupadas com o lado intelectual, e aquelas que têm problemas íntimos e comparecem a reuniões de palestras porque estão precisando de conforto ou de esclarecimento. Tenho alguma experiência nesse sentido, porque já vi e ouvi muito, repito.

Uma conferência de profundo teor filosófico é importante, não há dúvida, mas se o conferencista ficar somente na especulação ou na exatidão do raciocínio puramente analítico, sem descer a exemplos e comentários que toquem mais fundo no sentimento, pode estar certo de que falou apenas para uma parte do auditório, correspondeu simplesmente a uma categoria de ouvintes. E por quê? Justamente porque – é a experiência vivida que fala novamente – nos auditórios espíritas, até mesmo nos dias de solenidade, sempre há pessoas a bem dizer arrasadas emocionalmente ou vivendo dramas dolorosos, e que esperam uma palavra de apoio espiritual, desejam receber algum lenitivo para aliviar dores da alma.

Os assuntos muito especializados são válidos e oportunos, mas para auditórios restritos, pois nem todos os ouvintes estão no mesmo nível de conhecimento doutrinário e, por isso, não podem compreender bem a posição do expositor ou conferencista. Há ouvintes – não esqueçamos disto – que nem sequer têm noções introdutórias de Espiritismo e, portanto, desconhecem os conceitos espíritas, não estão familiarizados com os termos da Doutrina. Mais uma vez, não faz mal bater na tecla: a composição dos auditórios espíritas, a não ser em casos especiais, não é tão homogênea como poderia parecer. As assembléias maciças, como se diz, principalmente nos dias de conferências mais relevantes, tomam realmente uma feição compacta, mas apenas do ponto de vista humano, como concentrações vultosas; entretanto os assistentes, que vibram no diapasão geral, se dividem muito, intimamente, pois nem todos têm a mesma formação, a mesma embocadura doutrinária, a mesma origem religiosa, a mesma linha ideológica, e assim por diante. Além desse aspecto, que é ponderável, há outro, igualmente sério: a presença de pessoas que, embora não tenham idéias espíritas, nada entendam de perispírito, "vidas sucessivas", fenômenos de animismo, etc, etc, estão ali por necessidade, em estado de desespero, à procura de conforto espiritual, e nada mais. Estão, finalmente, sequiosas de mensagem. E se o orador, conferencista ou expositor não deixa mensagem, ainda que apresente um trabalho substancioso, científica ou filosoficamente falando, o esforço fica incompleto, porque não deu para ir ao encontro daqueles que, engrossando a multidão atenta, esperam mais alguma coisa... É muito sutil a psicologia dos auditórios espíritas. E, por isso mesmo, devemos aprender sempre com a experiência.

(Jornal Mundo Espírita de Fevereiro de 1999)