Filhos Nossos

Maria Helena Marcon

O poeta Vinícius de Moraes eternizou em um de seus poemas a frase:
"Filhos? Melhor não tê-los."

Enquanto uns são partidários do amor a dois, exclusivista, e que não se deseja perpetuar na descendência, temerosos de dividir, partilhar, outros desejam filhos com o só objetivo de auto - realização, concretização de um ideal pessoal.

Há poucos dias, a imprensa se preocupou em alardear pelos seus vários canais, a gravidez de uma celebridade do panorama artístico nacional.

Sua vontade de gerar um filho não é segredo para ninguém, pois que o vem afirmando de há muito. O que espantou foi, contudo, a forma com que foi apresentada a gravidez e o futuro filho.

Algo essencialmente seu, pessoal. Alguém que lhe completaria os dias, que a fariam jamais voltar a se sentir só.

Ao mesmo tempo, em um programa televisivo, apresentou-se o drama de uma mãe que descobre que sua filha, mãe pela primeira vez, não poderia voltar a engravidar e o filhinho, de poucas horas, morre. Em nome de um pretenso amor, pois que o verdadeiro amor é sábio e ponderado, essa mulher toma do próprio filho, nascido no mesmo dia que o neto e, auxiliada pelo médico de plantão, realiza a troca das crianças, deixando o sadio com a filha.

Em todo o diálogo, apresentado pela programação, o que a personagem que assim agiu deixou evidente era de que o filho lhe pertencia e dele poderia dispor. Em momento algum, recordou o marido e pai da criança, a dor que lhe estaria causando e de que, ele igualmente, era parte interessada e extremamente envolvida no processo.

As duas situações nos levam a reflexionar a respeito de como consideramos os seres que geramos.

Espantamo-nos com as manchetes que nos informam acerca da venda de seres humanos, como escravos, de pais que, em países orientais oferecem seus filhos como pagamento de dívidas contraídas e não pagas. Crianças de tenra idade que são encaminhadas para o mercado de trabalho, em regime de escravidão, expostas a contágio de enfermidades, na manipulação de material hospitalar ou expostas a desenvolver deformidades físicas, face a posições viciosas de horas intermináveis que devem permanecer.

Ao tempo que isso nos horroriza, aceitamos e até aplaudimos as chamadas produções independentes em que o homem funciona como um simples objeto para a reprodução, descartável a qualquer momento, desde que cumpriu o seu papel.

De forma semelhante agem algumas espécies animais, como a abelha rainha e algumas aranhas. E, nesses casos, o que a natureza está prescrevendo é a continuidade da espécie.

Entretanto, ao se falar de seres humanos, dotados de razão e de senso moral, é inconcebível que assim procedamos. O que nos preocupa é o exemplo, apresentado e alardeado como algo positivo.

Não há, desta forma, porque se conceber que as produções independentes sejam excelente opção. A mulher que busca, na maternidade, sua auto-realização, demonstra egoísmo, eis que não está a seu preocupar com o bem estar do filho que está gerando.

Tanto quanto não está se recordando de que o fato de gestar um corpo para um espírito, na experiência da maternidade, não lhe confere direitos sobre ele.

Os filhos vêm através de nós, como dizia o poeta Kalil Gibran, mas não nos pertencem. Abrigamos os seus corpos, mas não as suas almas, porque elas vêm de Deus e para Ele deverão retornar, no incessante processo evolutivo.

Bem nos ensinam os espíritos do Senhor, na questão de número 582 de O Livro dos Espíritos, de que a paternidade é uma missão. "E, ao mesmo tempo um dever muito grande, que implica, mais do que o homem pensa, sua responsabilidade para o futuro. Deus põe a criança sob a tutela dos pais para que a dirijam no caminho do bem, e lhes facilitou a tarefa, dando à criança uma organização débil e delicada, que a torna acessível a todas as impressões. Mas há os que mais se ocupam de endireitar as árvores do pomar e fazê-las carregar de bons frutos, do que de endireitar o caráter do filho. Se este sucumbir por sua culpa, terão de sofrer a pena, e os sofrimentos da criança na vida futura recairão sobre eles, porque não fizeram o que lhes competia para o seu adiantamento nas vias do bem."

Os filhos vêm através de nós, mas não nos pertencem.

(Jornal Mundo Espírita de Janeiro de 1998)