Ignorância ou maldade?

João da Silva Carvalho Neto

A Doutrina Espirita, pela amplitude de sua abordagem, possibilitando-nos incursões nos múltiplos aspectos do ser humano, oferece, em contrapartida, espaços para as interpretações e os chamados "achismos", conforme ouvimos falar. Allan Kardec, preocupado com essa inevitável ocorrência, articulou esforços no intuito de melhor fixar os postulados básicos do espiritismo, mas, na prática, nem sempre alcançamos consenso. Entre outras situações, tal se dá na aplicação dos conceitos do Bem e do Mal.

Em o "Livro dos Espíritos", questão 630, os benfeitores espirituais afirmam a Kardec que "o bem é tudo o que está de acordo com a lei de Deus, e o mal é tudo o que dela se afasta".

Alargando mais informações em "A Gênese", no capítulo III, afirma Allan Kardec que "sendo Deus o princípio de todas as coisas e sendo todo sabedoria, todo bondade, todo justiça, tudo o que dele procede há de participar dos seus atributos, porquanto o que é infinitamente sábio, justo e bom nada pode produzir que seja ininteligente, mau e injusto. O mal que observamos não pode ter nele a sua origem". Origem essa que, conclui o codificador, procede do próprio homem no exercício do seu livre-arbítrio.

Contudo estamos a assistir expositores, oradores, coordenadores de grupos de estudo a dizer que o mal não existe, mas sim a ignorância, que se traduz em atos equivocados. Erro doutrinário explícito! O mal existe e é "tudo o que dela (a lei de Deus) se afasta".

Acreditamos que a questão a ser levantada é de quando a responsabilidade pelo saber caracteriza uma atitude no mal, ou quando a atenuante do desconhecimento sugere ignorância das leis divinas.

Em pedagogia humana, a linha demarcatória, entre o saber ou não, está situada sobre a capacidade de aplicar. Para que um conceito seja considerado aprendido seguem-se três etapas sucessivas: conhecimento, compreensão e aplicação.

O conhecimento é o contato intelectivo com o que se vai aprender. Seus aspectos exteriores, sua estrutura sustentável, seus conceitos cognitivos. Conhecer é poder repetir o que se viu ou ouviu, sem comprometimento com o entendimento. Este vem com a compreensão, que viabiliza a articulação dos conceitos em torno de uma idéia geral, tornando-a clara e explicável. Quem compreende dificilmente esquece, e pode repetir a qualquer momento, mesmo que com aspectos exteriores diferenciados e estrutura modificada, mas guardando o cerne da conceituação. Entretanto, somente a capacidade aplicativa pode testemunhar a favor do saber, já que o ser humano é interativo com a criação divina e nada terá significado sem as respectivas conexões com sua vida de relação. Saber aplicar é diagnosticar a utilidade do que se conhece e compreende, nas variadas situações da vida, fazendo uso adequado e espontâneo quando necessário.

Parece difícil, mas talvez fique mais claro com um exemplo prático. Um aluno que conhece em escola o método de cálculo para somar 2 mais 2, e compreende esse método a ponto de utilizá-lo em outras somas, precisa saber aplicá-lo, para calcular o valor de suas compras no supermercado. Sem isso o conhecimento é inútil.

Como as ciências humanas, imperfeitas, caminham para a perfeição das leis divinas, e portanto são uma parte do absoluto que já conseguimos alcançar, é possível entrever a pedagogia divina pela compreensão da pedagogia humana.

Podemos dizer que o estágio da ignorância, onde as atenuantes minimizam nossos erros, está sediado nos períodos de busca do conhecimento e da compreensão das leis do Criador. Por outro lado o mal, na conceituação espírita, seria a negligência na sua aplicação, quando na verdade já se é capaz de fazê-lo.

Aquele que apenas conhece e compreende o código cósmico da vida ainda não alcançou a responsabilidade de quem está apto à vivenciá-lo e, por isso mesmo, é considerado ignorante porque ainda não sabe, no contexto da pedagogia divina. O que já alcançou essa graduação, a do saber, traz em si o dever de aplicá-lo e, quando não o faz, incorre em um mal.

Tudo isso pode parecer vã filosofia, que se perde com o descarrilar das letras, que formam palavras, que formam frases, que formam parágrafos, que formam textos... Mas é nesse princípio que se baseia a atuação da lei de causa e efeito, a imprimir marcas de maior ou menor profundidade na tessitura sensível de nosso perispírito. As conseqüências negativas de nossos atos errôneos, gerando doenças e percalços no caminho, nos atingirão em maior ou menor gravidade tal qual seja nosso avanço no processo pedagógico do conhecimento, da compreensão e da aplicação das leis de Deus.

Portanto, se hoje nossas consciências se inquietam, sugerindo-nos comportamentos mais adequados, estejamos atentos pois esta já poderá ser a nossa hora de aplicar.

Podemos dizer que o estágio da ignorância, onde as atenuantes minimizam nossos erros, está sediado nos períodos de busca do conhecimento e da compreensão das leis do Criador.

(Jornal Mundo Espírita de Dezembro de 1998)