Incoerências

Antônio Moris Cury

A observação do cotidiano está a indicar que o ser humano em geral é incoerente.

Com efeito, não é raro encontrar-se médico, no pleno exercício da profissão, que fume, não obstante saiba, mais do que ninguém, quantos malefícios físicos provoca o uso do tabaco.

Mais comum ainda é deparar-se com o ser humano, de variada formação profissional, que rogue aos céus por saúde, repetidamente, apesar de estar quase que o dia inteiro com o cigarro entre os dedos.

É curioso, deveras.

Não se pode deixar de considerar que, quanto ao cigarro especificamente, a propaganda é bem feita, particularmente a veiculada pela televisão, eis que nela sempre há muito sol, muitas cores, paisagens magníficas e a prática de esportes por jovens bem arrumados e de aparência impecável, que procura dar a entender, subliminarmente, que tudo aquilo é devido ao seu uso, o que revela, por si, a existência de enorme incoerência, além de constituir-se em propaganda manifestamente enganosa.

Ora, o uso do raciocínio demonstra que a prática de qualquer esporte é incompatível com o uso do cigarro, que, como se sabe, não traz nenhum benefício a quem fuma.

Mais curioso ainda é que, por força legal, atualmente as fábricas são obrigadas a imprimir, nos cartazes de publicidade e até mesmo nos maços de cigarro, a advertência do Ministério da Saúde indicando que o fumo faz mal à saúde, que provoca câncer de variadas espécies, que provoca infarto do miocárdio e outros tantos males cardíacos, etc., mas que, não obstante, continuemos fumando e nos prejudicando (e também aos outros, que não fumam e que se vêem, muitas vezes, obrigados a participar passivamente desse envenenamento), como se o aviso nada tivesse a ver conosco.

Não deixa de ser curioso e incoerente, por igual, que o governo arrecade um volume extraordinário de impostos incidentes sobre o cigarro, cujo volume, todavia, não é suficiente sequer para atender aos pacientes dos males provocados exclusivamente pelo uso desse mesmo cigarro...

Estatísticas indicam que a nicotina e o alcatrão, existentes no cigarro, criam terrível dependência e que a vida física do fumante é encurtada em catorze minutos, a cada cigarro consumido.

Por outro lado, há inconteste incoerência quando o líder solicita pontualidade aos integrantes do grupo, mas, nada obstante, ele próprio chega atrasado às reuniões, fato que, lamentavelmente, tem acontecido até mesmo no meio espírita.

Também mostra-se incoerente a postura de quem pede saúde aos céus e, simultaneamente, faz uso de bebidas alcoólicas, sob variados pretextos: se está frio, para esquentar; se está calor, para refrescar; se está triste, para se alegrar; se está alegre, para festejar; se ainda não está na hora da refeição, para abrir o apetite; etc.

Ora, o mínimo de álcool de que necessita o corpo físico está contido em vários alimentos de uso diário, de tal modo que é absolutamente dispensável a ingestão de alcoólicos, destilados ou não, uma vez que o ser humano pode viver muitíssimo bem sem eles, e, não obstante, ser alegre, verdadeira e autenticamente alegre.

Ademais disso, como se sabe, o uso da bebida alcoólica tem provocado inúmeras e graves enfermidades, a tal ponto que, hoje, pacificamente, o alcoólatra é considerado um doente e, como tal, vem sendo tratado.

Igualmente, há incoerência quando se pede paciência e se é impaciente ou quando se pede paz e se é partícipe de verdadeira guerra doméstica, máxime quando se sabe que a família é a célula-mãe da sociedade.

Finalmente, nesses poucos dentre incontáveis exemplos do dia-a-dia, é incoerente o pai que ensina o filho a não mentir e que, quando soa o telefone, pede-lhe que atenda e diga que ele não se encontra em casa.

A melhor educação, sem dúvida, é o exemplo. A teoria convence, mas o exemplo arrasta.

A Doutrina Espírita convoca-nos permanentemente ao uso da lógica, do equilíbrio, do bom senso e, sobretudo, da razão, chegando até mesmo a aconselhar que aquilo que não passar pelo crivo de nossa razão deve ser rejeitado, qualquer que seja a área do conhecimento, motivo pelo qual defende ardorosamente a fé raciocinada.

O uso da razão, do raciocínio, quando repetido e continuado, permite apurada análise dos atos e fatos, com lógica conclusão, daí porque quem se acostuma a raciocinar está em plenas condições de agir coerentemente, de ser coerente.

Como se vê, a coerência é uma virtude que pode ser conquistada pelo reiterado uso da razão.

(Jornal Mundo Espírita de Janeiro de 2000)