Libertação: Um processo em progressão

Leda Marques Bighetti

É o homem a posição mental em que se situa expressando-se conforme a emoção que o anima.

Assim, poderá renascer em condições de penúria, na família consangüínea complicada, no meio social corrupto, problemático, passando inclusive longo trecho da existência em perigosos e comprometedores arrastamentos ao mal.

Em qualquer instante, porém, poderá acordar para as responsabilidades da reencarnação e a partir do momento em que se determina ao dever de se elevar, trabalhando o raciocínio com o estudo, a compreensão, voltando-se para as atitudes corretas, em breve tempo, terá atraído forças, mentes, braços, corações encarnados e desencarnados, prontos, trabalhando lado a lado, ajudando-o a se fortalecer, ver mais longe, enxergar melhor a finalidade da existência no dinâmico processo da vida.

Entendendo agora que cada criatura está no lugar certo, na hora própria, na circunstância que necessita, como importante programa a realizar em favor de si mesmo, não desalenta, nem titubeia no caminho a percorrer.

Atento, realiza cada compromisso, por mais insignificante que pareça, na certeza daquele que entende que é no treino com eles, que as realizações maiores do futuro estão se preparando.

Entende o aplauso, a consideração do mundo, a crítica desdenhosa, o aparte, a apreciação mesquinha, como testes à resistência moral.

Não se omite ao bem, agora, efeito natural da fé que mantém. Cultiva o hábito da solidariedade, sem exigências ou solicitação alguma. Ajuda sem ser servil, permanecendo livre no amor e na ação solidária.

1 - O que aconteceu com esse homem, mergulhado por tanto tempo em situações e meios tão adversos e conturbados?

De certa forma, representa ele a odisséia de cada Espírito, que na romagem dos tempos, vem, através das existências, convivendo e detendo-se frente aos apelos negativos da marcha, mergulhado nas emoções do desespero, considerando e vendo apenas adversários, ingratidões, vinganças e ódios, uma vez que a mente descontrolada, nega-se a melhorar, abrir seu campo, sintonizando apenas com o prejuízo e a desconsideração.

Espírito algum, porém, conseguirá marginalizar-se indefinidamente, entregue só a si mesmo. Os impositivos do progresso o alcançarão e, nesse tempo, exausto das surpresas doloridas do caminho que escolheu trilhar, sem forças, deseja, aspira, sonha superar seus próprios impedimentos e ressarcir as dores que haja semeado. Buscando reequilíbrio, impor-se-á por auto-escolha, situações duras a exigir-lhe enorme responsabilidade, onde as horas da própria angústia serão usadas para favorecer o sorriso nos lábios alheios.

Esses Espíritos, mais sentem do que sabem que estão se erguendo do abismo a que se precipitaram pelo egoísmo e orgulho, pelo desrespeito às leis da vida, e agora se esforçam buscando recuperar no tempo, o homem que se enganou.

2 - O que representará ponto básico numa caminhada?

Após essa conscientização da situação e avaliação das necessidades e possibilidades próprias, várias providências e situações se somarão para esse longo curso das realizações pessoais, pressupondo-se um paralelo, as contínuas análises íntimas, aferições, retomadas, replanejamentos e recomposições. Entre tantos detalhes, porém, sobressai um bloco, o conjunto formado pela disciplina da mente, vontade e educação.

3 - Por que disciplina da mente?

Esse regime de ordem que livremente o ser se impõe, direciona-o a pensar com mais acerto, separando a interferência dos desejos e supostas necessidades, concentrando-se nos objetivos ideais. Através do pensar, refletir, analisar, comparar, avaliar, exercita a mente ampliando-lhe a capacidade de discernir, apreciar, escolher, identificando os novos rumos ao alcance, descobrindo valores que estão desperdiçados, propondo-se continuamente significados que antes não eram percebidos.

Pela disciplina da mente, desperta a atenção, amplia o raciocínio, percebe a realidade, participa dos acontecimentos em integral lucidez, de forma clara, consciente, onde supera os automatismos para guiar-se pelas realizações da inteligência unida, aliada ao sentimento enobrecido.

4 - O que orientará esse regime de ordem, essa disciplina mental?

Sem sombra de dúvida - a vontade. Inicialmente apenas uma faculdade, uma aptidão nata, deverá ser acionada a partir da ação consciente, onde o ser, aberto para aprender, memorizar, escolher, vai se exercitando frente às imposições do meio físico e cultural em que se desenvolve.

Nesse conjunto exercerá papel destacado a educação, que colocando-o frente a frente à sua potencialidade, exercer-se-á de dentro para fora, produzindo efeitos de profundidade, onde conduz o processo, agora totalmente dependente desse comando pessoal, para acionar a vontade disciplinando a mente.

Na identificação consciente dos valores, na seleção, no desenvolver das aptidões em gérmen, guiando com segurança através das aprendizagens, vai acontecendo a formação dos hábitos bons, que formam o caráter do ser que se liberta.

Nesse processo das contínuas retomadas corrigir-se-ão as inclinações, que induzem à queda moral, à repetição dos enganos.

A disciplina do pensamento e a vontade estão implícitas, justamente para que uma vez dilatado o campo íntimo, ordene-se-o para as conquistas nobres do sentimento, liberando-o das condições primárias e armando-o de recursos que só resultarão em benefícios, que se ampliam em progressão, buscando o ideal, a meta.

Ainda pela educação age o homem não só sobre si, mas altera o meio em que atua pela conseqüente vivência dos valores culturais, morais e espirituais, que agora lhe são imprescindíveis.

Decorre destes raciocínios, não ser de interesse adiar, transferir, a tarefa da auto-educação, no renovar-se gradativo, contínuo, uma vez que o não elaborado agora, ressurgirá complicado, em posição difícil, com agravantes que cada vez mais obstarão, dificultando a remoção, a superação.

Agora, portanto, é que conscientemente, com menos dificuldade, se torna possível trabalhar, antes que hábitos e acomodações se somem, se incrustem, dificultando as primeiras providências para iniciar um dia, a reversão.

Educação, trabalho íntimo, pessoal, intransferível, da mente, do corpo, da alma, como meio de adaptação à vida para onde seguimos.

Enriquecidos por esse ideal, após os primeiros passos, no contínuo desligar das amarras com regiões e hábitos inferiores, mais e mais fácil vai se tornando essa evolução espiritual direcionada agora num contínuo ascender, onde o Evangelho de Jesus se configura como Caminho, Verdade e Vida, uma vez que Sua vivência ali contida não se limita a lições que sirvam a um breve período da existência, mas se projetam, buscando na vida, a totalidade de Espírito imortal em progressão, na busca da felicidade nos caminhos da volta para o Pai.

Ribeirão Preto - SP

Bibliografia:

(Jornal Mundo Espírita de Agosto de 1997)