Morte Silenciosa

Maria Helena Marcon

Todos os dias, enquanto nos hospitais e clínicas particulares inúmeros médicos e enfermeiros lutam pela vida dos seus pacientes, muitas outras vidas são destroçadas.

E suas mortes não constam das manchetes retumbantes, nem nos noticiários da televisão. Passam simplesmente anônimas.

Na verdade, poucos são os que se dão conta de que elas ocorrem. Falamos dos seres que não chegaram a nascer e tiveram suas vidas ceifadas, à semelhança de um hábil agricultor, extirpando de seus canteiros a erva daninha.

Bocas são silenciadas antes de se abrir para os primeiros balbucios. Mãos que poderiam acariciar, braços que se preparavam para as trocas dos carinhos foram simplesmente destruídos. Pernas e pés que ainda não se firmaram para andar, correr, saltar, não o farão jamais.

São embriões e fetos, seres vivos, todos os dias jogados à vala da indiferença.

Sim, são muitos os motivos que levam alguém a abortar o fruto das suas entranhas. Desespero, aflição, ignorância, comodismo, problemas financeiros e familiares.

Nada que o justifique, prosseguindo a ser crime perante a lei divina, que, desde os dias do Decálogo, prescreve não matar.

Percebemos que enquanto crescem os movimentos ecológicos, de alerta ao respeito pela natureza, à terra em que vivemos; enquanto os grupos de apoio à fauna e à flora se multiplicam, poucos são os que se erguem para falar em nome desses pequenos seres que têm suas vidas destruídas, antes de vir à luz.

E são seres humanos, com a única diferença de não possuírem ainda um documento de cidadania.

Quando deixaremos de ser tão insensíveis aos problemas alheios e nos envolveremos, batalhando pela vida?

Quantos de nós sabemos das intenções de abortamento de uma amiga, uma colega de trabalho, parente ou familiar e nada fazemos, com a desculpa de que cada qual é dono de sua própria vida?

Para quem sabe e não esclarece, nada faz por evitar o crime, há também culpa por omissão. Quanta vez a criatura que se decide pelo abortamento, o faz porque não encontrou em seu caminho u’a mão que lhe detivesse a tentativa, uma voz que lhe falasse acerca da vida em geração em seu ventre, como um filho de Deus!

Sempre se constituirá em infanticídio o aborto delituoso, mesmo quando aceito e tornado legal nos estatutos humanos. Um covarde processo de que se utilizam uns tantos para fugir à responsabilidade, incorrendo sempre em grave falta.

Se puderes, luta pela vida desses pequeninos! Se, eventualmente, já cometestes o abortamento alguma vez, volta-te para esses outros pequenos que vivem na terra, ao abandono, e ampara um deles. Doa do teu amor porque, bem poderá acontecer que Deus, em sua infinita misericórdia, dessa forma, te permitirá reencontrar o espírito que te estava destinado para filho do coração.

(Jornal Mundo Espírita de Outubro de 1997)