Não se pode servir a dois senhores

Jornal Mundo Espírita - Novembro de 2000

NÃO HÁ COMO CONTEMPORIZAR COM SISTEMAS DIVERGENTES NO MEIO ESPÍRITA

"Allan Kardec, nos estudos, nas cogitações, nas atividades, nas obras, a fim de que a nossa fé não faça hipnose, pela qual o domínio da sombra se estabelece sobre as mentes mais fracas, acorrentando-as a séculos de ilusão e sofrimento". - Bezerra de Menezes

Lins de Vasconcellos, um dos mais notáveis dentre os espíritas contemporâneos, que empreendeu vitoriosa saga em favor do trabalho da unificação e da difusão da cristalina Doutrina Espírita, sem jaça, sem distorções, sem concessões desfigurativas, pregava em alto e bom som: "A Doutrina está exarada na Codificação e nas obras que lhes são subsidiárias, e o Movimento é a incorporação da Doutrina ao "modus operandi" daqueles que se encantaram pela mensagem kardequiana". 1

Buscando não deixar dúvidas sobre seu posicionamento, insistia, esclarecendo, corajosamente: "É mister considerar que a Doutrina se incorpora no mundo através do Movimento Espírita e que os espíritas somos o corpo da Doutrina revelada por Allan Kardec, e a nós não nos cabe a mesma posição farisaica dos nossos antepassados, nem a atitude soberba e mesquinha, fraudulenta e vil daqueles que não tiveram os centros da vontade motivados pela revelação da verdade". 2

Logo, não se pode pensar um movimento espírita que não esteja fundamentado unicamente nos postulados espíritas, colhidos na fonte veneranda da Doutrina Espírita. O Movimento deve refletir, sem sombras ou mesclas, o Espiritismo por inteiro.

Como não se pode imaginar o espírita com duas condutas divergentes: a conduta do homem e a conduta do espírita, também não se pode imaginar o movimento espírita ora acontecendo segundo os preceitos kardequianos, ora segundo outro preceito qualquer, aceito equivocadamente no seu contexto em nome do respeito ao pluralismo de idéias decorrente de uma dinâmica mundial que caminha para a globalização de algumas áreas da ação humana, globalização essa sem aceitação plena e ainda muito pontual, mas, mesmo assim, já contestada por muitos, principalmente por determinados efeitos em cascata, como é o caso das chamadas crises financeiras. A Doutrina progressista preconizada por Allan Kardec está calcada numa evolução natural da mesma, porém sem rompimento com as sua bases de sustentação. Modernidade e modernice têm diferenças fundamentais.

Assim, pretender-se, em nome da modernice, flexibilização de idéias ou de postulados quanto ao movimento espírita, como solução para desaparecimento de divergências entre sistemas doutrinariamente de há muito divergentes, é dar tiro no próprio pé, prestando um desserviço à Causa, gerando confusão caótica, induzindo rompimentos. Ou determinada pessoa ou instituição adere aos postulados espíritas, ou não adere. Não existe meio-espírita, nem meia-adesão. Como flexibilizar posição espírita diante do ramatisismo, roustainguismo, ubaldismo, armondismo, umbandismo e outros "ismos"? Em nome da indulgência, aceitarmos tudo como se Espiritismo fosse? Se por aí se seguir, logo teremos federações espiritualistas ao invés de espíritas.

Indulgência, sempre; conivência, jamais.

Respeitar idéias alheias, sim; acatá-las, não obrigatoriamente.

Dirão uns, repetindo texto de O Evangelho Segundo o Espiritismo (X, 16), que "a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita"; e é verdade, mas não está dito aí que em nome da indulgência se deve fazer concessões que desfigurem o essencial, ou que tenhamos que compartilhar idéias que não se coadunam com os posicionamentos doutrinários, só para atender a moda da globalização com o sofismático título de unificação indulgente, como se a dita globalização tornasse obrigatórios mistura, miscigenação, sincretismo doutrinário, sob pena de estarmos perdendo o bonde da história!

É indispensável manter o Espiritismo, qual foi entregue pelos Mensageiros Divinos a Allan Kardec, sem compromissos políticos, sem profissionalismo religioso, sem personalismos deprimentes, sem pruridos de conquista a poderes terrestres transitórios. 3

O que se nota, a bem da verdade, é que ainda não há rigor suficiente das instituições espíritas para com a pureza doutrinária tão-necessária, pois não se viu bater em retirada de todos os rincões do meio espírita os sistemas divergentes, que teimam em se alojar aqui e ali, na tentativa de, pelo decurso do tempo, serem confundidos e aceitos como Espiritismo de fato: ramatisismo, roustainguismo, ubaldismo, armondismo, umbandismo etc, e mais os apometristas, cromoterapistas, pomadistas, cepistas etc. O que se quer é a transparência doutrinária no movimento espírita ou a confusão doutrinária? Se for transparência doutrinária, então, maior rigor para com os divergentes, a fim de que desanimem e se afastem de vez por todas. A vida moderna, globalizada ou não, está a pedir, isso sim, posicionamentos e comportamentos firmes e consentâneos com a proposta espírita.

Como bem recomenda o ínclito Codificador, em Viagem Espírita 1862, pág. 33: "O excesso em tudo é prejudicial, mas, em semelhante caso, vale mais pecar por excesso de prudência do que por excesso de confiança".

Se mesmo sem aceitar-se a pluralidade de idéias divergentes e a flexibilização de postulados (absurdo dos absurdos), já se tem todas essas enxertias, imaginemos o laisse faire ora sonhado como diretriz oficial! Aliás, não sonho, delírio.

Tudo indica que o que se pretende, sob a falsa alegação de fraternidade (já que esta, enquanto tola, tudo aceita) e indulgência, é corroborar pontos de vista pessoais e situações esdrúxulas hoje já existentes, e, assim, unificados, darmo-nos as mãos e fazermos do e no movimento espírita o que bem entendermos, desde que todos digam que "aceitam" as idéias de Kardec ... depois das suas próprias. Ou é ingenuidade ou é caso pensado de quem as está propondo. Não caiamos nessa armadilha.

Ainda _ e sempre _ o bom senso reencarnado lecionando (também no Viagem Espírita 1862, pág. 103): "Se, pois, eu tivesse que opinar em uma divergência, eu me preocuparia menos com as causas e mais com as conseqüências".

Essa é a linha ora pretendida como Diretrizes da Dinamização das Atividades Espíritas para o Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira, em documento a ser apresentado na próxima reunião prevista para os dias 10 a 12 de novembro, em nome de "releitura da unificação", buscando, agora, "unificação com indulgência".

Unificação, sim; miscelânea, jamais.

Kardec é único. Espiritismo também, por conseguinte.

Allan Kardec sempre preconizou a unidade doutrinária. Não há o menor espaço para compor com outras idéias, que não sejam ou convergentes e em uníssono com as suas, ou reflexos luminíferos destas.

Kardec não se lê no plural, é singular.

Não ao pluralismo e não à flexibilização. Kardec unicamente.

É inútil insistir. Ninguém lobriga êxito servindo a Deus e a Mamon, simultaneamente. 4

Convém mergulhar o entendimento nas fontes austeras e nobres da Revelação, para que a nossa sementeira não seja inócua, ou, quando menos, não se transforme em espezinhamento dos tesouros da verdade. 5

Solidários, seremos união. Separados uns dos outros, seremos pontos de vista. Juntos, alcançaremos a realização de nossos propósitos. Distanciados entre nós, continuaremos à procura do trabalho com que já nos encontramos honrados pela Divina Providência.6

É óbvio que solidários e unidos em Kardec.

Também oportunas as lições do Espírito Camilo, conforme encontramos no livro Correnteza de Luz, Cap. 7, Contra Serviços, psicografia de Raul Teixeira: "O Espiritismo para ser grande e vitorioso entre os homens, não necessita desses arranjos; não admite em seus arrazoados o que não se apóie na amadurecida coerência com o equilíbrio, com o bem geral, com a disciplina. Todos esses que o exploram para obter qualquer tipo de lucro passageiro ou que o mutilam, a fim de se exaltarem, nos processos da sua vaidade, darão conta disso, um dia, sem que lhes faltem, ao redor de seus passos, aqueles mesmos indivíduos aos quais enganaram, explorandolhes a boa fé ou a credulidade, ou aquelas outras criaturas as quais engodaram e desencaminharam com seus raciocínios imaturos ou falseados, apenas em nome do personalismo que não puderam ou não quiseram deter.

....

O de que carece o Movimento Espírita, em seus labores, é daqueles que se sintonizem com a lógica do pensamento espírita, aprumada nas considerações clarificadoras do Espírito da Verdade, capaz de facear o avanço intelectual terrestre, sem temores, sem tibieza, estabelecendo a inabalável fé, que faz a alma crescer, iluminarse, libertandose do cruel pieguismo ou da exaltação neurótica ou, ainda, do anseio de domínio da opinião, quando uma luz mais alto se ergue, a do Cristo, que o Espiritismo alimenta com os óleos da sua celeste inspiração."

Unidade doutrinária foi a única e derradeira divisa de Allan Kardec, por ser a fortaleza inexpugnável do Espiritismo. Que seja o nosso lema, o nosso norte, a nossa bandeira.

É o próprio Codificador que nos chama a atenção: A tática ora em ação pelos inimigos dos Espíritas, mas que vai ser empregada com novo ardor, é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e a inveja. Não vos deixeis cair na armadilha; e tende certeza de que quem quer que procure, seja por que meio for, romper a boa harmonia, não pode ter boas intenções. (Revista Espírita _ Ano V _ fevereiro 1862 _ Vol 2.)

Seja Allan Kardec, não apenas crido ou sentido, apregoado ou manifestado, a nossa bandeira, mas suficientemente vivido, sofrido, chorado e realizado em nossas próprias vidas. Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo conturbado espera de nós pela unificação. 7

1 Lins de Vasconcellos, Mundo Espírita de junho de 1995, pág. 5, ora reproduzido na pág. 12 desta edição;
2 Idem;
3 Bezerra de Menezes - Psicografia de F. C. Xavier Unificação - "Reformador" dez./1975;
4 Lins de Vasconcellos, Mundo Espírita de junho de 1995, pág. 5, ora reproduzido na pág. 12 desta edição;
5 Idem;
6 Bezerra de Menezes - Psicografia de F. C. Xavier Mensagem de União - "Unificação" nov.-dez./1980.
7 Idem.

(Jornal Mundo Espírita de Novembro de 2000)