O que nos pertence?

Antônio Moris Cury

Não é de hoje que se observa a luta titânica do ser humano para reunir bens e valores, móveis, imóveis, semoventes, jóias, dinheiro, obras de arte etc., com a finalidade de garantir-se e, particularmente, com o objetivo de garantir o seu futuro.

Importante frisar, desde logo, que a busca do bem-estar é absolutamente legítima, se legítimos e morais forem os meios empregados na sua obtenção.

Convém não perder de vista, entretanto, que não é preciso muito para ter-se uma vida boa e digna.

Com efeito, engana-se quem imagina ser proprietário, verdadeiramente, dos bens materiais que tenha amealhado.

Trata-se de um mordomo, de um administrador desses bens, cabendo-lhe a tarefa de sua preservação, que será obrigatoriamente temporária, uma vez que, por ocasião de sua morte física, de sua desencarnação, tais bens serão transferidos a seus herdeiros ou sucessores.

Seus herdeiros ou sucessores, por sua vez, recebendo os bens materiais deixados, passam a ser, também, seus mordomos, seus administradores, igualmente em caráter transitório, eis que, por ocasião da morte de seus corpos físicos, verificar-se-á o mesmo procedimento, isto é, os bens materiais serão transferidos, por igual, aos seus herdeiros ou sucessores, que, de sua parte, passam a ser os seus administradores,, os seus mordomos, e assim sucessivamente.

Em outras palavras, em verdade, apenas estamos tomando conta dos bens materiais integrantes de nosso patrimônio.

Fica muito fácil entender, portanto, que os bens da Terra na Terra ficarão. Ninguém os levará como parte de sua bagagem para o outro lado da vida, a verdadeira vida, a vida espiritual, de onde todos proviemos e para onde todos voltaremos.

O ser humano, uma vez criado, passa a ser imortal, jornadeando pela Eternidade, vivenciando em uma só vida diversas existências físicas, como a presente, aprendendo, crescendo, progredindo, corrigindo-se e aperfeiçoando-se, na busca permanente da perfeição relativa e da felicidade suprema, seu destino final, que será alcançado em mais ou menos tempo, dependendo do esforço, do empenho, da disciplina que empregue.

Logo, é de se perguntar: o que, então, verdadeiramente, nos pertence?

Pertencem-nos tão-somente o conhecimento adquirido e as virtudes conquistadas.

O conhecimento obtido, das ciências, das artes, seja do que for, permanecerá conosco para sempre e nos proporcionará, cada vez mais, incontáveis oportunidades de ampliá-lo, uma vez que é cumulativo.

Assim, o conhecimento conquistado passa a fazer parte integrante e inseparável de cada um de nós, individualmente, e que não se transfere, por mais que se queira, nem mesmo aos nossos amores.

Também nos pertencem as virtudes que tenhamos conquistado, de que são exemplos a paciência (verdadeira ciência da paz), o altruísmo, a caridade, a honestidade, a ética, a humildade, a honradez e, sobretudo, o amor, lei maior da vida, que constitui o ensinamento máximo do Cristo, modelo e guia da humanidade, mestre e amigo de todas as horas, consubstanciado na expressão "amar ao próximo como a si mesmo", ou seja, aconselhando que façamos ao próximo aquilo que gostaríamos que ele nos fizesse, porque quem assim procede estará amando a Deus sobre todas as coisas.

Não há ladrão que roube o conhecimento que adquirimos e as virtudes que conquistamos; a traça não os come, a ferrugem não os corrói e a morte de nosso corpo físico não os transfere a ninguém.

Pertencem-nos, pois, individual, verdadeira e definitivamente!

(Jornal Mundo Espírita de Fevereiro de 1998)