O que se está fazendo com a mediunidade?

Jornal Mundo Espírita de Fevereiro de 2001

A respeito dos espetáculos de pintura mediúnica

Falsíssima idéia formaria do Espiritismo quem julgasse que a sua força lhe vem da prática das manifestações materiais e que, portanto, obstando-se a tais manifestações, se lhe terá minado a base. Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom-senso.
Allan Kardec
(O Livro dos Espíritos, Conclusão, item VI)

Aos verdadeiros espíritas é indiscutível a necessidade de observar-se sérios critérios para a prática da mediunidade, dispensando-lhe o devido respeito e dignificando-a com a possibilidade de tornar-se útil ao próximo, quando então, e somente então, recebe o qualificativo de espírita.

Dentre os critérios a serem observados, tanto pelo médium como pela instituição a que esteja ele vinculado nos seus labores, está a magna questão da privacidade das reuniões mediúnicas, exatamente como preconizou Allan Kardec na Revista Espírita do mês de maio de l861, ao afirmar:

"Certas pessoas criticam a severa restrição à admissão dos ouvintes: dizem que, se quisermos fazer prosélitos, é preciso esclarecer o público e, por isso, abrir-lhes as portas de nossas sessões, autorizar quaisquer perguntas e interpelações; que, se não admitirmos senão crentes, não teremos grande mérito em convencê-las."

"Tal raciocínio é especioso e se, abrindo nossas portas a qualquer um, fosse alcançado o resultado suposto, certamente erraríamos se não o fizéssemos. Mas como o contrário é o que acontece, não o fazemos."

"Aliás, seria muito desagradável que a propagação da doutrina se subordinasse à publicidade de nossas sessões. Por mais numeroso fosse o auditório, seria sempre muito restrito, imperceptível, comparável à nossa população. Por outro lado, sabemos, por experiência, que a verdadeira convicção só se adquire pelo estudo, pela reflexão e por uma observação contínua, e não assistindo a uma ou duas sessões, por mais interessantes que sejam. E isto é tão verdadeiro que o número dos que crêem sem ter visto, mas porque estudaram e compreenderam, é imenso. Sem dúvida o desejo de ver é muito natural e estamos longe de o censurar, mas queremos que vejam em condições aproveitáveis. Eis porque dizemos: "Estudai primeiro e vede depois, porque compreendereis melhor".

Outro critério é o da sua não comercialização, trocando-a por bens, favores ou destaques pessoais.

O Codificador do Espiritismo, em seu "O Livro dos Médiuns", cap. XVI, item 190, classifica o médium pintor ou desenhista como um dos tipos de mediunidade, não lhe conferindo qualquer distinção das demais ou que deva ser tratada sob regime de exceção. Aliás, ressalte-se que Kardec assim conceituou o médium pintor ou desenhista: "os que pintam ou desenham sob a influência dos Espíritos. Falamos dos que obtém trabalhos sérios, visto não se poder dar esse nome a certos médiuns que espíritos zombeteiros levam a fazer coisas grotescas, que desabonariam o mais atrasado estudante".

Logo, é incompreensível doutrinariamente tratando a questão, o que se vem fazendo com a mediunidade de pintura. Começa-se por promover verdadeiros espetáculos públicos e mundanos, qual se ali estivesse por se apresentar um artista comum, pisoteando-se, assim, o critério da privacidade para o trato com os Espíritos. Depois, na quase totalidade das ocasiões, o interesse comercial é o que está em jogo e acima de tudo, ao se fazer uso dos trabalhos para arrecadação de dinheiro para as instituições promotoras do evento, levando por terra o critério da não comercialização. A seguir-se tal modelo, dentro de pouco tempo estarão acontecendo sorteios, leilões, rifas e outros, com as demais obras dos Espíritos em forma de poemas, romances, contos, crônicas, ditados elucidativos da ciência do mais além, pois que também deles vêm.

É para comprovar-se a imortalidade da alma, apressadamente justificam-se. Mas, o que vem fazendo o movimento espírita em toda a sua amplitude, se não é convocar o homem para que abra seus olhos, enxergue a si próprio e descubra o próximo, em nome da imortalidade e dos demais fundamentos do Espiritismo? Estará a Doutrina Espírita dependente de espetáculos públicos e do fenômeno em si, para ser divulgada e para tratar da imortalidade? É para isto que se presta a mediunidade? E mais, será que o que se está produzindo de pintura mediúnica, na sua generalidade, suportaria o crivo da razão, o exame crítico de especialistas? Ou será que o desabonaria o mais atrasado estudante?

Pautar-se na promoção de espetáculos de fenômenos mediúnicos, dizendo-se espíritas que querem divulgar a Doutrina Espírita ao público é demonstrar, tão somente, o desconhecimento do Espiritismo, quando não, falta de respeito para com a Doutrina, para com o público, para com o médium e para com a mediunidade. É, enfim, prestar um contra-serviço ao Movimento Espírita.

(Jornal Mundo Espírita de Fevereiro de 2001)