Obrigado, Mãe...

Antônio Moris Cury

Convencionou-se, no Brasil, homenagear as mães no mês de maio, mais precisamente em seu segundo domingo.

Assim, com larga antecedência, o comércio em geral aciona os meios de comunicação e todos somos convocados, quase que “intimados” pelo clima que se cria, a participar do evento, obviamente comprando, no mínimo, um presente.

Com todo o respeito, pensamos que dia das mães é todo dia e que há outros meios, bem melhores, de homenageá-las.

Com efeito, um deles, bastante simples mas profundo, seria agradecer-lhes, diariamente, por terem concordado, juntamente com nossos pais, com o nosso renascimento na Terra, permitindo, assim, a nossa reencarnação, verdadeira bênção da oportunidade!

Sim, a oportunidade da vida, das provas, das expiações, do progresso intelectual e moral, da evolução enfim, que a todos nós conduzirá, um dia, à perfeição relativa e à felicidade suprema.

Para se ter uma idéia, por comparação, do que representa a oportunidade do renascer, basta que se diga que, apenas no Brasil, são realizados cerca de 5.000.000 (cinco milhões) de abortos por ano, de acordo com estatísticas não oficiais. É possível, e até provável, que este número seja ainda maior.

Ora, como bem esclarece o Espírito Joanna de Ângelis, através da mediunidade de Divaldo Pereira Franco, “Um filho, em qualquer circunstância, é compromisso assumido antes do berço pelos genitores que responderão, perante as divinas Leis, pelo comportamento a que se entreguem” ( encontrável no livro Luz Viva, p. 74), não sem antes definir que “A vida não é patrimônio da criatura humana, que apenas empresta ao Espírito o envoltório carnal transitório, não lhe cabendo, portanto, o direito de a fazer cessar” (obra citada, p. 73).

A propósito, na questão 880 de O Livro dos Espíritos, perguntou Allan Kardec: “Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem?”, ao que os Espíritos, liderados pelo Espírito Verdade, responderam: “O de viver. Por isso é que ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal”.

É claro que não estamos aqui incluindo os abortos espontâneo e terapêutico, este último realizado para salvação da vida orgânica da gestante, de que trata a pergunta nº 359 de O Livro dos Espíritos, obra basilar da Doutrina Espírita.

Aliás, interessante salientar que, nesse ponto, coincide a legislação humana (pelo menos a brasileira) com a legislação divina, posto que, no Brasil, quando houver grave risco à gestante, o aborto não é considerado crime.

Nas demais hipóteses (conquanto pela legislação brasileira, hoje, também não seja considerado crime o aborto, provocado, em caso de fecundação resultante de estupro), sob o enfoque das Leis Divinas, que são perfeitas e, por isso mesmo, imutáveis, o aborto, em verdade, é um crime hediondo contra um ser que não pode se defender e nem sequer pode suplicar por piedade, por clemência.

Ademais disso, não podemos nos esquecer da advertência do Espírito Joanna de Ângelis, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco, que “Todo filho é empréstimo sagrado que deve ser valorizado e melhorado pelo cinzel do amor dos pais, para oportuna devolução ao Genitor Celeste” (encontrável no livro Após a Tempestade, p. 70).

Por outro lado, importantíssimo destacar o ensinamento do Espírito Camilo através da mediunidade de José Raul Teixeira, a saber: “Desse modo, se desejarmos eliminar da esfera do mundo as práticas nefandas do aborto criminoso e infeliz, carecemos de reestruturar a educação da criança, do jovem, do homem, da mulher, a fim de que as idéias do bem, do amor, do respeito à vida se tornem o oxigênio da Humanidade, fazendo felizes as criaturas. É para realizar esse desiderato, o de conduzir o gênero humano nos caminhos da prudência e do equilíbrio, andando com passos firmes para Deus, que o Espiritismo luziu sobre a Terra, para cumprir o mister de educar e reeducar as almas, abolindo, definitivamente, o aborto das concepções do bem no mundo” ( extraído do livro Cintilação das Estrelas, p. 94).

Assim sendo, não é difícil concluir que nós, espíritos agora encarnados, somos ou devemos ser muito gratos às nossas mães, que, com a participação de nossos pais, nos permitiram renascer, oferecendo-nos nova e valiosa oportunidade. E que oportunidade!

Por isso, expressando esse sentimento, o sentimento da gratidão, todos os dias, às nossas mães, encarnadas ou não, estaremos prestando homenagem compatível com a maternidade, verdadeira missão do espírito encarnado em corpo feminil no planeta Terra.

Pós-escrito - Aproveito o artigo para agradecer, de público, à minha mãezinha Vitória, desencarnada em Curitiba em 06.06.92, a oportunidade que me ofereceu, juntamente com meu pai Abrão, também desencarnado em Curitiba em 12.03.83, de nova reencarnação, extraordinária bênção, por todos os títulos.

A Doutrina Espírita consolidou em mim a convicção de que só o bem é real e permanente, a despeito das aparências em contrário, tal como a senhora sempre ensinou, apesar de não ser Espírita, apenas Cristã.

Embora saudoso de sua presença física, praticando o Espiritismo, que esclarece e consola, guardo plena certeza de que nos reencontraremos, para, ainda juntos, prosseguirmos a caminhada rumo ao crescimento, à evolução, à perfeição relativa e à felicidade suprema, mesmo que a pouco e pouco.

Que Deus, nosso Pai Celestial e Autor da Vida, e Jesus Cristo, nosso mestre e amigo de todas as horas, continuem iluminando o seu caminho.

Obrigado mãe, muito obrigado.

(Jornal Mundo Espírita de Maio de 1997)