Quem é o jovem? Quem somos nós?

Wanderley da Silva Coutinho

Minuto a minuto regressam à Vida espiritual, pelas portas da desencarnação, milhões de criaturas, dentre as quais homens de bem, pessoas dignas, virtuosas, dedicadas ao bem do próximo, mas também seres comprometidos com vícios materiais e morais – alcoolismo, tabagismo e dependência de outras drogas, maledicência, intriga, egoísmo -, suicidas, ladrões, assassinos, almas que venderam a própria consciência ou que corromperam outras consciências, pessoas omissas, etc...

Minuto a minuto, também, regressam à Vida física, pelas portas abençoadas da reencarnação, milhões e milhões de seres, com vistas a atender aos impositivos da lei de progresso. Uns, submetidos compulsoriamente ao processo reencarnatório, outros, desejosos de libertarem-se de dívidas assumidas no passado, conscientes de suas necessidades, outros mais, submetendo-se a provas redentoras no ambiente familiar, Almas que assumiram compromissos definidos no campo da ciência, da política, da religião, nas fileiras espíritas, na mediunidade...

Mas quem são eles? Quem somos nós? Quem são essas Almas que animam novos corpos? Quem são essas crianças que amamos como nossos filhos? Quem são esses jovens que vemos com alegria e esperança de renovação autêntica?

Quem são? Quem somos?

Somos os mesmos que deixamos a Terra no passado e que contribuimos para que o mundo esteja como está; os que ajudamos o mundo a crescer na direção de uma civilização completa; os que atrasamos o progresso pelo culto do interesse pessoal; os que perseveramos no bem; os que nos conformamos ao mundo; os que temos vontade de seguir o Cristo; os que temos admiração pelo Cristo, mas preferimos o mundo; os que servimos ao bem, mesmo com lágrimas; os que sorrimos, enquanto outros choram; são os homens de bem, as pessoas dignas, virtuosas, dedicadas ao bem do próximo, que retornam; são também os comprometidos com vícios materiais e morais, os ex-suicidas, os que sucumbiram no crime, os que foram tragados pelo ódio, os que desencaminhamos no passado, os que receberam alívio pelas palavras esclarecedoras em nossas reuniões mediúnicas.

Somos, enfim, todos nós, filhos de Deus, filhos da luz, destinados à luz...

Almas que precisam de amor verdadeiro, mas também de amar; Almas que precisam ser respeitadas, mas também aprender a respeitar; Almas que precisam ser conhecidas, mas também se auto-conhecer; Almas que necessitam de educação moral, não a educação moral pelos livros e sim a que consiste na arte de formar caracteres, a que incute hábitos, porquanto "a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos". (Kardec, A. in "O Livro dos Espíritos" – questão 685a, Nota.).

Somos, todos, seres que cumprimos a lei do "nascer, viver, morrer, renascer ainda e progredir sempre" e que precisamos de ajuda, de compreensão, de amor, de orientação segura, da palavra iluminada pela fé, do despertamento para os compromissos espirituais, do esclarecimento justo, da disciplina que previne quedas, de exemplos vivos.

Dialética da vida

O Espírito que retorna à Vida corpórea, pela reencarnação, conforme nos ensina o Espiritismo, não é uma folha em branco. O Espírito que anima o corpo de uma criança pode ser até mais desenvolvido que o de um adulto, se mais progrediu. "Apenas a imperfeição dos órgãos infantis o impede de se manifestar. Obra de conformidade com o instrumento de que dispõe (2)".

No intervalo entre as encarnações, o Espírito "pode melhorar-se muito, tais sejam a vontade e o desejo que tenha de consegui-lo. Todavia, na existência corporal é que põe em prática as idéias que adquiriu (3)".

Portanto, a criança é um Espírito encarnado que traz uma bagagem acumulada em encarnações passadas e nos períodos de vida espiritual, entre essas encarnações.

Podemos considerar essa bagagem como a tese que o Espírito traz de seu passado. Ela constitui-se de valores, virtudes e vícios. Essa tese se apresenta adormecida, latente, no período da infância, em virtude da falta de desenvolvimento dos órgãos. Sem embargo, alguns lampejos, alguns sinais dessa tese vão sendo percebidos por um observador atento.

Ao revelar e difundir o conhecimento da reencarnação, o Espiritismo contribui sobremaneira para a compreensão do ser que se encontra na fase da infância. Esse conhecimento é fundamental para a educação.

Aprendemos, também, com os Espíritos, que a utilidade da infância é que "encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo". (4).

Portanto, para o Espírito que reencarna, é providencial esse amortecimento da lembrança de sua bagagem espiritual, ou seja, de sua tese. É Deus criando as condições propícias para que o Espírito se desvincule, pelo menos provisoriamente, de seus "pré-conceitos", assumindo uma posição de boa-vontade para "ouvir" novos conceitos, "ver" sob novos ângulos.

Fase importante, também, da encarnação, é a adolescência. A esse respeito Kardec perguntou aos Espíritos (4):

"Que é o que motiva a mudança que se opera no caráter do indivíduo em certa idade, especialmente ao sair da adolescência? É que o Espírito se modifica? É que o Espírito retoma a natureza que lhe é própria, e se mostra tal qual era?..."

Por conseguinte, na adolescência o Espírito reassume a sua tese, que já poderá estar modificada, principalmente se houve um processo educativo no período da infância. (antítese).

Desde o seu nascimento, o Espírito já começa a se defrontar com os novos valores, ou hierarquia de valores diferentes da sua, o meio social em que renasce, a família, a educação, as experiências da dor, as frustrações, o amor. É a antítese (ou anti-tese) que a Vida antepõe à sua tese. Vai realizando, então, um processo de interação, durante toda a sua existência corpórea, de tal forma que ao desencarnar o Espírito terá elaborado uma síntese, que será a sua nova tese, a qual, por sua vez, também será enriquecida pelo processo dialético tese-antítese-síntese, na Vida espiritual; e assim sucessivamente, obedecendo à Lei de Progresso.

O Espírito que retorna à Vida corpórea, pela reencarnação, conforme nos ensina o Espiritismo, não é uma folha em branco

(1) Kardec, A. in "O Livro dos Espíritos" – questão 379

(2) Kardec, A. in "O Livro dos Espíritos" – questão 230

(3) Kardec, A. in "O Livro dos Espíritos" – questão 383

(4) Kardec, A. in "O Livro dos Espíritos" – questão 385, § 1º

(Jornal Mundo Espírita de Julho de 1998)