Ritual e culto

Cristian Macedo

"O homem que se atém às exterioridades e não ao coração
é um Espírito de vistas acanhadas. Dizei, em consciência,
se Deus deve atender mais à forma do que ao fundo."
O Livro dos Espíritos, item 673.

Guardando nos arcanos do próprio ser anelos engrandecedores, a criatura humana se permite o nobre exercício de cultivar relações com o Criador.

Nada obstante à luminífera proposição adorativa que aflora, trazendo a consciência ainda obnubilada pela ignorância, entende o Ser Supremo como possuidor de características análogas a dos seres imperfeitos encarnados no orbe, partindo para as honras comuns prestadas aos "grandes homens".

Habituada aos salamaleques diante dos orgulhosos líderes terrenos, bem como aos resultados logrados através desses expedientes de que lança mão, a criatura entrega-se, mais e mais, ao aperfeiçoamento do gestual olvidando-se da postura espiritual nos misteres do culto.

Dentro dessa perspectiva, o rito ganha espaço, alargando-se no campo religioso como mecanismo repetitivo com função reguladora na área psicossocial.

No bojo ritualístico, onde prima a exterioridade, não se dispensa a realização de festas, iniciações, sacrifícios e oferendas, em detrimento do culto essencial, onde sinceridade e espontaneidade têm caráter precípuo.

Provenientes de aspectos culturais, os atos cerimoniais que visam homenagear a Divindade ganham cores de todos os matizes, de acordo com a região onde são constituídos e realizados.

O Oriente Cristão viu nascer grupos de ritos específicos, como o antioquino e o alexandrino; no Ocidente a Igreja utilizava-se dos ritos romanos, ambrosianos, visigóticos e gauleses.

Preocupados, porém, com os equívocos que se estabelecem pela ignorância no campo da fé, variado número de teólogos cristãos procuraram aprofundarse na fenomenologia cultual.

Santo Agostinho entendia necessária a diferenciação da denominação do culto de acordo com seus objetivos. Sugere "latria" (latriae) para o culto a Deus e "dulia" (duliae) para o culto à criação e aos santos.

João Damaceno, no século VIII, estabelece que os fenômenos cultuais são sinais de sujeição, humildade e temor diante do Criador.

São Tomás de Aquino discorre sobre as dimensões do culto interno, ou seja, a devoção e a oração, entendendo-os como de maior importância na vida do cristão, tendo como culto supremo ao Pai dar-se em espírito a Ele.

Nascido entre a Alsácia e a Lorena, em 1858, o eminente sociólogo Émile Durkheim, no crepúsculo dessa última encarnação, publica a obra As formas elementares da vida religiosa, onde demonstra entender o culto não apenas como sistema de sinais onde a fé se traduz para o exterior, mas como um meio que lhe permite "criar-se" e "recriar-se" no cotidiano dos homens.

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Os sinônimos latinos cultus e colere, em sua derivação, indicam as idéias de "cultivar" e "fazer existir", sob este prisma entendemos o culto como atividade do Espírito visando cultivar os laços que o unem ao Criador, atando-os, religando-os.

O culto cristão, de caráter interior e universal, não se confunde com o rito, de natureza gestual, eminentemente exterior, cultural e particularista.

Jesus Cristo sugere o culto a ser realizado em espírito e verdade 1, visto que Deus não compactua com a materialidade perecível ou com a exterioridade desprovida de intenções plenificadoras, convidando o que ama, e deseja dar mostras desse sentimento que pulsa interiormente, a adorar a Divindade espiritualmente abrindo possibilidades de agigantamento das próprias condições de atuação na vida, dinamizando a caridade nos locais onde habita.

O Mestre Galileu deu o mais notável exemplo de culto, pondo sua existência a serviço dos desígnios divinos e demonstrando que sua dimensão essencial é fruto da ligação íntima e perene com Deus, o que O fez afirmar: Eu e o Pai somos um. 2

O ensejo de identificação com o Ser Supremo permite que a fé se alastre, "criando-se" e "recriando-se" nos meios em que o cultivo das relações com o transcendente é proposto dentro de incentivo edificante, permeado pelo respeito à liberdade individual, ao tempo e aos talentos de que cada criatura é portadora.

Ao ouvirmos ou lermos obras de nobre teor, que nos remetam a reflexões mais profundas em torno da vida, estaremos diante do ensejo de cultivar relações com o Criador.

Quando participamos de estudos esclarecedores, quando formulamos orações apaziguadoras ou estabelecemos auxílio dignificante, concretizamos culto nobre e real.

Efetuando caminhadas por lugares bucólicos, aprazíveis, em momentos nos quais mergulhamos em meditações plenificadoras, quando passamos a perceber as magníficas conseqüências do labor criativo da Inteligência Suprema, desenhadas nas paisagens arborizadas e floridas, efetivamos ato de eminente culto.

Cumprindo deveres familiares, profissionais e sociais, sem abrir mão da moralidade cristã, cultuamos a Divindade, porquanto Ela nos deu a vida em sociedade e suas múltiplas atividades para que possamos crescer, utilizando de todos os instrumentos que nos são disponibilizados.

Também cultivamos a ligação com Deus ao refletirmos sobre a excelsa mensagem do Cristo, reunindo a família, propondo-nos à prece e à meditação, facultando aos Irmãos de Luz, representantes do Criador, saudar-nos com intercessões benditas, a fim de mantermos salutar ambiência psíquica em nossos lares.

Devemos abrir mão dos ritos, porém nunca olvidar o culto necessário, nesses dias de tormento e aflição mundial, culto que se expressa no ato de entregar a vida, em sua totalidade, à caridade, conforme entendia o Cristo, para que o nosso cotidiano dê constantes mostras de cultivo integral dos laços que nos unem ao Pai Amoroso.

1 Jo, 4:24.

2 Jo, 10:30.

(Jornal Mundo Espírita de Novembro de 2001)