Trabalhar e ser útil

Antônio Moris Cury

Deveras notável é o aprendizado que se pode extrair do texto sobre a Lei do Trabalho, lançado nas questões 674 a 685 de O Livro dos Espíritos, a obra basilar do Espiritismo.

Com efeito, percebe-se desde logo pela simples leitura, que trabalho, que pode ser material ou espiritual, é toda ocupação útil, tratando-se de verdadeira necessidade do ser humano, uma vez que é através dele que em geral se obtém o alimento, a segurança, o bem-estar, numa palavra, a conservação do próprio corpo, assim como é pelo trabalho que se consegue o desenvolvimento da faculdade de pensar e, por conseguinte, o aperfeiçoamento da inteligência, o que constitui indiscutível progresso.

O texto também ensina que tudo em a Natureza trabalha e que a civilização obriga o homem a trabalhar mais, exatamente porque lhe aumenta as necessidades e os gozos, mostrando, por outro lado, que o trabalho nada tem de castigo.

De fato, se observarmos com bastante atenção, veremos que o Universo todo se movimenta, que nada se encontra parado. A regra para tudo, pois, é o movimento, é a ação. E, claro, não poderia ser diferente com o ser humano, que está inserido neste contexto.

Ademais disso, a observação do cotidiano conduz à conclusão de que o trabalho, qualquer que seja, do mais simples ao mais complexo, é fonte inexcedível de satisfação pessoal, pelo sentimento do dever cumprido, pela sensação de bem-estar que produz em quem o realiza, não só pelo fato de ter cumprido a sua parte mas, principalmente, pela certeza íntima de que está colaborando para a harmonia e o equilíbrio das relações humanas, sabendo-se, como se sabe, que em sociedade vivemos em regime de interdependência, vale dizer, todos dependemos uns dos outros, não havendo quem possa sequer imaginar-se auto-suficiente em todos os campos, verazmente.

Por outra parte, o texto não deixa margem à dúvida de que o homem que possua bens suficientes para lhe assegurar a existência pode, quando muito, estar isento do trabalho material; "não, porém, da obrigação de tornar-se útil, conforme aos meios de que disponha, nem de aperfeiçoar a sua inteligência ou a dos outros, o que também é trabalho. Aquele a quem Deus facultou a posse de bens suficientes a lhe garantirem a existência não está, é certo, constrangido a alimentar-se com o suor do seu rosto, mas tanto maior lhe é a obrigação de ser útil aos seus semelhantes, quanto mais ocasiões de praticar o bem lhe proporciona o adiantamento que lhe foi feito" (resposta à pergunta 679 de O Livro dos Espíritos, a obra fundamental da veneranda Doutrina Espírita).

A clareza é solar. Não obstante, e apenas para enfatizar, o ensinamento demonstra de forma incontestável que cada um de nós tem, no mínimo, a obrigação de tornar-se útil ao seu semelhante e de aperfeiçoar a sua inteligência ou a dos outros, assim como deve ter a consciência de que esta obrigação é tanto maior quanto mais ocasiões de praticar o Bem lhe proporcionam os bens confiados, por adiantamento. E, neste passo, convém relembrar que "fazer o bem não consiste, para o homem, apenas em ser caridoso, mas em ser útil, na medida do possível, todas as vezes que o seu concurso venha a ser necessário" (encontrável na resposta dada à questão 643 de O Livro dos Espíritos).

É indispensável, é fundamental, portanto, que cada um de nós seja útil, de conformidade com as suas condições pessoais, e sempre na medida do possível!

Por outro lado, e como é natural, o trabalho tem um limite: o das forças de cada um, a nada sendo obrigado o ser humano, senão de acordo com elas, assim como o texto prevê a hipótese de quem precise trabalhar e não possa, sobretudo na velhice, apontando que o forte deve trabalhar para o fraco; se este não tiver família, a sociedade deve fazer as vezes desta, tal como se pode ver pelas respostas dadas à questão 685 de O Livro dos Espíritos, esta extraordinária obra, que pode ser considerada uma verdadeira síntese do conhecimento humano, além de ser um precioso manual de bem viver.

Por fim, nestas ligeiras observações, cumpre não perder de vista que somos todos imortais, razão pela qual após a morte de nosso corpo físico continuaremos a nossa jornada evolutiva pela eternidade, uma vez que o Espírito, o ser pensante, o verdadeiro ser, sai do corpo mas não sai da vida.

E, sendo assim, claríssimo que continuaremos a trabalhar, a estudar, seja em outra dimensão, na Erraticidade, seja em outras reencarnações, na Terra ou em outros mundos habitados, porquanto o progresso também é uma lei da Natureza, a que todos estamos subordinados, queiramos ou não, acreditemos ou não, cumprindo-nos, pois, seguir adiante: crescendo, evoluindo, progredindo, aperfeiçoando-nos sempre, ainda que a pouco e pouco, no rumo da perfeição relativa e da felicidade suprema, destino final dos seres humanos.

O continuar do trabalho, do estudo, após a desencarnação, a rigor, não deveria constituir nenhuma surpresa, uma vez que Jesus de Nazaré, o Cristo, já afirmou há quase dois mil anos atrás que o seu Pai, o nosso Pai, que é Deus, a inteligência suprema do Universo e a causa primária de todas as coisas, trabalha até hoje...

E, como se não bastasse, convenhamos, a ociosidade, ao contrário do que alguns pensam, é um suplício.

Como é bom trabalhar e ser útil!

(Jornal Mundo Espírita de Agosto de 1999)