Um gesto em Betânia...

Jornal Mundo Espírita - Junho de 1999

Betânia dista cerca de 3 quilômetros de Jerusalém. Era ali, na chácara dos irmãos Marta, Maria e Lázaro, o local onde Jesus costumava se acolher à noite, após as pregações em Jerusalém, cidade que lhe era hostil.

Uma semana antes dos acontecimentos que culminariam na sua prisão e morte, Jesus esteve em Betânia. Certa noite, foi convidado por um tal de Simão, ex-leproso, para um banquete em sua casa.Os irmãos também foram convidados, eis que Jesus era hóspede em sua casa.

Pois, enquanto todos pareciam alegrar-se, uma figura havia que se mostrava muito triste. Ela olhava para o Mestre e seu coração pressentia que aquelas eram as horas da despedida. Que logo mais o Mestre amado partiria para outras paragens.

Essa figura se chamava Maria, a irmã de Lázaro e de Marta. Então, em meio ao banquete, ela se ausentou e correu até sua casa. Remexeu em seus guardados, até encontrar um vaso de alabastro finíssimo, cheio de perfume de nardo genuíno. Devia pesar cerca de 350 gramas. Tomando-o nas mãos, retornou mais que depressa ao local do banquete.

Postou-se por trás de Jesus e destilou, caprichosamente, o precioso conteúdo do frasco pelo trigal maduro dos cabelos do Mestre.

Para aproveitar até a última gota, quebrou o gargalo fino, deitou o restante sobre as vestes de Jesus.

Ao seu gesto, seguiu-se um grande murmúrio pela sala e todos os olhos se cravaram em Maria.

Houve quem falasse de desperdício, de venda do produto e auxílio aos pobres...

Ao tempo do Cristo, entre o povo de Israel, os perfumes eram muito usados pelos homens e pelas mulheres. Serviam-se deles os judeus tanto para atenuar os inconvenientes da sudação, no país quente em que viviam, quanto por apurado bom gosto.

Lê-se no Velho Testamento que a rainha de Sabá trouxe camelos carregados de perfumes ao rei Salomão, que Ester, antes de se apresentar ao rei Assuero, tinha se perfumado durante um ano. A noiva descrita no "Cântico dos Cânticos" derramava óleo de odores fortes.

Por isso mesmo, as mulheres de Israel encontravam, nos textos sagrados, um grande encorajamento para se utilizarem de perfumes.

Em Jerusalém, as mulheres podiam despender em perfumes um décimo de seu dote, preparando-se, com certeza, de forma muito especial para o seu amado, na sua noite de núpcias.

Algumas chegavam mesmo a portar sob os pés minúsculos vaporizadores de pele. Ao desejarem, bastava-lhes pressionar o dedo grande para que uma onda de perfumes as abraçasse, encantando o seu pretendente.

Alguns perfumes eram extremamente caros e raros. Tal o nardo, de odor penetrante, esse mesmo que Maria derramou sobre a cabeça de Jesus e inundou a sala inteira.

Ao seu gesto, escandalizaram-se naturalmente os que ali se encontravam, por imediatamente fazerem a associação ao processo de sedução utilizado pelas mulheres, em que o perfume era o ingrediente primordial.

Eis porque Jesus, entendendo-lhe a intenção e o grande amor que ela ali expressava, disse a todos: "Deixai-a em paz! Por que molestais essa mulher? Ela, derramando sobre o meu corpo este bálsamo, prepara-me para a sepultura. Em verdade vos digo que, onde quer que for pregado este Evangelho, em todo o mundo, será contado também em sua memória o que ela fez."

O amigo entendeu o gesto de quem amava com extremos de ternura e por isso expressa, no ensino, o valor incondicional da manifestação do afeto, convidando-nos a aprender a valorizar as expressões da amizade e do amor elevado.

(Jornal Mundo Espírita de Junho de 1999)