Uma Outra Violência

Maria Helena Marcon

Você amaria uma criança concebida a partir de um ato de violência? À primeira vista, a pergunta pode soar como um "você decide", mas o que desejamos é trazer para nossa reflexão outra vez, o abortamento.

Na defesa desta prática criminosa, algumas vozes se erguem para dizer que a mulher violentada jamais poderia vir a amar o produto daquela violência. Por isto mesmo, o abortamento se faz necessário.

Convenhamos que a mulher sofreu a violência e isto lhe é muito doloroso, traumático. Mas é de se questionar de que lhe valerá provocar outra violência?

Será sanado o mal que já sofreu?

Abortar é matar um ser totalmente indefeso.

Mais coerente é se permitir a complementação da gestação, o desabrochar da vida e depois, caso realmente não o possa amar, encaminhá-lo para adoção.

Dizemos caso não o possa realmente amar, pois muitos são os casos em que as mulheres que engravidaram a partir da violência de homens inescrupulosos, levam a termo a gravidez e passam a amar o rebento da sua carne.

Ao longo dos meses, o sorriso da criança , suas gracinhas, suas mãozinhas acariciando, se estendendo como em súplica, cativam qualquer um.

Quantos pais e avós temos observado que, ao descobrirem a filha ou neta grávida e solteira, a desprezam? Dizem que não desejam ver jamais o filho que carregam no ventre.

Basta, no entanto, que o pequenino nasça, solte seus primeiros vagidos, para que as almas mais insensíveis se voltem com carinho para aquela coisinha minúscula, indefesa, totalmente dependente, e se tornam avós e bisavós a se derreter pelos toquinhos de gente.

Como se pode afirmar que não se poderá amar o bebê ? Depois de nove meses de estreita convivência, sentindo-o se mexer dentro de si mesma?

Como não amar um bebê, apesar das circunstâncias da sua concepção, se temos a capacidade de querer bem e recolher um cãozinho abandonado na rua? As vezes, um gato adoentado e velho.

Acaso valerão mais os animais do que os seres humanos?

Há os que dizem que o filho para ser amado deve ser feito com amor. A realidade mostra que existem muitos filhos concebidos sem amor. Quantas mulheres se submetem a seus maridos, simplesmente como uma espécie de obrigação? E concebem.

Quantas vezes o relacionamento sexual acontece simplesmente porque uma das partes o deseja e a outra atende? E a gravidez ocorre.

Defenderemos agora que, em tais circunstâncias, devamos matar o ser concebido?

Pensemos: em que estamos nos tornando? Não somos nós exatamente as pessoas que até hoje condenam as arbitrariedades e crimes nazistas contra a humanidade?

Acaso estaremos desejando retornar àqueles tempos?

O ser que se desenvolve no útero materno é , desde o primeiro instante, um ser a parte. Desde a concepção, o espírito se faz presente e tudo percebe, tudo sente.

Recordamos dos criminosos que se encontram à espera da execução da sentença final, no corredor da morte. Entram em depressão. Têm os cabelos embranquecidos, se desequilibram.

Os embriões e os fetos não desejados, no útero materno, se encontram no corredor da morte. Os humanos que tiveram a felicidade de nascer na carne decidem pela sua sentença de morte, decretando dia, hora e local.

Ademais, há de se considerar que o abortamento é , para a mulher, uma violência também. Seu organismo é agredido, mesmo quando se realiza o ato com assepsia e cuidados médicos. Está-se violando uma lei natural, desalojando do seu aconchego um ser vivo.

Justifica-se ainda a legalização do aborto para defender vidas. Afirma-se que são muitas as mulheres que morrem, graças à ação de curiosos ou clínicas clandestinas.

Não seria muito mais cristão lutar pela vida? Educação, esclarecimento, moralização do homem . É por isto que se deve lutar.

Jamais pela morte, jamais pelo crime como justificativa de qualquer natureza.

Mesmo porque o filho que chega, pelas portas da violência, não é alguém estranho. Sempre é um espírito em processo de resgate e provas, ligado ao coração dos envolvidos na circunstância dolorosa.

(Jornal Mundo Espírita de Setembro de 1997)