Verso e anverso

Rogério Coelho

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”
Allan Kardec1

Existem três categorias de adeptos e três categorias de adversários do Espiritismo. Segundo os nobres Espíritos que ditaram as instruções contidas na Codificação Espírita2, isto decorre do fato de o Espiritismo se apresentar sob três aspectos diferentes o fato das manifestações, os princípios da filosofia e de moral que dela decorrem e a aplicação desses princípios.

Categoria de adeptos:

  1. Os que crêem nas manifestações e se limitam a constatá-las;
  2. Os que compreendem-lhes as conseqüências morais;
  3. Os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral.

Categoria de adversários:

  1. Os que negam sistematicamente tudo o que é novo;
  2. Os que têm interesse pessoal prejudicado pelo conhecimento espírita;
  3. Os que encontram na moral espírita uma censura aos seus atos.

Dos adeptos:

Adeptos nº. 1 - Para eles, o Espiritismo é apenas uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos. São os chamados espíritas experimentadores. São eternos curiosos, mas jamais se fixam em nada. São as “sementes que caíram na pedra”. Nada conseguem extrair e vivenciar do Espiritismo.

Adeptos nº. 2 - São os chamados espíritas imperfeitos. Poderíamos chamá-los, também, espíritas admiradores, porque admiram a moral decorrente dos conhecimentos espíritas, mas não a praticam. Insignificante ou nula é a influência que lhes exerce nos caracteres. Em nada alteram seus hábitos e não se privariam de um só gozo que fosse. O avarento continua a sê-lo, o orgulhoso se conserva cheio de si, o invejoso e o cioso sempre hostis, consideram a caridade cristã apenas uma bela máxima.

Adeptos nº. 3 - São os verdadeiros espíritas, ou melhor, espíritas-cristãos. Não se contentam apenas em admirar a moral espírita, mas praticam-na aceitando-lhe todas as conseqüências. Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar os seus breves instantes para avançar pela senda do progresso, única que os pode elevar na hierarquia do Mundo Espiritual, esforçando-se por fazer o bem e coibir seus maus pendores. As relações com eles sempre oferecem segurança, porque a convicção que nutrem os preserva de pensarem em praticar o mal. A Caridade é, em tudo, a regra de proceder a que obedecem.

Porém, todos eles têm um denominador comum: Qualquer que seja o ponto de vista científico, religioso, filosófico ou moral sob o qual examinam os fenômenos, cada um compreende que é toda uma nova ordem de idéias que surgiu, das quais as conseqüências não podem ser senão uma profunda modificação no estado da Humanidade e, cada um compreende, também, que essa modificação não pode ocorrer senão no sentido do bem.

Dos adversários:

Adversários nº. 1 - Modernos fariseus, são a encarnação do orgulho, da vaidade, da presunção e da prepotência... A essa classe pertencem todos aqueles que não admitem nada fora do testemunho dos sentidos. Estes nada viram, nem querem ver e ainda menos aprofundar. Não lhes interessa nada que esteja fora de suas cartilhas.

Certa feita, num vôo doméstico entre uma cidade nordestina e o Rio de Janeiro, um alto dignitário de determinada denominação religiosa, foi instado pelos demais passageiros a olhar para fora do avião para testemunhar a aparição de um Objeto Voador Não Identificado (OVNI). Ao que o mesmo ripostou: “Não olho, porque sei que estas coisas não existem!” (?).

Ficariam mesmo irritados de ver muito claro com receio de serem forçados em convir que não têm razão. Para eles, o Espiritismo é uma quimera, uma loucura, uma utopia. Não existe!... São os incrédulos que tomaram partido. Ao lado desses pode-se colocar aqueles que se dignaram a lançar um golpe de olhar ligeiro para desencargo de consciência, a fim de poderem dizer: “Eu quis ver e nada vi”. Eles não compreendem que seja preciso mais de meia hora para se conscientizar de toda uma Ciência.

Adversários nº. 2 - Defendem interesse pessoal, pois o conhecimento espírita os desalojaria do “status-quo” em que se acomodaram e no qual preguiçosamente se locupletam. Perderiam o emprego, pode-se dizer. Teriam que viver com o suor do próprio trabalho em vez de viver às expensas de seus correligionários. Para eles, o Espiritismo existe, mas têm verdadeiro pavor de suas conseqüências, e o atacam como um inimigo. São refratários às idéias Espíritas porque essas idéias solapam pela base todo o edifício de suas crenças, superstições e mordomias.

Adversários nº. 3 - Poderiam ser chamados de incrédulos de má-vontade. A esses muito aborreceria o terem que crer, porque isso lhes perturbaria a quietude nos gozos materiais. Temem deparar com a condenação de suas ambições, de seu egoísmo e das vaidades nas quais se revolcam. Fecham os olhos para não ver e tapam os ouvidos para não ouvir. Lamentá-los é tudo o que se pode fazer. O Espiritismo, tomado a sério, os embaraçaria. Eles não rejeitam, mas tampouco aprovam: preferem fechar os olhos. São os “mornos” da referência apocalíptica.

Segundo o ínclito Mestre Lionês, em vão procuraríamos uma quarta classe de adversários: a dos que podem provar por fatos insofismáveis que o Espiritismo labora em erro e contraponham uma argumentação lógica e irretorquível aos seus postulados; a dos que em patentes provas contrárias se apoiassem, demonstrando estudo laborioso e porfiado da questão. Todos, porém, apenas opõem a negação; nenhum aduz demonstração séria e irrefutável.

Concluímos, assim, com Kardec2, que cada um desses tipos de adversários do Espiritismo são movidos por diferentes motivações: orgulho, presunção, ambição, egoísmo.

Concebe-se, porém, que não tendo essas causas de oposição nenhuma solidez, venham a desaparecer com o tempo, por absoluta falta de nutrição da lógica e da sanção dos fatos, tal como aconteceu com a teoria geocêntrica e outras que hoje pertencem às sombras do passado de ignorância.

1 - Kardec, A. "O Evangelho Segundo o Espiritismo" - Capítulo XVII, item 4,§ 5º
2 - Kardec, A. "O Livro dos Espíritos"- Conclusão, tomo VII

(Jornal Mundo Espírita de Março de 2000)