Diferente - Do Leproestigma ao Clone Estigmatizado (Enfoque microbiológico)

Luiz Carlos D. Formiga

"No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho".

Os que melhor podem discutir a clonagem são os biologistas moleculares, mas eles se uniram aos microbiologistas uma vez que o gen para ser perpetuado deve ser clonado. Assim, precisa ser introduzido em um veículo de clonagem, isto é, uma molécula de DNA que seja capaz de se replicar de forma independente, no interior de um microrganismo. Os que trabalhamos com Microbiologia Clínica na atividade rotineira preocupamo-nos com diversas outras práticas que não se aproximam, de imediato, dessa linha de pesquisa.

Somos capazes de aceitar nossa ignorância em diversos campos da ciência. A clonagem humana é um deles. Somos especialistas em clonagem bacteriana para poder surpreendê-la no exercício patogênico. Nesse campo demos alguma contribuição(ver referências abaixo).

O futuro não pede parcimônia com determinadas referências bibliográficas, porém, facilitando a eventual vontade de exclusão usaremoscores diversas.

Embora a clonagem humana não seja objeto de nossas pesquisas, a dimensão ético-legal da questão envolve a todos. Nesse terreno o parâmetro fundamental é o respeito à vida e o respeito à autodeterminação da pessoa. Segundo essa dimensão, deve ser condenável a geração de embriões como material disponível para experimentação e a manipulação do DNA humano com fins seletivos e eugênicos. Ainda hoje, a tentativa de clonagem humana poderia ser considerada um ato irresponsável, antiético e não profissional.

Pequena viagem retrospectiva.

Experimentos com ervilhas podem ser úteis para estudar os mecanismos da hereditariedade? Esta resposta foi dada em 1869. E o esperma? Esta resposta foi possível encontrando-se doadores entre as trutas do rio Reno, que foram escolhidas em 1871 para que se pudesse descrever o DNA. Após setenta e dois anos demonstrou-se que o DNA (1943) é uma molécula capaz de alterar a hereditariedade das bactérias. Em 1958 isolou-se a enzima (polimerase) capaz de sintetizar o DNA num tubo de ensaio, isso demorou mais quinze anos. Depois de outros quinze (1965) constatou-se que a resistência a antibióticos, em bactérias, se devia a genes geralmente transportados por plasmídios. Esse DNA extracromossomial é hoje objeto de investigações em diversas espécies microbianas.

A partir de 1965 os passos dos avanços científicos são mais rápidos.

Estabeleceu-se o código genético completo; isolou-se a primeira proteína capaz de cortar as moléculas de DNA em sítios específicos (enzimas de restrição); demonstrou-se que esses fragmentos gerados podem ser ligados entre si, por um outro tipo de enzima (DNA ligase). Observou-se, em 1973, que inserções de fragmentos (estranhos) podem ser feitos e ainda assim funcionar em uma célula bacteriana (E. coli). Criou-se assim, o potencial para inserção e clonagem de qualquer gene em bactérias. Em menos de quinze anos (1965-78) a Somatostina se tornou o primeiro hormônio humano produzido pelo uso de DNA recombinante e oito anos depois (1986) vimos o FDA e OMS liberar uma vacina contra a hepatite B produzida por DNA recombinante.

Outros acontecimentos importantes ocorrem neste período: a construção da primeira planta industrial para a produção de DNA recombinante; a anemia falciforme foi detectada no diagnóstico pré-natal através da análise do DNA fetal (enzimas e sondas); o levedo de cerveja é usado para clonagem de seqüências do genoma do vírus da hepatite B e produção de partículas imunizantes.

Há uma revolução com as técnicas da engenharia genética. Mas estamos ainda em 1986. O que aconteceria dez anos depois?

A clonagem, que é o desenvolvimento de uma cópia geneticamente igual ao indivíduo, foi desenvolvida em 1996. Após 277 tentativas frustradas, nasceu Dolly em 1997, o primeiro clone de mamífero adulto oficial do mundo. No entanto, após o ano 2000, na ficção, o Dr. Albieri consegue o primeiro clone humano brasileiro, a partir de um dos irmãos, gêmeos, na novela da Rede Globo de Televisão.

Nasce Leo, xerox de Lucas que é irmão univitelino, monoplacentário, de Diogo, morto acidentalmente. Diogo é clone de Lucas e vice-versa. Dr. Albieri que tinha preferências por Diogo, sabia disso.

Com a ovelha Dolly (e com o clone-Leo) nasce, também na sociedade brasileira, uma série de questionamentos de ordem ético-morais e ficam explícitos os riscos potenciais à diversidade e integridade da espécie humana. Começa-se a explorá-los na TV, no horário nobre. Se a maioria dos clones de quatro patas apresenta problemas congênitos ou morre, o que pode acontecer com um clone humano?

Dr. Albieri foi realmente feliz na sua experiência?

A mãe tinha que ser uma "deusa", como enfatiza o companheiro que é estéril.

Eventualmente, a vaidade poderia ter sugerido a Edvaldo, companheiro de Deuza, que ele poderia ser o doador, o que não interessaria ao médico Albieri. Edvaldo entraria posteriormente como inocente útil.

Nem tudo é perfeito! Todos observamos que o clone-Leo é "diferente", embora humano em todos os sentidos.

Temos nós algum estigma? Também somos diferentes!

Somos indivíduos únicos, específicos e peculiares.

Quais os efeitos dos estigmas sobre os indivíduos de modo geral?

Uma pessoa é portadora de um estigma quando ela possui alguma diferença que constitua uma dificuldade para a sua aceitação integral na sociedade. O termo é de origem grega e se referia a sinais corporais que colocavam em evidência alguma alteração marcante no seu aspecto físico. Em seguida, tornou-se mais abrangente e adquiriu um sentido figurado. Estendeu-se ao campo moral em caráter negativo, significando marca vergonhosa. Por isso nós tendemos a acreditar que a pessoa não seja um ser humano. Um clone não se livrará facilmente desta marca e deverá sofrer discriminação, o que reduz chances de vida.

Informações no endereço http://www2.uerj.br/~morhan/index.html . Esta página é parte do Projeto de Extensão "Informar Para Integrar" da Faculdade de Enfermagem da UERJ.

Em termos psíquicos, os clones, poderão ser deficientes da figura paterna locomovendo-se com auxílio de muletas psicológicas?

Dr. Albieri detém o direito de patenteá-lo?

Clone-Leo é uma propriedade, um produto das experiências do médico tecnicamente competente?

A experiência do doutor Albieri.

A memória das células diferenciadas de mamíferos é reversível. Assim, a célula somática de Lucas foi induzida, "in vitro", em cultura, a este estado de quiescência, perdendo a memória da sua diferenciação. Retornando a totipotência comportou-se, após a fusão, como uma célula germinativa. Em outras palavras. Albieri retirou um ovócito, óvulo imaturo, das trompas da uma mulher-Deusa pouco depois da ovulação. Arrancou o núcleo da célula feminina que é o local onde existe a contribuição de tinta da mulher para pintar o quadro do novo ser. O que restou foi apenas a tela para a pintura. A seguir pegou o núcleo de uma célula isolada de Lucas ("pintor" ou "doador", nesse caso não consentido) onde está o manual de instruções (DNA) para se pintar um novo Lucas. Vamos relembrar que a célula (de Lucas) tinha sido submetida à regressão de memória a idades bem infantis (quiescência) e se sentiu germinativa. "Sentiu-se" porque, sob o ponto de vista ontogênico, não pode ser assim considerada. Estamos diante de um fenômeno cientificamente ainda não esclarecido. Nestas circunstâncias é como se o núcleo entrasse num estado de transe "hipnótico-químico" revendo toda a sua vida pregressa ou programação, podendo a partir daí tornar a expressá-la. O núcleo, da célula de Lucas, que é da raça branca, foi transplantado para o citoplasma do óvulo (tela ainda não pintada). Aí, ele pode acionar todo o seu código genético. Depois de algumas divisões celulares, Albieri as colocou no útero da mulher de raça negra e sadia e aguardou o trabalho da natureza.

Clone-Leo não poderia nascer moreninho, pois a contribuição feminina foi só de suporte (tela) para a linha completa de instruções codificadas pelo genoma da célula de Lucas. Albieri sabia que o seu produto não teria problemas em termos de preconceito racial. Assim Lucas (a célula doadora) e o clone-Leo são gêmeos idênticos com idades diferentes. A cópia xerox foi feita noutra máquina alguns anos depois.

Na teoria a técnica para se criar clones humanos é muito simples. Devemos lembrar que teoria e prática são diferentes e a segunda pode estar sujeita a idiossincrasias do pesquisador. Ninguém é comunicado pelo Dr. Albieri dos experimentos por ele realizados. Sob o ponto de vista do interesse de todos os personagens envolvidos na trama, mas principalmente dos interesses do paciente, a obtenção do seu "consentimento esclarecido" é conduta obrigatória. Este consentimento é previsto nos comitês de bioética institucional.

Precisamos estar atentos no campo dos valores éticos e legais. Na sede de conhecimento, fama ou poder os personagens que pertencem ao campo técnico-científico podem se comportar como a "Alicinha". Na novela, ela era capaz de "fazer qualquer negócio" para atingir seus escusos objetivos. E, ela não tinha por trás a ajuda dos "interesses econômicos".

A sociedade possui papel importante e fundamental na inibição de pessoas que perseguem objetivos obscuros. Deve exigir a criação de "polígonos de segurança ética" uma vez que as instituições, incluindo as de pesquisas, não estão totalmente a salvo das inteligências tecnicamente capazes, mas que possuem elevado grau de miopia na visão dos valores. Os veículos de comunicação podem exercer significante papel na denúncia desses profissionais de nível de consciência baixo. Já tivemos notícias de que pesquisadores publicaram dados que objetivamente não encontraram. Por isso damos preferência por revista científica que tenham um corpo editorial competente e sério.

De posse da competência técnica deveremos realizar a clonagem?

A Constituição Brasileira assegura direito à pesquisa, mas estabelece a proteção à dignidade da pessoa humana como limite ao uso do conhecimento. Porém, o homem é de natureza multifacetada, por isso acreditamos que se o clone humano puder ser feito, sê-lo-á. Ainda mais porque sabemos que restringir pesquisas significa apenas retardar a marcha do conhecimento.

As técnicas de clonagem animal ainda estão sendo aperfeiçoadas e os pesquisadores dizem que não existem fundamentos universais para nos basearmos na hora de tomarmos decisões éticas. Como fazer? Com "277 tentativas" poderemos chegar a um resultado "satisfatório"? Perfeição não é obra do acaso! Será ético experimentar em se tratando de seres humanos? Grita o imperativo ético, questionando!

Trabalhar com vírus e bactérias é "relativamente" fácil. Ninguém ainda perguntou quais são os direitos daquela bactéria virulenta que não tem consciência dos seus atos e aguarda no corredor da morte (autoclave), por ter fulminado uma criança.

Se não existem fundamentos universais para nortear nossas decisões diante das inquietações éticas relativas às novas técnicas, como fazer?

A partir de outubro de 2001 a UNESCO passou a examinar a possibilidade de desenvolver um instrumento universal sobre bioética partindo da Declaração Universal (novembro de 1997) sobre o Genoma e os direitos da Pessoa Humana. Diz a Nota Técnica sobre Clonagem Humana do Ministério da Ciência e Tecnologia em 26/11/2001 que o debate bioético pode ter como ponto de partida a premissa de que a clonagem não reprodutiva e o uso de células tronco, em si, não seriam rejeitáveis como procedimentos de suporte a terapias médicas. Essas poderão substituir células lesadas de órgãos como coração e cérebro. Os países desenvolvidos e o Brasil já dominam essa tecnologia. Uma vantagem é que usando células dos próprios pacientes se evitará o fenômeno imune da rejeição. Ansiedades e angústias serão aplacadas além de nos livrarmos da terapêutica com drogas imunossupressoras.

Cabe ainda lembrar que a Comissão Jurídica da Assembléia Geral das Nações Unidas decidiu apoiar a proposta de elaboração de um tratado internacional que proíba a clonagem de seres humanos por ser "contrária a dignidade humana". Esta missão está sendo conduzida pela UNESCO.

Embora as células conseguidas de um embrião, obtidas na primeira semana depois da fecundação, sejam extremamente poderosas, o seu uso prevê a destruição do embrião. Sob o ponto de vista ético isso é condenável. As células-tronco, obtidas da medula óssea são também muito eficientes e se equivalem as células que podem ser colhidas da placenta, no cordão umbilical, no momento do nascimento.

As células-tronco derivadas de sangue de cordão umbilical podem ser armazenadas num banco de sangue. Mesmo aqui não ficamos isentos das questões científicas, éticas e sociais que surgem dessa tecnologia emergente. Um exemplo é que o processo de obtenção de consentimento "pós-informado" para a coleta de sangue de cordão umbilical deve ser antes do trabalho de parto e do parto. Um outro ponto que também desponta é a necessidade de estarmos atentos às práticas de marketing deste banco no setor privado. Será que os mais pobres terão garantias no sentido da democratização do acesso?

O que se aproxima de nossa atividade de pesquisa é que no futuro poderemos desenvolver anticorpos monoclonais menos problemáticos. No entanto, permanecemos ainda com o pires na mão na universidade pública e acreditamos que vamos esperar mais quinze ou vinte anos para transformar sonho em realidade. No Brasil, parece mais fácil financiar atividades bancárias.

E a clonagem humana?

Se a ciência não é capaz de nos dizer o que é bom (ou não) é necessário estimular a transparência e um profundo debate transdisciplinar. Clone-Leo não poderia nascer ao arrepio da lei, de maneira antiética, como nasceu na novela cinco anos depois de Dolly.

No mês de agosto de 2001 (USA) pesquisadores anunciaram que o primeiro bebê clonado poderia ser concebido e nascer em 2002. Para um ser de natureza bio-psico-sócio-espiritual é muito mais adequado o nascimento pelos meios naturais. Como a clonagem é um processo sujeito a imperfeições pode-se perceber que pesquisadores andam indo muito ao teatro. A clonagem de humanos é ainda humanamente injustificável e eticamente inaceitável.

A hora é inusitada e paradoxal. Estamos convivendo com mosquitos e epidemia de Dengue no mesmo momento em que questões éticas sobre clonagem são levantadas, antes que a técnica seja aplicada ao ser humano.

Trazendo para a linha de pesquisa, nossa equipe não imaginaria no início dos anos 90, que poderíamos nos candidatar a participação em 2002, Viena, de um encontro sobre Difteria, uma doença da era colonial americana.

Voltemos ao clone.

Ainda no campo especulativo, a sociedade tem feito perguntas.

Seriam exatamente iguais os clones humanos?

Num organismo unicelular é mais difícil perceber diferenças, embora seja mais fácil pesquisar. Nos pluricelulares é o inverso, fácil perceber diferenças num organismo que possui muitas unidades e no corpo humano as contamos na casa dos trilhões.

O clone de Arnold Schwarzenegger será franzino se não for adepto fervoroso do halterofilismo e o clone de Einstein vai necessitar de muitos exercícios, verdadeira musculação cerebral, para desenvolver de forma semelhante o domínio cognitivo. O DNA apenas nos oferece a possibilidade. A probabilidade e a certeza dependem de muitas variáveis que não são todas do domínio da ciência ou do homem.

Um indivíduo é produto da interação entre a herança genética, o ambiente físico e cultural e o processo de aprendizagem. Hoje, impossível descartar a chamada herança espiritual. A idéia de recriação de pessoas boas ou más é fantasiosa e está desprovida de fundamentação científica.

A discussão anterior nos remete a uma questão:

São exatamente iguais os clones bacterianos de uma mesma espécie?

Certamente as dificuldades de se achar as diferenças serão maiores nesses seres mais simples, procarióticos, do que nos seres pluricelulares. Entretanto, microbiologistas não usam apenas o microscópio ótico ou eletrônico.

No vasto mundo microbiano há grande número de informações. Como possuímos experiência com algumas espécies vamos utilizá-las como um modelo unicelular.

O gênero Corynebacterium abriga bacilos em forma de clava, que tendem a formar arranjos em paliçadas e/ou letras chinesas. Compreende número grande de espécies, algumas sendo mal definidas, mas a espécie-tipo do gênero, C. diphtheriae, é muito bem estudada.

Clones Apresentam Tipos Diferentes.

O C. diphtheriae pode ocorrer sob a forma de três biotipos, denominados gravis, mitis e intermedius. A diferenciação destas variedades é feita através dos caracteres coloniais e testes bioquímicos. Estes termos originaram-se nos estudos que correlacionaram a gravidade da doença com a presença dos biotipos. O tipo gravis foi associado a formas graves da doença, o mitis, a leves e o intermedius a formas intermediárias. Embora investigações realizadas na Inglaterra, nos idos de 1930, não deixem dúvidas quanto a alguns acertos desta associação, a tendência atual é acreditar que os três biotipos partilham a mesma forma clínica da doença. Não obstante, continua sendo de interesse reconhecê-los, particularmente no estudo de surtos epidêmicos.

Clones Preocupantes

Apesar do amplo conhecimento sobre patogenia, aspectos clínicos, terapêutica e profilaxia, a difteria é ainda uma ameaça, por causa da vacinação deficiente, do controle inadequado dos contactos familiares e ainda do retardo do diagnóstico-tratamento. Diante de uma criança febril e prostrada, é obrigatória a procura de pseudomembrana na orofaringe, embora exista a possibilidade de formas isoladas (nasal ou laríngea).

O bacilo diftérico pode causar infecção em vários órgãos e tecidos, mas a forma clínica mais freqüente e mais grave é a faríngea, denominada angina diftérica. Tanto as manifestações locais como as sistêmicas são principalmente devidas a uma potente exotoxina (veneno bacteriano). A molécula é uma cadeia peptídica única mantida em forma de alça por pontes de dissulfeto. Pode ser dissociada em dois fragmentos. O fragmento A, que é mais leve do que o B, é responsável pela lesão bioquímica, mas só atinge o citoplasma celular quando associado ao fragmento B.

Os efeitos tóxicos do fragmento A são decorrentes de sua capacidade de inativar o fator de alongamento 2 (EF-2) bloqueando a síntese de proteínas. Tanto o homem como várias espécies animais são sensíveis à exotoxina. A dose letal é de 0,1 g por quilo de peso.

A toxina é codificada por genes (tox) que fazem parte do genoma de certos bacteriófagos e que são capazes de lisogenizar o bacilo diftérico. A perda do bacteriófago, que contem o gen tox, torna-o incapaz de produzir a exotoxina. Embora a codificação da produção da toxina dependa do fago a atividade do gen tox é regulada por uma proteína codificada por genes cromossômicos do bacilo.

Porém, além da espécie-tipo, outras estão mostrando seus clones com alguma capacidade agressiva.

Clones Diferentes no Poder Toxígeno.

Após uma incubação de um a seis dias, na difteria, há o aparecimento de febre, geralmente moderada, queda do estado geral,O bacilo multiplica-se na porta de entrada e produz a exotoxina com tropismo especial para o miocárdio, sistema nervoso, rins e supra-renais. Fixada de modo estável nos tecidos não pode mais ser neutralizada. Da faringe, pode estender-se à laringe e traquéia, ocasionando quadro de insuficiência respiratória aguda por obstrução alta. A gravidade da doença se deve a grande absorção de toxina, que se relaciona com a extensão da pseudomembrana e sua localização em região mais vascularizada.

A maioria dos casos de difteria evolui em duas a três semanas. Diferente da epidemia dos dias de hoje (dengue) a letalidade da difteria no Brasil varia de 10 a 20%, sendo diretamente proporcional ao retardo do diagnóstico e do tratamento específico. Quando o óbito ocorre na primeira semana da doença quase sempre é devido à insuficiência respiratória alta. Após o décimo dia é comum o óbito causado por miocardite-insuficiência renal.

Clones Diferem nas Exigências Nutritivas

No laboratório, os clones produtores de toxina demonstram comportamentos diferentes dependendo da peptona (nutriente) usada na dieta (meio de cultura). Algumas amostras fazem "greve" de produção da toxina, até mesmo se pegarmos de outro recipiente a mesma peptona, "reconhecendo a data de fabricação", a partida diferente.

Existem casos da doença hiper-tóxicos que precocemente apresentam a miocardite, a insuficiência renal e a polineurite, mas o óbito pode também ocorrer pelas manifestações hemorrágicas. O prognóstico é grave na presença de grande edema de pescoço, pseudomembrana extensa, fenômenos hemorrágicos, bloqueio AV total e insuficiência renal.

No Hospital Universitário da UFRJ de cem casos de difteria grave, 42 apresentaram polineurite; seis destes pacientes desenvolveram insuficiência respiratória por paralisia de intercostais e/ou diafragma. Isto evidencia a necessidade de acompanhamento por período mínimo de dois meses após o início da doença.

Clones Diferem na Fluorscência.

Sósias existem no mundo microbiano.

Alguns bastonetes encontrados normalmente em humanos se assemelham tanto ao bastonete causador da difteria que alguns profissionais, vez por outra, se enganam e comem "gato por lebre". Isto acontece principalmente quando encontram amostras não produtoras de toxina.

Esses "difteróides" são sósias do perigoso agente etiológico da difteria. Embora aparentemente inofensivos, por não serem capazes de produzir a mesma toxina do patogênico "por excelência", esses corineformes não podem ser subestimados.

Divulgamos os métodos de triagem desenvolvidos nos nossos laboratórios por esse e outros motivos.

Clones Diferem na Fermentação.

As crianças abaixo de 10 anos continuam a ser as mais atingidas. O maior número de casos e óbitos tendem a ocorrer na faixa de 1 a 4 anos. A doença incide de maneira endêmica no Brasil, com aparecimento de surtos epidêmicos esporádicos.

No Rio de Janeiro o coeficiente de incidência é maior nos bairros suburbanos e rurais, onde o nível sócio-econômico é baixo, as condições de atendimento médico são precárias e um menor número de crianças são vacinadas. Encontra-se com alta freqüência o biótipo, fermentador de sacarose, que difere também das amostras clássicas, sacarose negativa, em testes de adesividade.

Clones Diferem nos Ligantes e Hemaglutinação.

Quando utilizamos hemácias de carneiro, pinto, gato, macaco, ganso, cobaio e de humanos observamos oito padrões hemaglutinantes. O comportamento é também variável usando-se apenas hemácias de carneiro. Desta forma são encontrados títulos aglutinantes diferentes. Com outros tipos de células não é muito diferente.

Clones Diferem na Superfície Celular.

Diferentes graus de hidrofobicidade foram encontrados e dados recentes apontam diferenças nos sacarídeos ligantes da superfície celular dos clones bacterianos

Clones Diferem no Poder Invasor.

Após ampla vacinação e erradicação dos países desenvolvidos, a difteria praticamente desapareceu das cogitações da maioria dos pesquisadores no mundo. No entanto, em 1998 descrevemos uma inesperada invasão do músculo cardíaco.

Hoje já se advoga que alguns clones apresentem propriedades invasoras.

Clones Diferem na Colonização.

Sua incidência é maior no outono e inverno, no entanto, nas regiões que não apresentam grandes oscilações sazonais de temperatura, esta diferença não é significativa. O mesmo ocorre onde população possui alto índice de promiscuidade.

O bacilo diftérico tem sido encontrado em sítios incomuns como ouvidos; conjuntiva e vagina. A colonização de pacientes adultos desperta, grande interesse. Entre nós, já foi isolado de espermocultura e de úlceras leishmanióticas .

A pele pode ser um reservatório de potencial importância na manutenção da circulação do C. diphtheriae uma vez que pode ser isolado de vários tipos de lesões cutâneas, principalmente de zonas tropicais onde são comuns as picadas de insetos e os traumatismos.

No laboratório do Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, foi isolada recentemente uma amostra toxinogênica de C. diphtheriae, variedade mitis, fermentadora de sacarose, de uma lesão ulcerada de carcinoma infiltrado basilóide, de um paciente de 45 anos de idade, no período pré-operatório.

Clones Diferem na Sensibilidade/Resistência.

Embora esses bacilos continuem apresentando sensibilidade à maioria dos antimicrobianos descrevemos um caso de endocardite mitral fatal, resistente à terapia por penicilina, no Rio de Janeiro.

É Necessário Vacinar.

Após três décadas de controle absoluto da doença, a difteria ressurgiu em países europeus de maneira epidêmica. O ocorrido na Federação Russa, com mais de 100.000 casos relatados no período de 1990 a 1994, transformou-se no maior surto recente de difteria.

A situação atual da população brasileira guarda semelhança com as condições dos locais da Europa onde o bacilo causou problemas não apenas em crianças. Estudos realizados no exterior demonstraram que 50% dos adultos apresentavam níveis baixos de anticorpos protetores antitóxicos. Por esse motivo recomendou-se de modo geral a revacinação de adultos e, em particular, a imunização dos profissionais de saúde.

O risco de exposição, na área de saúde, a este patogênico "por excelência" e em particular nos laboratórios nos tem deixado apreensivos.

Como andara a imunidade de nossos médicos, enfermeiros? Será que já somos capazes de fabricar e oferecer esta vacina para todos?

Mais da metade de nossos infectologistas, pediatras e bacteriologistas, talvez nem tenham renovado a vacinação nos últimos dez anos. Quando foi a sua última dose? Nossas crianças receberam vacinação completa?

Estudos sobre a superfície bacteriana, suas adesinas e ainda a determinação da existência de uma enzima, como a transialidase, capaz de contribuir na patogenia da doença, são informações de relevância.

No entanto, diante da realidade brasileira e sob o ponto da vista de Saúde Coletiva, diagnóstico precoce e a vacinação de toda a população susceptível, adulta ou não, profissional de saúde ou não, continuam sendo os nossos maiores desafios.

Clones Agridem Pessoas Vacinadas

Mesmo diante de ampla vacinação, alguns clones, sem discriminar as condições sociais, econômicas ou culturais do paciente, conseguem romper sua barreira imunológica. Descrevemos um caso onde a paciente advogada havia recebido vacinação completa.

Tenho procurado, por escrito, informar aos "meus" médicos o meu pensamento, minhas crenças, enfim tudo aquilo que deles espero. Enfatizei as minhas necessidades psicossociais e as psicobiológicas. No entanto gostaria que se lembrassem, com muita nitidez, do que escrevi sobre as minhas necessidades psicoespirituais. Elas se apóiam em trabalhos de investigação que utilizaram principalmente o método das ciências sócio-morais.

Existem pessoas indiferentes neste campo ou possuidoras de um conceito prévio de que o método científico não possui condições de investigar questões pertinentes ao domínio espiritual. Sofreram um processo educativo, religioso ou não, que produz uma "mente fechada". Muitas são incapazes de pensar que a morte do corpo não mata a vida e que esta consciência liberta possa novamente ser aprisionada pelas malhas de um DNA, no "espetáculo" da vida e da evolução. Outras estenderam as leis da matéria a todos os setores de investigação. Neste nível de consciência os valores éticos, de índole imponderável e imaterial, não podem encontrar receptividade e não se importam em legalizar o que não é ético.

Encontramos também as que não foram bem condicionadas pelos seus credos religiosos e tornaram-se incrédulos, embora exibam a vestimenta religiosa. Podem se tornar adeptos do dólar ou do materialismo religioso e chegam a "i-dolar-tria" dos valores imediatos. Passam a perseguir esses valores aqui e agora e seus comportamentos podem apresentar contornos antiéticos. Com seus interesses puramente econômicos, procuram colocar obstáculos aos resultados de pesquisas que apontam para evidências sugestivas da imortalidade da alma, numa atitude aparentemente incoerente. Jung disse que "neste assunto da sobrevivência da alma, existem acontecimentos que dão o que pensar".

Diz a nota técnica do Ministério de Ciência e Tecnologia que um dos maiores desafios de nossa época é explorar as relações entre o fato científico, a norma legal e os valores éticos caros ao ser humano.

Na clonagem a reflexão se aplica a fatos e se constrói a partir deles. Não se trata de um sistema de princípios abstratos determinados que se impõe sobre a realidade a partir de normas proibitórias. Cabe lembrar que a bioética se funda sobre fatos, princípios e regras. Os técnicos do governo brasileiro asseveram que evitando a subjetividade, a ideologização e o reducionismo, cabe à comunidade científica a orientação do debate junto à sociedade. Esse debate deverá desembocar na eleição de critérios éticos relevantes para o exame dos avanços das ciências da vida, de modo que o diálogo na sociedade possa radicar-se em plano nacional, interdisciplinar, prospectivo, global e sistemático. Antes do nascimento da ovelha Dolly o Comitê Internacional de Bioética da UNESCO constatava que existiam no mundo mais de 200 comitês nacionais de ética, com seus estatutos e atribuições.

É necessário um grande investimento nesta educação do sentimento. Podemos não saber responder qual o sentido da vida, mas certamente todos sabemos que sem amor a vida não tem sentido.

"A educação da alma é a alma da educação".

Só a Educação pode ensinar a tomar decisões!

Aceitamos nossa ignorância em diversos campos da ciência. A clonagem humana é um deles. No entanto, a dimensão ético-legal da questão envolve a todos. Que possamos oferecer alguma contribuição na solução dos desafios éticos desta hora, pois nestes caminhos vamos encontrar pedras de tamanhos diversos.

Texto elaborado para discussão na pós-graduação:
Curso de Especialização em Bacteriologia Clínica e Virologia.
Instituto de Microbiologia da UFRJ,
Disciplina: Ensino de Microbiologia.
Treinamento Didático (Ensino@Pesquisa@Ética).
Prof. Luiz Carlos Formiga

e-mail: neufundao@hotmail.com

Núcleo Espírita Universitário do Rio de Janeiro

http://zap.to/neurj