Médium: “Cuidado Perigo!”

Luiz Carlos D. Formiga

Revista Internacional de Espiritismo, Ano LXXIV - núm. 3 - Matão, Abril, 1999. Casa Editora O Clarim
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“O primeiro indício da falta de bom-senso está em crer alguém infalível o seu juízo.”
Allan Kardec

Estudo grafoscópico comprova mensagens psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier.

Escrevemos no opúsculo intitulado Esclarecendo Dúvidas, do Núcleo Espírita Universitário-Fundão, na UFRJ, (www.cvdee.org.br ou www.n3.com.br/user/jal/NEU.zip) o seguinte: “Recentemente um professor universitário especializado, dr. Carlos Augusto Perandréa, fez um estudo grafoscópico de mensagens psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier. O estudo se baseia na assinatura do espírito, quando encarnado e, depois, vindo do outro mundo e atuando através do médium. É um trabalho inédito em todo o mundo e apresenta metodologia capaz de comprovar a autenticidade das manifestações espirituais e sobrevivência da alma após a morte do corpo físico. Você acredita nas psicografias? O conjunto de resultados obtidos pelos experimentadores sérios, com diversos médiuns, em todas as partes do globo terrestre, permite concluir que a negação da realidade do fenômeno é uma posição difícil de ser sustentada. Poderemos inferir, por outro lado, que, se os espíritos são capazes de fazer prodígios com o lápis, como o espírito Humberto de Campos, ou com o pincél, como espírito Renoir, eles certamente serão também capazes de obter bons resultados com o bisturi, principalmente se forem cirurgiões desencarnados.”

Em Kardec, A. 1857. O livro dos espíritos. Introdução. FEB. 34ª ed., encontramos as explicações pertinentes.

Os adeptos do Espiritismo são espíritas, ou, se quiserem, espiritistas. Chamamos alma ao ser imaterial e individual que em nós reside e sobrevive ao corpo.

Cremos na existência dos Espíritos e nas suas comunicações com o mundo visível.

As primeiras manifestações inteligentes se produziram por meio de mesas que se levantavam e, com um dos pés, davam certo número de pancadas, respondendo desse modo — sim, ou — não, conforme fora convencionado, a uma pergunta feita. Obtiveram-se depois respostas mais desenvolvidas com o auxílio das letras do alfabeto: dando o móvel um número de pancadas correspondente ao número de ordem de cada letra, chegava-se a formar palavras e frases que respondiam às questões propostas. A precisão das respostas e a correlação que denotavam com as perguntas causaram espanto.

Foi um desses seres invisíveis quem aconselhou a adaptação de um lápis a uma cesta ou a outro objeto. Colocada em cima de uma folha de papel, a cesta é posta em movimento pela mesma potência oculta que move as mesas; mas, em vez de um simples movimento regular, o lápis traça por si mesmo caracteres formando palavras, frases, dissertações de muitas páginas sobre as mais altas questões de filosofia, de moral, de metafísica, de psicologia, etc., e com tanta rapidez quanta se se escrevesse com a mão.

O conselho foi dado simultaneamente na América, na França e em diversos outros países.

“Vai buscar, no aposento ao lado, a cestinha; amarra-lhe um lápis; coloca-a sobre o papel; põe-lhe os teus dedos sobre a borda.” Alguns instantes após: “Proíbo expressamente que transmitas a quem quer que seja o que acabo de dizer.” O conselho foi dado simultaneamente na América, na França e em diversos outros países.

Reconheceu-se mais tarde que a cesta e a prancheta não eram, realmente, mais do que um apêndice da mão; e o médium, tomando diretamente do lápis, se pôs a escrever por um impulso involuntário e quase febril.

Finalmente, a experiência deu a conhecer muitas outras variedades e até pela escrita direta dos Espíritos, isto é, sem o concurso da mão do médium, nem do lápis.

O movimento dos objetos é um fato incontestável. A questão está em saber se, nesse movimento, há ou não uma manifestação inteligente e, em caso de afirmativa, qual a origem dessa manifestação.

A maneira pela qual os dedos do médium repousam sobre os objetos desafia a mais consumada destreza de sua parte no intervir, de qualquer modo, em o traçar das letras. Mas, admitamos que a alguém, dotado de maravilhosa habilidade, seja isso possível e que esse alguém consiga iludir o olhar do observador; como explicar a natureza das respostas, quando se apresentam fora do quadro das idéias e conhecimentos do médium?

Segundo opinião, o médium é a única fonte produtora de todas as manifestações, que as toma ao meio ambiente. No entanto, pode-se demonstrar, até à evidência, que certas comunicações do médium são completamente estranhas aos pensamentos, aos conhecimentos, às opiniões mesmo de todos os assistentes, que essas comunicações freqüentemente são espontâneas e contradizem todas as idéias preconcebidas.

Onde foram os médiuns beber uma doutrina que não passava pelo pensamento de ninguém na Terra? Por que estranha coincidência milhares de médiuns espalhados por todos os pontos do globo terráqueo, e que jamais se viram, acordaram em dizer a mesma coisa? Cabe lembrar que as primeiras manifestações, na França, como na América, não se verificaram por meio da escrita nem da palavra, e, sim, por pancadas concordantes com as letras do alfabeto e formando palavras e frases.

Por que é que os Espíritos vêm e vão-se, muitas vezes, em dado momento e, passado este, não há pedidos, nem súplicas que os façam voltar?

A opinião dos sábios é, com toda razão, fidedigna, porquanto eles sabem mais e melhor do que o vulgo. Hão de eles, porém, permitir-me, sem que isto afete a estima a que lhes dá direito o seu saber especial, que eu não tenha em melhor conta suas opiniões negativas acerca do Espiritismo, do que o parecer de um arquiteto sobre uma questão de música.

As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular livremente; os fenômenos espíritas repousam na ação de inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se acharem subordinadas aos nossos caprichos.

Se os fatos a que aludimos se houvessem reduzido ao movimento mecânico dos corpos, a indagação da causa física desse fenômeno caberia no domínio da Ciência; porém, desde que se trata de uma manifestação que se produz com exclusão das leis da Humanidade, ela escapa à competência da ciência material, visto não poder explicar-se por algarismos, nem por uma força mecânica. Quando surge um fato novo, que não guarda relação com alguma ciência conhecida, o sábio, para estudá-lo, tem que abstrair da sua ciência e de idéias preconcebidas.

Acrescentemos que o estudo de uma doutrina, qual a Doutrina Espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova quão grande, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado. O que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá.

Quem deseje tornar-se versado numa ciência tem que a estudar metodicamente, começando pelo princípio e acompanhando o encadeamento e o desenvolvimento das idéias. Quem quiser com eles instruir-se tem que com eles fazer um curso; mas, exatamente como se procede entre nós, deverá escolher seus professores e trabalhar com assiduidade.

De forma pueril apontam contradição onde freqüentemente só há diferença de palavras. Os Espíritos superiores não se preocupam absolutamente com a forma. Para eles, o fundo do pensamento é tudo. Já não é maravilhoso que se exprimam indiferentemente em todas as línguas e que as entendam todas?.

O cepticismo, no tocante à Doutrina Espírita, quando não resulta de uma oposição sistemática por interesse, origina-se quase sempre do conhecimento incompleto dos fatos, o que não obsta a que alguns cortem a questão como se a conhecessem a fundo. Pode-se ter muita instrução e carecer-se de bom-senso.

Alguns falaram em fraudes. No entanto, numa mistificação que se propagou de um extremo a outro do mundo e por entre as mais austeras, veneráveis e esclarecidas personalidades, qualquer coisa há tão extraordinária quanto o próprio fenômeno.

Outros comentam que as manifestações são do espírito do mal. Note-se que admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer o princípio das manifestações.

Resta explicar porque Deus só ao Espírito do mal permite que se manifeste sem nos dar por contrapeso os conselhos dos bons Espíritos?

Um fato demonstrado pela observação e confirmado pelos próprios Espíritos é o de que os Espíritos inferiores muitas vezes usurpam nomes conhecidos e respeitados.

Essa é uma das dificuldades do Espiritismo prático. Nunca, porém, dissemos que esta ciência fosse fácil, nem que se pudesse aprendê-la brincando, o que, aliás, não é possível, qualquer que seja a ciência.

Médium que diz já saber tudo, não estuda e nem se esforça por dominar suas inclinações menos éticas pode acabar virando notícia triste de jornal!

Luiz Carlos D. Formiga

neufundao@hotmail.com

Rio de Janeiro