Na Universidade - Indiferença ou Medo?

Luiz Carlos D. Formiga

Revista Internacional de Espiritismo, ano LXXV (2): 77-79, março de 2000.

A Universidade é local de provas e até mesmo de expiações. Qualquer aluno que enfrentou aulas de um “educastrador” pode testemunhar o que afirmo. No entanto, na “disciplina” de divulgação da Doutrina Espírita no campus, a prova da indiferença dos próprios espíritas parece ter sido organizada com questões do mais alto nível.

Embora na Casa Espírita (2) concordem que “Ninguém acende uma candeia para pô-la debaixo do alqueire.(Mateus,V:15), dentro da academia há companheiros que se dizem contrários. “Julgam vaidade o propósito de se lhe exaltar os méritos e agradecer os benefícios nas iniciativas de carácter público. Para eles o Espiritismo fala por si e caminhará por si. Estão certos nesta convicção, mas acreditamos que isso não nos invalida o dever de colaborar na extensão do conhecimento espírita com o devotamento que a boa semente merece do lavrador.

O ensino exige recintos para o magistério. O espiritismo deve ser apresentado por seus profitentes em sessões públicas. A cultura reclama publicações. O espiritismo tem a sua alavanca de expansão no livro que lhe expõe os postulados. A arte pede representações. O espiritismo não dispensa as obras que lhe exponham a grandeza. A indústria requisita produção que lhe demonstre o valor. O espiritismo possui a sua maior força nas realizações e no exemplo dos seus seguidores, em cujo rendimento para o bem comum se lhe define a excelência.

Allan kardec começou o trabalho doutrinário publicando as obras da codificação e instituindo uma sociedade promotora de reuniões e de palestras públicas, uma revista e uma livraria, para a difusão inicial da revelação nova.

Que Jesus estimou a publicidade, não para si mesmo, mas para o evangelho, é afirmação que não sofre dúvida. Para isso, encetou a sua obra aliciando doze agentes respeitáveis. Ele próprio fundou o cristianismo através de assembléias públicas.

Chamou Paulo de Tarso para publicar-lhe os princípios junto à gentilidade a que Jerusalém jamais se abria. Se quisermos preservar o espiritismo e renovar-lhe as energias, a benefício do mundo, é necessário compreender-lhe as finalidades de escola e toda escola para cumprir o seu papel precisa divulgar”. (1)

No Núcleo Espírita Universitário do Fundão (UFRJ) recebemos uma série de questões, compiladas num opúsculo, e duas delas nos ofereceram a oportunidade de esclarecer dúvidas. Uma sobre o tríplice aspecto da Doutrina Espírita e outra sobre a base utilizada por Kardec na elaboração de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Respondemos que “ o fato mediúnico sobe ao campo da Filosofia quando procuramos explicar os graus da diversidade dos espíritos que se comunicam e os diversos níveis de suas evoluções, e, ainda, quando explicamos a sua marcha evolutiva através da reencarnação. Lembramos que “em espiritismo, a Ciência indaga, a Filosofia conclui e o Evangelho ilumina, renovando a alma para a eternidade.”

A Ciência e a Filosofia são os meios e o Evangelho é o fim.

A Instituição universitária, afastada das realidades do espírito, hoje possui em seus departamentos muitos doutores, mas poucos sábios, como modelos para a educação do homem integral. “No esforço científico e na perquirição filosófica, o homem pode gastar indefinido tempo à procura das causas profundas do destino e do ser, no Evangelho porém, o coração e o cérebro despertam para o caminho da própria sublimação.

O Evangelho segundo o Espiritismo é o ensinamento moral do Cristo. As matérias nos evangelhos podem dividir-se em cinco partes: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras tomadas pela igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. As quatro primeiras têm sido objeto de controvérsias; a quinta, porém, conservou-se inatacável. Considerando esta última parte como código divino, o roteiro infalível para a felicidade vindoura, Kardec, com a ajuda dos bons espíritos, achou essencial pô-la ao alcance de todos, mediante a explicação das passagens obscuras e o desdobramento de todas as conseqüências. Importante perceber que a cada capítulo, Kardec cita o ensinamento de Jesus, a fonte de onde foi retirado e procura explicar os fatos à luz dos postulados espíritas, como a imortalidade e a reencarnação.

Os estudiosos poderão encontrar explicações lógicas e racionais de temas que, mantidos até hoje nas sombras dos "mistérios" ou "milagres", permanecem sem solução. Com a chave da reencarnação nos permitimos abrir a porta do entendimento das mensagens de Jesus.

O seu capítulo XXIV parece adequado para ilustrar a questão da divulgação do Espiritismo na Universidade.

“Ninguém acende uma candeia para pô-la debaixo do alqueire; põe-na, ao contrário, sobre o candeeiro, a fim de que ilumine a todos os que estão na casa”. ( Mateus, V: 15). “Ninguém há que, depois de ter acendido uma candeia, a cubra com um vaso, ou a ponha debaixo da cama; põe-na sobre o candeeiro, a fim de que os que entrem vejam a luz; pois nada há secreto que não haja de ser descoberto, nem nada oculto que não haja de ser conhecido e de aparecer publicamente.”(Lucas, VIII: 16).

“Aproximando-se, disseram-lhe os discípulos: por que lhes falas por parábolas? —disse ele: é porque, a vós outros, foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus. Falo-lhes por parábolas, porque, vendo, não vêem e, ouvindo, não escutam e não compreendem. E neles se cumprirá a profecia de Isaías, que diz: ouvireis com os vossos ouvidos e não escutareis; olhareis com os vossos olhos e não vereis.”(Mateus, XIII: 10)

Jesus falava-lhes por parábolas, porque não estavam em condições de compreender certas coisas. Viam, olhavam, ouviam, mas não entendiam. Oferece explicação aos discípulos: “Digo-o, porém, a vós, porque dado vos foi compreender estes mistérios.” Procedia, portanto, com o povo, como se faz com crianças cujas idéias ainda se não desenvolveram. Todo ensinamento deve ser proporcionado à inteligência daquele a quem se queira instruir.

Piaget, dois mil anos depois, oferece sua contribuição. No nível sensório motor a criança é incapaz de representação. No estágio pré-operatório ou pré-lógico já há a possibilidade de evocar objetos ausentes e de representação simbólica, mas a criança é ainda incapaz de avaliar a qualidade de um objeto de acordo com uma relação. Só no estágio operatório essas relações se estabelecem e o pensamento adquire um princípio de lógica. No entanto, só mais tarde se torna capaz de resolver os problemas mentalmente, examinando hipóteses, sem preconceitos e com atitude científica.

Encontramos estágios semelhantes, não apenas nos alunos, quando a hipótese, que melhor explica o fato inusitado, é a reencarnação.

As gerações têm sua infância, sua juventude e sua maturidade. Cada coisa tem de vir na época própria; algumas sementes lançadas à terra, fora da estação, não germinam. É necessário mantermos reservas em determinadas ocasiões. Manter reserva não é o mesmo que colocar sob o alqueire.

Poder-se-ia perguntar naquela época: que proveito podia o povo tirar das parábolas, cujo sentido se lhe conservava impenetrável? Kardec lembra que Jesus somente se exprimiu por parábolas sobre as partes de certo modo abstratas da sua doutrina. Mas, tendo feito da caridade para com o próximo e da humildade condições básicas da salvação, tudo o que disse a esse respeito é inteiramente claro, explícito e sem ambigüidade. Era a regra de conduta, que todos tinham de compreender para poderem observá-la. Sobre as outras partes, apenas aos discípulos desenvolvia o seu pensamento, eles eram mais adiantados, moral e intelectualmente. Daí o haver dito: aos que já têm, ainda mais se dará. Entretanto, mesmo com os apóstolos, conservou-se impreciso acerca de muitos pontos. Foram esses pontos que deram ensejo a tão diversas interpretações, até que a Ciência e o Espiritismo revelassem as novas Leis da Natureza, que lhes tornaram perceptível o verdadeiro sentido. Mesmo assim, com admirável prudência se conduzem os espíritos, ao darem suas instruções. Eles ainda não dizem tudo ostensivamente, não colocam a lâmpada debaixo do alqueire, esperam o momento oportuno.

Jesus já estava de posse do conhecimento antes de Piaget. Por isso enviou seus doze apóstolos, com as instruções seguintes: “não procureis os gentios e não entreis nas cidades dos samaritanos. — ide, antes, em busca das ovelhas perdidas da casa de Israel; — e, nos lugares onde fordes, pregai, dizendo que o reino dos céus está próximo.” ( Mateus, X: 5.).

Os judeus já acreditavam no Deus uno e esperavam o Messias. Estavam preparados, pela lei de Moisés e pelos profetas, a lhes acolherem a palavra, iriam semear em terreno já arroteado. Este mesmo raciocínio aplica-se hoje aos divulgadores do Espiritismo nas Universidades.

Äo aluno de graduação de nada adiantaria detalhar determinadas informações. No entanto, essas mesmas informações podem ser imprescindíveis aos alunos da pós-graduação.

Os incrédulos sistemáticos, os zombadores obstinados, são para nós hoje, o que eram os gentios para os apóstolos. Não perder tempo com os que não querem ver, nem ouvir. Deixá-los tranqüilos não é indiferença, mas boa política. Há idéias que “não podem germinar fora da estação apropriada, nem em terreno não preparado”.

Por outro lado, as informações podem ser deixadas numa página na internet. Um dia eles amadurecem e a examinam.

A divulgação deve estar isenta de preconceitos e devemos abrir as portas ao povo, socializando o conhecimento não apenas porque pagam seus impostos.

“Estando Jesus à mesa em casa desse homem (Mateus), vieram aí ter muitos publicanos e gente de má vida, que se puseram à mesa com Jesus e seus discípulos; os fariseus, notando-o, disseram aos discípulos: como é que o vosso Mestre come com publicanos e pessoas de má vida? Tendo-os ouvido, disse-lhes Jesus: não são os que gozam saúde que precisam de médico. (Mateus, IX: 10)

Jesus se acercava, principalmente, dos pobres e dos deserdados, porque são os que mais necessitam de consolações; dos cegos dóceis e de boa fé, porque pedem se lhes dê a vista, e não dos orgulhosos que julgam possuir toda a luz e de nada precisar.

Espíritas que são professores, funcionários ou alunos devem ser espíritas também dentro da Universidade e colaborar na divulgação. Muitos temem revelar sua condição, de espíritas, e se ocultam atrás da máscara do materialismo ou do agnosticismo. Temem entrar na sala de reuniões ou mesmo serem vistos lendo um cartaz colocado no campus. Esses espíritas sem coragem esqueceram as palavras daquele que usam como Modelo e Guia. “Aquele que me confessar e me reconhecer diante dos homens, eu também o reconhecerei e confessarei diante de meu pai que está nos céus. (Mateus, X: 32). “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, o filho do homem também dele se envergonhará, quando vier na sua glória e na de seu pai e dos santos anjos”. (Lucas, IX: 26).

A coragem das opiniões próprias sempre foi tida em grande estima, porque há mérito em afrontar os perigos, as perseguições, as contradições e até os simples sarcasmos, aos quais se expõe aquele que não teme proclamar abertamente idéias que não são as de toda gente. Jesus condena a covardia e diz que aqueles que se houverem arreceado de se confessarem discípulos da verdade não são dignos de se verem admitidos no reino da verdade. Perderão as vantagens da fé que alimentem, porque se trata de uma fé egoísta que eles guardam para si, ocultando-a para que não lhes traga prejuízo neste mundo.

Jesus não disse que seria fácil, por isso é necessário que nos unamos para sermos menos medrosos.

“Chamando para perto de si o povo e os discípulos, disse-lhes: se alguém quiser vir nas minhas pegadas, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me; — porquanto, aquele que se quiser salvar a si mesmo, perder-se-á; e aquele que se perder por amor de mim e do evangelho se salvará. — com efeito, de que serviria a um homem ganhar o mundo todo e perder-se a si mesmo? (Marcos, VIII: 34; Lucas, IX: 23; Mateus, X: 38; João, XII: 25)

No Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos: “considerai-vos ditosos, quando haja homens que vos dêem ocasião de provar a sinceridade da vossa fé, porquanto o mal que vos façam redundará em proveito vosso. Lamentai-lhes a cegueira, porém, não os maldigais.”

“Tome a sua cruz aquele que me quiser seguir” pode ser interpretado como: “suporte as tribulações que sua fé lhe acarretar.

O universitário espírita deve estar consciente de que a Ciência indaga, a Filosofia conclui e o Evangelho ilumina, mas também que fora da divulgação não haverá rápida iluminação. O período das construções de edifícios já está deixando entrar o da divulgação. E, aí, é necessário possuir um Guia e uma Base Fundamental.

Referencias Bibliográficas

1. Emmanuel, André Luiz. Divulgação Espírita. In: Opinião Espírita. Edição Comunhão Espírita Cristã, Uberaba. MG. Segunda edição. Pág. 160-163, 1966.

2. Kardec, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XXIV.

Obs: Palestra proferida na União Espírita Fernandes Figueira e Bezerra de Menezes, fundada em 1888, no Rio de Janeiro, quando da comemoração de seus cento e onze anos de atividade (1999).