Allan Kardec – 200 anos!*

Orson Peter Carrara

Efeméride resgata sua notável identidade

Como é do conhecimento geral, foi no dia 3 de outubro de 1804, em Lyon, na França, que renascia para o mundo carnal o valoroso espírito que mais tarde adotaria o pseudônimo de Allan Kardec, para apresentar ao mundo a magistral obra da Codificação Espírita.

A data é sugestiva, especialmente neste ano de 2004, quando a história humana alcança a marca do bicentenário de seu nascimento. O movimento espírita mundial rejubila-se com a efeméride, inclusive sediando em Paris o 4o Congresso Espírita Mundial.

Seu nome civil é Hippolyte Leon Denizard Rivail, filho de uma família que se distinguiu na magistratura, carreira pela qual não se interessou, sentindo-se atraído, desde a primeira infância, para o estudo das Ciências e da Filosofia.

Educado na Escola de Pestalozzi, em Yverdum, na Suíça, tornou-se um dos discípulos mais eminentes do célebre professor e igualmente um dos zelosos propagadores do seu sistema de educação, o que exerceu uma grande influência sobre a reforma dos estudos na Alemanha e na França.

Dotado de inteligência notável e atraído para o ensino pelo seu caráter e as suas aptidões especiais, desde a idade de quatorze anos ensinava o que sabia àqueles de seus condiscípulos que tinha adquirido menos do que ele. Nasceu em religião católica, mas estudante em um país protestante, os atos de intolerância que ele teve que sofrer lhe fizeram, em boa hora, conceber a idéia de uma reforma religiosa com pensamento de chegar à unificação das crenças mas lhe faltava o elemento indispensável para a solução do grande desafio.

Poliglota (dominava diversos idiomas), traduziu diversas obras de educação e moral e era membro de várias sociedades sábias, entre outras da Academie Royale d’Arras, que, em seu concurso de 1831, o premiou por uma dissertação notável com o seguinte tema: Qual é o sistema de estudos mais em harmonia com as necessidade da época?

Nos anos de 1835 a 1840 fundou, em sua própria casa, cursos gratuitos onde ensinava química, física, anatomia comparada, astronomia, etc, com o objetivo de auxiliar alunos que não tinham condições de custear os próprios estudos. Publicou diversas obras na área de educação, que inclusive foram adotadas pelo governo francês. Em 6 de fevereiro de 1832 casou-se com a professora e escritora Amélie Gabrielle Boudet e não tiveram filhos.

Por volta de 1855, desde que duvidou das manifestações dos espíritos, entregou-se a observações perseverantes sobre os fenômenos mediúnicos, empenhando-se principalmente em deduzir-lhes as conseqüências, neles deduzindo uma das forças da natureza, cujo conhecimento lançaria luz sobre uma multidão de problemas considerados insolúveis, e compreendeu-lhe a importância do ponto de vista religioso.

Comparando os ensinos trazidos pelos espíritos, observando os fenômenos e tudo submetendo à luz da razão e da lógica, mas também do bom senso, organizou todo conteúdo para apresentar à humanidade a obra O Livro dos Espíritos, lançado em Paris no dia 18 de abril de 1857, que deu origem às demais obras da Codificação Espírita que, por sua vez, ensejou o surgimento do movimento espírita que desde aqueles tempos move-se para estudar, divulgar e viver os princípios espíritas.

Allan Kardec foi portanto o organizador dos ensinos, daí o nome Codificação.

Além dos livros publicados, fundou em 1o de janeiro de 1858 a Revista Espírita, que ele transformou em seu laboratório de estudos e pesquisa, cujo rico material está à disposição para ser estudado pelos adeptos; fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas no mesmo ano; atendeu inumerável correspondência; efetuou viagens de divulgação espírita e foi um homem comprometido com as causas nobres da humanidade.

Sua desencarnação ocorreu a 31 de março de 1869 e morreu como viveu, trabalhando.

Da Revista Espírita, de maio de 1869, destacamos: “(...) O homem aqui não mais está, (...) mas Allan Kardec é imortal, e a sua lembrança, os seus trabalhos, o seu Espírito, estarão sempre com aqueles que tiveram, firme e altamente, a bandeira que ele sempre soube respeitar. Uma individualidade poderosa constituiu a obra, era o guia e a luz de todos. A obra, sobre a Terra, nos terá o lugar do indivíduo. Não se reunirá mais ao redor de Allan Kardec: reunir-se-á ao redor do Espiritismo, como o constituiu, e, pelos seus conselhos, sob a sua influência, avançaremos a passos certos para as fases felizes prometidas à Humanidade regenerada.”

Do discurso pronunciado pelo astrônomo Camille Flammarion sobre o túmulo de Kardec, transcrito na Revista Espírita de junho de 1869 e posteriormente republicado em Obras Póstumas, transcrevemos parcialmente aos leitores:

“(...) Agora retornastes a esse mundo de onde viemos, e recolhes os frutos dos teus estudos terrestres. (...) O corpo cai, a alma permanece e retorna ao espaço. Encontrar-nos-emos, nesse mundo melhor, e no céu imenso onde se exercerão as nossas faculdades, as mais poderosas, continuaremos os estudos que não tinham sobre a Terra senão um teatro muito estreito para contê-los.(...)”

E no próprio livro Obras Póstumas, que reúne vasto e valioso material deixado pelo Codificador, vamos encontrar, em sua segunda parte, anotações pessoais das lutas e conquistas de Kardec, impressões e dados que podemos considerar históricos, revelações e conclusões que trazem substancioso material para estudos atuais. E para não alongar a presente matéria, sugerimos a leitura e estudo do citado livro, mas destacamos alguns dos temas de caráter pessoal ali contidos:

Minha primeira iniciação ao Espiritismo; Meu Espírito Protetor; Minha missão; Primeiro anúncio de uma nova encarnação; Fundação da Sociedade Espírita de Paris, Futuro do Espiritismo; Meu sucessor; Regeneração da Humanidade, entre outros.

O fato é que a Codificação Espírita aí está, em muitos casos esperando para ser mais conhecida e apreciada. Tesouros de conhecimento estão contidos em suas obras, na Revista Espírita e mesmo nas obras consideradas complementares, como é o caso de Obras Póstumas.

Cremos que a melhor homenagem nesse bicentenário de nascimento do Codificador é estudar sua obra e a partir dos próximos anos estimular vivamente o movimento e a nós mesmos para estudar com afinco esses conhecimentos que nos farão melhores moralmente, aliás finalidade do Espiritismo, ideal que motivou Allan Kardec na codificação da Doutrina Espírita, quando percebeu que além dos fenômenos em si havia uma razão maior a movimentar aqueles acontecimentos: a melhora moral da humanidade na revelação superior pelos espíritos.

*Nota do autor: este trabalho baseou-se inteiramente, inclusive com transcrições parciais ou como fonte de inspiração na construção de frases e parágrafos, no livro Obras Póstumas, edição do IDE de Araras, com tradução de Salvador Gentile, diretamente da 7a edição de maio de 1999.