Milagre e demônio

Orson Peter Carrara

Antes de quaisquer considerações, conheçamos as definições dessas palavras. Milagre, segundo o dicionário, quer dizer fato que se atribui a causas sobrenaturais ou efeito cuja causa escapa à razão humana; demônio quer dizer, ainda segundo o dicionário, gênio do mal, anjo caído.

As duas palavras são vazias de sentido pois ambas definem, respectivamente, um acontecimento e um ser que não existem. É simples: basta observar atentamente as definições. Nada há de sobrenatural. Ao contrário tudo é natural, perfeitamente enquadrado em leis naturais estabelecidas pelo Criador. O que pode ocorrer é que temporariamente não podemos compreender determinados fatos. E também não escapam à razão humana, pois esta não está restrita ao acanhado cenário do mundo.

Mas, atualmente, com as pesquisas que avançam aquilo que era incompreendido passa a ser compreendido. Quem afirmaria (isto para usar um único exemplo), há mais de um século a possibilidade de comunicação, à distância com outra pessoa, através do usual aparelho que hoje denominamos telefone? Seria um milagre no passado. Hoje já integra o cotidiano da vida humana. Curas inexplicáveis, aparições surpreendentes, fenômenos que causam grande admiração já não são mais milagres. O conhecimento da verdadeira natureza humana - que transcende os limites da vida material - e da possibilidade real da comunicação entre os chamados vivos e os considerados mortos (e acrescente-se de sua permanente intervenção nos caminhos humanos), derruba qualquer tentativa de classificação desses fatos como sendo sobrenaturais ou milagrosos.

O mesmo se dá com a palavra demônio. Como conceber a expressão anjo caído ou gênio do mal, diante da bondade de Deus, manifesta em tantas belezas naturais e provas irrecusáveis da existência de um Pai extremamente amoroso? Como poderia ter Ele, o Criador de todas as coisas e de todos os seres, um concorrente? Ou também permitir a existência de um gênio do mal? E ainda como estar incapaz de enfrentar os poderes de tal gênio? E mais, como que leis soberanas e sábias permitiriam a decaída de um anjo?

Que ninguém tema nem se assuste. Diabo não existe! Essa idéia raia pelo absurdo. E milagre é apenas um fato ainda incompreendido. As más ações, a conduta reprovável, estas sim caracterizam um demônio interior no ser humano, requerendo corrigenda. E que milagre seja o esforço pela renovação de propósitos no bem. É o que ensina o Espiritismo.