Objetivos

Orson Peter Carrara

Diz o eminente Léon Denis em seu livro O Porquê da Vida (capítulo 6, páginas 61 a 76 da edição CELD): "(...) Sendo o objetivo da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condição, que meio melhor nos convém para realizar esse objetivo? O homem pode trabalhar para esse aperfeiçoamento em todas as condições, todos os meios sociais; entretanto, ele terá êxito mais facilmente em certas condições determinadas. A riqueza proporciona ao homem poderosos meios de estudo; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores de aliviar seus irmãos infelizes, de participar, tendo em vista o melhoramento de sua sorte, de fundações úteis. Mas são raros aqueles que consideram como um dever trabalhar pelo alívio da miséria, pela instrução e pelo melhoramento dos seus semelhantes. A riqueza muito freqüentemente resseca o coração humano; apaga essa chama interior, esse amor do progresso e dos melhoramentos sociais que reaquecem toda alma generosa; ela eleva uma barreira entre os poderosos e os humildes; faz viver num meio em que os deserdados desse mundo não atingem e onde, por conseguinte, as necessidades, os males destes são, quase sempre, ignorados, desconhecidos. A miséria também tem seus assustadores perigos: a degradação dos caracteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes, egoístas, a pobreza, aproximando-nos dos humildes, nos faz compartilhar de suas dores. É preciso ter sofrido em si mesmo para apreciar os sofrimentos de outrem. Enquanto os poderosos, no seio das honras, invejam-se entre si e procuram rivalizar em esplendor, os pequenos, reaproximados pela necessidade, vivem, às vezes, numa comovedora fraternidade. Vejam os pássaros dos nossos climas durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, e a terra está coberta com um branco manto de neve; aconchegados uns aos outros, à beira de um telhado, eles se aquecem, mutuamente, em silêncio. A necessidade os une. Porém, voltam os belos dias, o Sol resplandecente, a provisão de alimentos abundante, eles gritam cada um mais do que o outro, perseguem-se, batem-se, despedaçam-se. Assim é o homem. Doce, afetuoso para com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse dos bens materiais torna-o, muito freqüentemente, esquecido e rude. (...) Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor, saberá fazê-la servir para sua depuração, para o seu adiantamento. Enfrentará a prova com coragem, sabendo que ela é salutar, que ela é o choque que rasga nossas almas, e que, unicamente através desse despedaçamento, pode se extravasar o fel que está em nós (...)".

E podemos concluir com palavras do mesmo autor: "(...) Que fizeste de tua vida? (...)" Ideal que a resposta fosse: "(...) Lutei, sofri, amei, ensinei o bem, a verdade, a justiça; dei aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; aliviei os que sofrem, consolei os que choram (...)"

Eis uma bela reflexão para os difíceis dias do presente e sem dúvida, um verdadeiro roteiro para os anos que "voam" e em breves dias nos colocará frente a frente com a própria consciência.