Pedra no edifício

Orson Peter Carrara

Como estamos diante do magno edifício?

O êxito das ações do movimento espírita é como uma construção que vai tomando forma gradualmente. Inspirado pelo ideal, ele, o movimento espírita, sujeita-se às fragilidades humanas e move-se pelo entusiasmo e dedicação daqueles que lhe reconhecem o valor.

A Doutrina Espírita, com seus fundamentos e reflexões científica-filosófica-religiosa inspirou a movimentação dos adeptos, que se organizaram em instituições e promovem a divulgação das idéias espíritas, bem como iniciativas que estimulem a vivência e a exata compreensão dos princípios espíritas.

E cada integrante do citado movimento é como alguém (seja uma pessoa ou instituição que congrega outros tantos adeptos) que coloca sua pedra para construção do monumental edifício que representa a movimentação que visa fazer o Espiritismo conhecido, vivido e principalmente beneficiando com seu conteúdo incomparável os caminhos humanos, onde ainda imperam a angústia e proliferam as dificuldades.

Ora, mas cada integrante, numa linguagem simbólica, carrega uma pedra de peso e tamanho diferente. Pois isso depende das forças, da consciência doutrinária adquirida, da perseverança, da dedicação. Pedras que vão influenciar na harmonia e na consistência do edifício. As bases, os alicerces nos foram entregues pelo Codificador Allan Kardec. São inabaláveis. O edifício, representando o movimento, todavia, fica sujeito à ação dos adeptos.

Ora, considerando a importância da união de esforços para o fim maior que é viver e divulgar tais ensinamentos, vale recordar instrução transmitida pelo Espírito Fénelon e colocada por Allan Kardec em sua Revue, na edição de janeiro de 1865 (edição Edicel, tradução de Júlio Abreu Filho). Transcrevemos parcialmente:

“(...) Todo homem necessita de conselhos. Infeliz aquele que se julga bastante forte por suas próprias luzes, porque terá numerosas decepções. O Espiritismo está cheio de escolhos, mesmo nos grupos e, com mais forte razão, no isolamento. (...) É preciso provar pela união que todos os adeptos sérios trabalham de concerto na vinha do Senhor, que vai estender seus ramos sobre o mundo inteiro. Quanto mais reunirem os obreiros, mais depressa será formada a grande cadeia espírita e, também, mais depressa a família humana será inundada pelos eflúvios divinos da fé e da caridade, que regenerarão as almas sob o poder do Criador. Cada um de nós leva sua pedra ao edifício na medida de suas forças; mas se cada um quiser construir à sua vontade, sem levar em conta as instruções que temos dado e que formam a sua base; se não houver entendimento entre vós; se não tiverdes ligação, então fareis uma torre de Babel. (...) Espíritas, sede fortes de coragem, de perseverança e de firmeza, mas humildes de coração, segundo o preceito do Evangelho e Jesus vos conduzirá através das tormentas e abençoará os vossos trabalhos.(...)”

A expressão usada pelo espírito, ...se não houver entendimento entre vós..., representa bem um alerta para as dificuldades do movimento espírita. Para bem cumprirmos nossa função e contribuirmos com uma “pedra” consistente e útil ao edifício, é preciso antes de mais nada despir-se do considerar-se auto-suficiente, para evitar-se os prejuízos do isolamento que cria edifícios diferentes e distantes do alicerce principal...

Matéria publicada originariamente no jornal O Clarim, de agosto de 2004.