Reencarnação? Saiba mais!

Orson Peter Carrara

Tema é inesgotável nas obras básicas

Dentre os princípios do Espiritismo, a reencarnação talvez seja o tema mais empolgante. Rejeitada por aqueles que não se deram ao trabalho de entender o assunto e constantemente pesquisada por aqueles que lhe alcançam os fundamentos, a realidade da multiplicidade das existências corpóreas é a única que explica as gritantes diferenças humanas.

Existem obras notáveis abordando a questão, antes e depois da Codificação Espírita. Como nosso objetivo é destacar a obra fundamental do Espiritismo, O Livro dos Espíritos, neste mês em que se completa 147 anos de sua publicação (mês que também se comemora os 140 anos de lançamento de O Evangelho Segundo o Espiritismo), utilizaremos uma única questão da referida obra, dentre as várias que tratam das vidas sucessivas.

A questão é a de número 222 e está entre aquelas que não constituem uma pergunta aos Espíritos, mas considerações do próprio Codificador. São 11 páginas da lavra de Allan Kardec, naturalmente inspiradas pelos Espíritos Codificadores, mas também contendo os argumentos sólidos de sua inteligência e perspicaz senso de observação e análise.

No desenvolver do raciocínio, no texto, Allan Kardec apresenta as seguintes questões: “1) Por que mostra a alma aptidões tão diversas e independentes das idéias que a educação lhe fez adquirir?; 2) Donde vem a aptidão extranormal que muitas crianças em tenra idade revelam, para esta ou aquela arte, para esta ou aquela ciência, enquanto outras se conservam inferiores ou medíocres durante a vida toda?; 3) Donde, em uns, as idéias inatas ou intuitivas, que noutros não existem?; 4) Donde, em certas crianças, o intuito precoce que revelam para os vícios ou para as virtudes, os sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza, contrastando com o meio em que elas nasceram?; 5) Por que, abstraindo-se da educação, uns homens são mais adiantados do que outros? e 6) Por que há selvagens e homens civilizados? (...)” .

E ainda acrescenta: “1) Se a nossa existência atual é que, só ela, decidirá da nossa sorte vindoura, quais, na vida futura, as posições respectivas do selvagem e do homem civilizado?; 2) O homem que trabalhou toda a sua vida por melhorar-se, virá a ocupar a mesma categoria de outro que se conservou em grau inferior de adiantamento, não por culpa sua, mas porque não teve tempo, nem possibilidade de se tornar melhor?; 3) O que praticou o mal, por não ter podido instruir-se, será culpado de um estado de coisas cuja existência em nada dependeu dele?; 4) Trabalha-se continuamente por esclarecer, moralizar, civilizar os homens. Mas, em contraposição a um que fica esclarecido, milhões de outros morrem todos os dias antes que a luz lhes tenha chegado. Qual a sorte destes últimos? Serão tratados como réprobos? No caso contrário, que fizeram para ocupar categoria idêntica à dos outros? e 5) Que sorte aguarda os que morrem na infância, quando ainda não puderam fazer nem o bem, nem o mal? Se vão para o meio dos eleitos, por que esse favor, sem que coisa alguma hajam feito para merecê-lo? Em virtude de que privilégio eles se vêem isentos das tribulações da vida? (...)”.

São questões para pensar, raciocinar mesmo! Afinal elas levam à lógica e à coerência da multiplicidade das existências, único meio racional para explicar as diferenças humanas dentro de um critério incomparável de justiça e igualdade entre os filhos de Deus.

Na ocorrência do presente mês de abril, que a família espírita traz na lembrança com o mês de O Livro dos Espíritos (pelo seu lançamento em 18 de abril de 1857), e ainda coincidindo com o bicentenário de nascimento do Codificador – comemorado em 2004 –, nada mais oportuno que convidarmos a nós mesmos a novamente estudar a importante questão 222 da citada obra. Pelo menos para estarmos bem preparados com argumentos sólidos diante dos argumentos contrários à reencarnação. E também, é óbvio, estarmos sintonizados com a correta postura de espíritas que estudam continuamente.

Matéria publicada originariamente no jornal O Clarim, de abril de 2004.