Três direitos e um único dever

Orson Peter Carrara

Três são os direitos fundamentais naquele lugar e apenas um dever; a política ali imperante é bem diferente daquela que habitualmente vemos em nosso cotidiano. A economia local também prevê remuneração, estimula a produção, mas tem destinação que talvez cause estranheza. A lei está estabelecida em apenas dois parágrafos. As edificações estão sobre rochas indestrutíveis; o idioma em uso é bem característico. Exige-se, todavia, uma higiene permanente.

Que lugar é esse? Onde está? Existem chaves que o abrem? De que falamos? É simples, caro leitor. É que já estamos no Natal. E Natal, muito mais que presentes natalinos, lembra o personagem principal: Jesus Cristo! Sim, aquele mesmo que anunciou o Reino de Deus!

Ele, o reino anunciado, significa uma conquista interior, não é um lugar determinado. Há que ser construído no coração, como Ele mesmo afirmou; significa um estado interior de paz, harmonia, serenidade; uma construção a ser feita individualmente, através do tempo e das experiências, do raciocínio e do amor. Aquele que o proclamou comparou-o, entre outras afirmativas, com um tesouro escondido, com uma pérola, que, quem encontra, vende tudo o que tem, para estar de posse desse reino.

As chaves para ter acesso a ele estão no cumprimento das leis, que Ele mesmo apresentou. Para tanto, é preciso conhecê-las, aplicá-las e vivê-las intensamente dentro de si mesmo para abrir suas portas. E, usar uma túnica nupcial luminosa, bela, radiante (a dos bons pensamentos e dos bons sentimentos) para sentir-se perfeitamente integrado entre seus habitantes.

O idioma usado é o da sinceridade, da verdade; o salário é o do bem-estar, da alegria, da consciência tranqüila, lembrando que a cada um será dado segundo suas próprias obras. Neste local, espera-se que produzamos o bem, pois quem tem talentos, precisa fazer render outros tantos talentos. As riquezas das possibilidades desse reino são partilhadas com os demais, de todo o bem que sabem e podem distribuir.

As construções (da vida nesse lugar) são sobre as rochas das coisas permanentes, duradouras, e jamais sobre a ilusão das coisas transitórias e passageiras. A lei está em dois parágrafos: a) perdoar para ser perdoado; b) não resistir ao mal, mas retribuir ao mal com o bem.

Sua política recomenda que sejamos mansos como as pombas e prudentes como as serpentes, pois que a mansidão e a prudência evitam dificuldades de toda ordem. Há apenas um dever: fazer aos outros o que queremos que nos façam; três são os direitos fundamentais: Pedir (o que precisamos e sozinhos não sabemos ou não podemos produzir); Buscar (conhecimentos para entender o que esperamos possa nos beneficiar) e Bater (com as mãos do esforço próprio na porta das oportunidades).

Mas, como o título sugere, um item não pode escapar para entrada nesse lugar: a higiene!

Que higiene? O da limpeza dos olhos (para aprimorarmos o modo de ver as pessoas, as circunstâncias, os fatos); a limpeza das mãos (para melhorarmos o modo de agir no uso das mãos); a limpeza dos pés (para averiguarmos o rumo que se caminha) e limpeza do coração (para dignificar o modo de sentir). Correção e pureza no intelecto, no sentimento e na ação.

Em síntese, podemos dizer, pois, que a conquista desse reino no coração depende do esforço e determinação com que possamos nos dedicar à melhora de nós mesmos.

Na ocorrência do Natal, em gratidão ao Mestre e Maior Amigo da Humanidade, Jesus de Nazaré, comecemos também a edificar o reino dos céus dentro do coração, com a mudança de atitudes do homem velho (egoísta, vaidoso, dominador, orgulhoso) para o homem renovado, que usa o bem, o amor, a solidariedade em suas ações, contribuindo assim para que o reino anunciado por Jesus esteja em todos os corações. E possamos renovar a paisagem do planeta que habitamos.

Nota do autor: A presente matéria está baseada no livro Na luz do Evangelho, de Therezinha Oliveira.