A Controvérsia sobre a reencarnação

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Temos visto opiniões de várias pessoas, seguidoras de outros segmentos religiosos, combatendo a reencarnação, entretanto percebemos que lhes falta a lógica e a razão, agem mais por fanatismo religioso.

Vamos buscar a lógica da reencarnação.

Mas, primeiramente, devemos falar que para alguns nos ensinos de Jesus não encontramos nada a respeito, assim sendo não há como aceitar tal princípio. A isto temos duas respostas. A primeira, supondo-se que se realmente Jesus não tivesse dito nada a respeito devemos convir que isto seria um argumento fraco, pois o próprio Jesus disse: “Muitas coisas ainda tenho para dizer-vos mas não as podeis compreender agora” (João 16, 12), assim podemos afirmar, com a absoluta certeza, que mesmo que não ele tivesse dito nada sobre isto não quer dizer necessariamente que não exista, pois ele mesmo afirma não ter dito tudo que deveria dizer. Segundo, na realidade ele confirmou a reencarnação quando disse que João Batistas era o Elias que estava para vir: “ E se quiserdes aceitá-lo, ele é o Elias que há de vir. Quem tem ouvidos, ouça”. (Mateus 11, 14-15).

Não queremos que nossos argumentos tenham base somente no Evangelho, queremos, mais que tudo, demonstrar que a lógica nos obriga a aceitar a reencarnação.

Vemos que apesar destas pessoas se dizerem espiritualistas, na verdade dão ao corpo físico maior importância que ao espírito eterno que habita este corpo, agem, portanto como verdadeiros materialistas, pois é nele que esperam voltar um dia, quando da ressurreição dos mortos em que acreditam.

Devemos, também, deixar bem claro que nossos argumentos serão compreendidos somente por aqueles que acreditam, sem dúvida alguma, na imortalidade da alma, porque fora disto não há o que argumentar.

Segundo a crença destas pessoas a alma, ou espírito, é criado no momento da concepção, ou seja, somente a partir do início da formação embrionária do corpo físico é que Deus cria o espírito que irá habitar aquele novo corpo. Isto eqüivaleria dizer que Deus, na criação dos espíritos, estaria subordinado à vontade humana, pois os espíritos só poderiam ser criados quando um casal humano, numa relação sexual, iniciasse a formação embrionária de um novo ser. Não dá para aceitar tamanho disparate deste.

Mesmo não aceitando isto, vamos, para continuar nossa linha de raciocínio, admitir que seja da forma como pensam. Se assim for, teremos que admitir Deus totalmente parcial, que não age com igualdade ao criar os espíritos, porque a uns dá a inteligência, a outros a “burrice”, uns a sabedoria em determinadas áreas do conhecimento humano, a outros nada devem aprender tudo, uns um perfeito corpo físico, a outros um corpo deformado, uns a mais completa riqueza, a outros a miséria e pobreza, e assim por diante, fiquemos por aqui, pois a lista seria enorme, com isto tudo ainda teimam em afirmar ser Deus plenamente justo. Mas que justiça é essa em que um Pai dá tratamento diferenciado a seus filhos? Por outro lado, somente aceitamos esta inconcebível justiça divina quando tais coisas não acontece com os nossos próprios filhos, para os filhos dos outros é tudo normal, é tudo muito justo. O nosso egoísmo nos deixa cegos, não conseguimos compreender que tais coisas são absurdas vindo de um Deus, pois o mais miserável pai humano que tivesse em suas mãos o poder de dar a seus filhos tudo o que eles quisessem não os colocariam em situações tão opostas perante a vida.

Vejamos um outro ponto. Se nossos espíritos são criados juntamente com o corpo físico, como dizem, então não entendemos porque algumas crianças desde bem cedo já manifestam precocemente, em seu comportamento, tendências para a maldade. Será que foi Deus que as colocou nesta vida com este caráter de maus? É possível isso? Ficaria dificílimo a salvação destas crianças, não? Por que vemos certas crianças sem a mínima afinidade para com o pai ou a mãe ou até mesmo para com os dois? Será também isto obra de Deus? Mas que Deus é este que já desde cedo coloca no coraçãozinho de uma criança um tremendo ódio pelos próprios pais? Porque os filhos se tornam tão diferente uns dos outros, se tem a mesma educação, supondo-se que nenhum conhecimento possuíam ao nascer, eram, vamos dizer, espíritos “zero km”? A não ser a esdrúxula explicação: é mistério de Deus, e os mistérios de Deus são insondáveis. É uma explicação que não explica nada a não ser continuar deixando Deus em atitudes de desigualdade e injustiça perante suas criaturas.

Temos, ainda, que o lugar onde nascemos é Deus quem nos coloca, não é mesmo? Assim por que faz alguém nascer num lugar onde todo o meio contribui para que ele se torne um mau elemento, seria também isto justo?

Para completar estas pessoas dizem que ao morrermos iremos para o céu ou para o inferno, ambos para toda a eternidade. Que para merecermos o céu basta nos arrependermos de nossos pecados ou aceitar Jesus como salvador. Mais uma vez não conseguem se aperceberem do absurdo disso.

Suponhamos uma pessoa passe toda a vida no crime, e um pouco antes de morrer se arrepende de tudo, aí segundo pensam, vai para o céu. Onde estaria a justiça divina se isto acontecesse? De que adiantaria passarmos todos os dias da nossa vida cultivando as virtudes se o nosso “prêmio” é o mesmo de quem não agiu desta maneira, que aberração de justiça é esta? Este mesmo raciocínio serve para os que aceitam a Jesus como salvador, se não se tornam dignos de serem chamados de seus verdadeiros discípulos, não há como receber recompensa sem que tenha feito algo para merecê-la.

Gostaria também de saber se é justo recebermos uma pena eterna pelos erros cometidos por uma passagem rápida pela vida. Se vivêssemos uns 100 anos e neles só cometêssemos erros, é perfeitamente aceitável como justo 100 anos de “inferno” não mais que isto. Mas ainda, admitem Deus, que dizem ser a suprema justiça, nos dando castigo bem maior que os nossos erros. Vejam que o tratamento do ser humano para com um criminoso é mais justo que o de Deus, pois coloca-o na prisão por um tempo em que ele possa pagar sua pena e ainda voltar a conviver em sociedade, chegando ao ponto de reduzir sua pena se ele tiver um bom comportamento dentro do estabelecimento penal.

Por tudo isto vemos que não haveria justiça Divina se as coisas funcionassem desta maneira, entretanto coloque aí a reencarnação e tudo se encaixa, passaremos a ver as coisas de outro ângulo, e somente aí é que poderemos encontrar Deus agindo na mais perfeita justiça.

As características do nosso caráter, que temos muitas vezes desde criança, é apenas um reflexo de experiências, pelas quais passamos na escala evolutiva, adquiridas em nossas vidas anteriores, assim como os conhecimentos e toda e qualquer tendência que possamos ter. Outras situações como corpo deformado e riqueza, por exemplo, seriam oportunidades de aprendizado para o nosso espírito que em vidas passadas violou as leis divinas, que agora na “prisão” de um novo corpo físico busca aprender, reparar e depurar-se para depois ser libertado e conquistar as alturas celestiais. Devemos compreender, finalmente, que sendo o nosso espírito eterno ele é mais importante que o nosso corpo físico, assim é a ele que devemos valorizar, buscando incansavelmente seu aprimoramento, sua evolução moral e espiritual, para que um dia estejamos junto ao Pai Celestial.

Dentro deste conceito todos nós, independentemente de querermos ou não, seremos, vamos dizer, arrastados pelo amor de Deus para junto Dele, passando pela necessária evolução individual a que todos nós estamos sujeitos. Todos recebem igualmente e na mesma medida as oportunidades de aprendizado e evolução, ninguém é excluído. Nós os humanos não já estamos chegando perto disto quando colocamos, neste ano, como tema da Campanha da Fraternidade: “Novo milênio sem exclusão”.

Abr/2000.

Bibliografia: