Chico Xavier psicografou livros de verdade?

Paulo da Silva Neto Sobrinho

A maior ignorância é a que não sabe e crê saber, pois dá origem
a todos os erros que cometemos com nossa inteligência.
(SÓCRATES).

Tão surpreendente quanto a naturalidade das pessoas em emitirem juízo
sobre algo que pouco sabem, é seu desinteresse em melhor informarem-se.
(LOEFFLER).

Basta um único corvo branco para provar que nem todos são negros.
(LOEFLLER).

Introdução

Nessa era da informática em que atualmente vivemos, com os computadores se proliferando por todos os lados unindo as pessoas, trouxe, via de conseqüência, entre os internautas inúmeros debates sob os mais variados assuntos. Assim, podemos constatar uma enorme quantidade de sites onde existem os Fóruns, local desses debates. Embora louvável a idéia, estranhamos ver que alguns desses Fóruns estão na verdade servindo para que determinadas pessoas tenham a oportunidade de ficarem atirando pedra em telhado de vizinho.

Muitos participantes estão mais preocupados em fazer os outros verem as coisas sob sua ótica que realmente fazer um debate sério, onde deveria, primordialmente, prevalecer a cortesia e o respeito ao pensamento alheio. Têm aparecido muitos donos da verdade, que querem que os outros pensem exatamente como eles, ficam até irritados quando não conseguem isso, descambam para as agressões, ocorrência comum aos que não possuem argumentos convincentes. É um paradoxo, não oferecem base lógica e racional em apoio a seu ponto de vista, mas mesmo assim acham que os outros devem aceitar.

Por outro lado, nesses Fóruns, indivíduos têm se apresentado sem o mínimo conhecimento daquilo que se propõem a debater, demonstrando categoricamente não terem as imprescindíveis condições para o debate, já que não conhecem o mínimo do assunto em foco.

Estão eles, nos casos de assuntos religiosos, se tornando porta aberta aos fanáticos, estes cegos que não suportam que as pessoas pensem diferente deles, daí ficam a vociferar contra a opção religiosa das outras pessoas, o que a nosso ver, é um desrespeito ao direito sagrado de cada indivíduo em seguir o que achar melhor para si. Direito esse tão importante que está consagrado na Constituição Brasileira. "Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles (Mt 7, 12) disse-nos Jesus, numa clara alusão a que o direito de cada um vai até onde começa o do outro.

Vejamos, então, o que foi colocado num desses Fóruns, na Internet.

A questão proposta

Postaram o seguinte:

Autor: Thiago em 01/08/2003, 14:29:25 (e-mail não disponível)

Se os espíritos de luz podem psicografar livros, como Allan Kardec psicografou um monte, pq os Espíritos de luz como a Virgem Maria, os Apóstolos, o próprio Jesus nunca psicografou um livro por que? Onde está na Bíblia algo sobre livros psicografados?

Primeiramente identificamos nessa fala que o autor realmente nada conhece de Espiritismo, pois se conhecesse saberia que Kardec não psicografou sequer um só livro. Os livros que publicou além de respostas dadas pelos Espíritos por meio de vários médiuns, provenientes de vários lugares, contêm também sua opinião pessoal, fruto da observação e da experimentação. Kardec sempre separou o que provinha dele próprio daquilo que veio por via mediúnica através dos médiuns que utilizou para obter as respostas aos seus questionamentos. Como pedagogo, discípulo de Pestalozzi, imprimiu nessa obra seu caráter de professor e homem de ciência que era.

A pergunta “pq os Espíritos de luz como a Virgem Maria, os Apóstolos, o próprio Jesus nunca psicografou um livro por que?”, devemos esclarecer, se entendemos bem o questionamento, que, em verdade, os Espíritos não psicografam, eles transmitem seu pensamento ao médium, esse sim é quem psicografa. Mas é bom que se diga, que a mediunidade não se restringe apenas ao fenômeno da psicografia, assim, podemos afirmar, com base na Bíblia, que os fenômenos mediúnicos estão lá para quem tiver olhos de ver. O que não acontece com os fanáticos, é claro.

Se entre os que se encontram vivos existe a telepatia, por que não poderia haver entre os espíritos e nós? Ou será que após a nossa morte deixamos de pensar? Mas não foi Jesus quem afirmou ser o Pai Deus de vivos(Mt 22,32). Se assim for, teremos que conservar a nossa individualidade como ser pensante após passarmos para o outro lado.

Aos estudiosos da Bíblia é fácil citar o episódio em que o rei Saul vai a Endor e pede a uma pitonisa para evocar o Espírito Samuel, que aparece e lhe diz de sua eminente derrota frente aos filisteus, inclusive que nessa batalha o rei e seus filhos pereceriam, o que de fato ocorreu (1 Sm 28). E aos que possam argumentar que foi o demônio que se manifestou, pedimos que nos provem isso. Entretanto, na própria Bíblia encontramos a confirmação do fato, é só ler em Eclesiástico a afirmativa que Samuel mesmo depois de morto profetizou (46, 20), abstraindo-se de que na narrativa anterior isso já está confirmado.

E talvez a passagem mais importante, normalmente nunca mencionada pelos fanáticos, é aquela sobre a transfiguração de Jesus no monte Tabor, onde na companhia de Pedro, Tiago e João, conversa com os Espíritos Moisés e Elias (Mt 17, 1-9). E como em certa oportunidade Jesus disse que poderíamos fazer o que ele fez e até mais, então de que lado reside a incoerência?

Poderemos também, para confirmar a comunicação com os espíritos, afirmar o fato que sempre alegam de que Deus proibiu a evocação dos mortos, daí podemos concluir que existe a possibilidade, caso contrário, estaremos afirmando que Deus está proibindo algo que não pode acontecer, um absurdo não é mesmo?

Agora se a Virgem Maria, os Apóstolos e Jesus não querem utilizar um médium para se comunicarem conosco através da psicografia, com certeza devem ter lá os seus motivos. O primeiro deles acreditamos seria que não lhes dariam créditos. Uns falariam que os mortos não se comunicam, outros que só pode ser obra de satanás, enfim, fora os espíritas, quase ninguém mais acreditaria. Mas se não houvesse preconceito e nem fanatismo, os que têm olhos de ver veriam que isso já ocorreu, é só estudar os livros da codificação Espírita, que se encontrarão mensagens assinadas por algum deles.

A pergunta seguinte: “Onde está na Bíblia algo sobre livros psicografados?” é típica de fanático religioso que pensa que o que não está na Bíblia não existe. Se seguirmos essa mesma linha de raciocínio, podemos dizer que a clonagem não existe, que uma sonda espacial não pousou em Marte, que a Internet é ilusão demoníaca, que só doido acredita que uma pessoa possa falar com outra a milhares de quilômetros de distância, etc e muitos etc mais.

Apesar disso, podemos dizer que existe sim. Na Bíblia podemos citar livro psicografado, entretanto só o perceberá quem tiver conhecimento suficiente dos fenômenos mediúnicos para poder identificá-lo. Como nem todos podem fazer isso, permitimo-nos apresentá-lo. Trata-se do livro Apocalipse, escrito por João. Reportemos a LOEFFLER: “Basta um único corvo branco para provar que nem todos são negros”. Leiamos:

“Eu, João, irmão e companheiro de vocês neste tempo de tribulação, na realeza e na perseverança em Jesus, eu estava exilado na ilha de Patmos, por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus. No dia do Senhor, o Espírito tomou conta de mim. E atrás de mim ouvi uma voz forte como trombeta, que dizia: ‘Escreva num livro tudo o que você está vendo. Depois mande para as sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia’” (Ap 1, 9-11).

Mais à frente, vamos encontrar João afirmando: Depois de escrever as cartas às igrejas, eu, João, tive uma visão. ...” (Ap 4.1).

Perguntamos como uma pessoa simples e sem instrução, como está dito de João (At 4,13), pode escrever alguma coisa? Obra do Espírito Santo? Ótimo: incontestavelmente um fenômeno mediúnico, seja lá ele quem for. Mas a narrativa bíblica nos fala que foi o próprio Jesus, obviamente em espírito, quem estava fazendo as revelações a João.

“O Espírito tomou conta de mim”, em outras palavras o Espírito sintonizou ou, como se diz popularmente, incorporou em mim. “Escreva num livro”, quer dizer psicografa um livro.

Entretanto, alguém poderá dizer: mas na minha Bíblia não está dessa maneira. É um fato. Só que achamos muito curioso que “a palavra” de Deus tenha versões diferentes, já que as Bíblias apresentam narrativas divergentes para o versículo 10. S. Jerônimo, o autor da Vulgata declarou: “A verdade não pode existir em coisas que divergem”, deixando-nos numa situação difícil para sabermos onde está de fato a narrativa verdadeira. Assim, é que poderemos encontrar “fui arrebatado em espírito”, “fui arrebatado em êxtase”, “fui levado em espírito e “fui movido pelo Espírito”. Essa última levando ao leitor acreditar que talvez esse Espírito seja o Espírito Santo, em que acreditam. As outras narrativas diz-nos da realidade do afastamento do espírito de João, com a conseqüente posse de seu corpo pelo Espírito revelador, Jesus. Daí ser fácil entender porque João mesmo sendo iletrado escreveu, já que essa ocorrência mediúnica se caracteriza como uma mediunidade mecânica, onde o espírito do médium é afastado do corpo, para que o espírito comunicante o utilize para dar a sua mensagem. Nesse tipo de mediunidade o médium produz até mesmo coisas além de seu conhecimento atual, entretanto não guarda lembrança dos fatos ocorridos nesse período, pois não ficam gravados em sua memória física.

Chico Xavier psicografou?

Aos que não sabem o mineiro do século, Chico Xavier, cursou apenas até o antigo quarto ano primário, e numa análise do conteúdo do que produziu, por sua mediunidade, podemos encontrar conhecimento muito além de sua cultura escolar. Conseguiu, em sua primeira obra mediúnica, Parnaso do Além Túmulo, psicografar 256 poesias de 56 autores. Poesias essas perfeitamente identificáveis com o estilo que conhecemos dos poetas autores da mensagem. Talvez quem sabe um gênio conseguiria fazer isso, o que não era o caso de Chico.

Um perito em grafoscopia, Carlos Augusto Perandréa, após analisar uma mensagem recebida em italiano, língua que Chico não conhecia, em comparação com escritos dessa pessoa quando viva, atesta: “A mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier, em 22 de julho de 1978, atribuída a Ilda Mascaro Saullo, contém, conforme demonstração fotográfica (figs. 13 a 18), em ‘numero’ e em ‘qualidade’, consideráveis e irrefutáveis características de gênese gráfica suficientes para a revelação e identificação de Ilda Mascaro Saullo como autora da mensagem questionada” (pág. 56).

É bom que se diga que após “700 laudos técnicos, sem uma única contestação em 25 anos de atuação, proporcionam ao professor Perandréa, conhecimento, capacidade e alta credibilidade para estudar imparcialmente e cientificamente a psicografia” (Appoloni, C. R).

Um trecho interessante narrado no livro Nosso Amigo Chico Xavier:

“O outro caso de xenoglossia ocorreu após visitar, em companhia do Dr. Rômulo Dantas, a fazenda de propriedade do Dr. Louis Ensch, engenheiro luxemburguês, fundador da Usina de Monlevade da Companhia Belgo-Mineira, em Monlevade (MG). Após o regresso, numa das suas preces, recebe uma mensagem em luxemburguês, endereçada ao engenheiro, que ao lê-la foi tomado de grande surpresa e admiração: estava escrita em sua língua nacional, com tamanha perfeição, que somente os intelectuais de sua pátria estariam aptos a compreendê-la.”

“Se faz necessário notar que pouquíssimas pessoas em nosso país falam o luxemburguês. Seria necessário catá-las a dedo, pois esta língua é falada em um país europeu que possui uma população total de 340.000 habitantes, o equivalente à de nossa cidade litorânea, Santos”.

Nesse mesmo livro é citado um caso em que Chico psicografou em inglês ao inverso, fato pouco comum e inusitado para quem não fala esse idioma.

São os fatos que apontam para a veracidade da psicografia de Chico Xavier, cuja obra perfazem para mais de 400 livros, inclusive alguns foram publicados em vários idiomas. Se não são obras dos Espíritos deveríamos então ter colocado o Chico para ocupar um lugar na Academia Brasileira de Letras.

Conclusão

O que percebemos claramente é que por detrás de tudo isso o que está se questionando realmente é a possibilidade da comunicação entre vivos e mortos. Conforme já o dissemos Deus é Deus dos vivos”, assim por que não poderia haver a comunicação entre os dois planos da vida? Só porque alguns teólogos acham que não? Mas e as pesquisas sobre o assunto não valem nada?

Poderíamos citar as pesquisas de Sr. Willian Crookes e inúmeros outros sábios, entretanto poderão apresentar objeções relativamente à época de quando foram feitas e outras mais. Mas não iremos tão longe. Buscaremos, para acrescentar ao que já dissemos, o testemunho de um padre católico. Exatamente, por ser um padre é que sua opinião é importante, pois sabemos que embora possa não ser a posição oficial da Igreja Católica, quase todos os padres dizem que a comunicação com os “mortos” não é possível. O que achamos muito estranho, pois não conhecemos nenhum santo vivo, mas apesar disso os católicos ficam a evocá-los, pedindo-os para resolver seus problemas do dia-a-dia. Apelam aos santos para intercederem por eles junto a Deus, como nós muitas vezes buscamos a ajuda de uma pessoa para obter favor de uma outra mais influente.

Diz-nos o Pe. François Brune, pesquisador católico da Transcomunicação Instrumental - comunicação com os espíritos por meio eletrônico:

“Interrogarsobre as origens, no pensamentoocidental, desta recenteideologia do nada, não é o meupropósito. O maisescandaloso é o silêncio, o desdém, atémesmo a censura exercida pelaCiência e pelaIgreja, a respeito da descobertaincontestemaisextraordinária de nossotempo: o apósvida existe e nós podemos noscomunicarcomaquelesque chamamos de mortos”.

“Escrevi estelivroparatentarderrubaresseespessomuro de silêncio, de incompreensão, de ostracismo, erigido pelamaiorparte dos meiosintelectuais do ocidente. Paraeles, dissertarsobre a eternidade é tolerável; dizerque se pode vivê-la torna-se maisdiscutível; afirmarque se pode entraremcomunicaçãocomela é considerado insuportável”.

“O padre e teólogoque sou quis, como se diz, certificar-se completamente da verdade. Porquetodosessestestemunhos deveriam ser, a priori, considerados suspeitos? Quando o conteúdo das mensagens e das comunicações gravadas reúne, comoeu demonstro, os maiorestextos místicos de diversas tradições, existe nisso maisque uma simplescoincidência. Eu acompanhei, pois, e estudei apaixonadamente os resultados das pesquisasmaisrecentes nesse campo. As conclusões deste trabalho ultrapassaram minhasprevisões: nãosomente a credibilidadecientífica das experiências de comunicaçãocom os mortos encontra-se confirmada e não pode maisserpostaemdúvida, mas a prodigiosariqueza dessa literatura do além reanimou emmim o queséculos de intelectualismoteológico haviam extinguido”.

“Vox ‘patris’ Vox Dei”. E ponto final.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Autor do livro: A Bíblia à Moda da Casa.

Fev/2004.

Referências bibliográficas: