Depois da morte seremos os mesmos?

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Estamos sempre assistindo nos noticiários uma ou outra rebelião nos presídios públicos. Alguns inclusive, considerados de segurança máxima, pois abrigam os que classificamos de “alta periculosidade”. Neles se encontram os indivíduos para os quais a vida, a propriedade e outros bens do próximo podem ser retirados sem o menor constrangimento, destaque para a vida humana, que para eles nada representa, pois por coisas insignificantes, matam uma pessoa.

Infelizmente, atualmente as condições de vida nos presídios estão muito abaixo da linha de dignidade humana, pois a sociedade só parece se preocupar em retirar o criminoso de “circulação”, colocando-o em reclusão, ao invés de reeducá-lo, como seria de se esperar. Certamente que poderíamos chamar tais lugares de verdadeiros infernos.

Explodindo-se uma rebelião em um estabelecimento penal qualquer, para lá se dirigem rapidamente as mães, os pais, os cônjuges, os filhos de vários detentos. Ficam, do lado de fora, angustiados, pois sempre temem pela vida da pessoa a quem dedicam seu afeto, não lhes importando a sua condição de ser um criminoso. Demonstram, assim, um sublime sentimento de amor ao parente caído na criminalidade. Só vêem neles um pai, um cônjuge, um filho, enquanto nós outros os vemos como criminosos.

Esse é o quadro que, normalmente, assistimos, e sobre o qual queremos fazer uma reflexão.

Tomaremos primeiro o pensamento de São Tomás de Aquino que, se referindo ao inferno, imaginado pelos cristãos, diz: “Os bem-aventurados, sem saírem do lugar que ocupam, dele sairão, entretanto, de uma certa maneira, em razão de seu dom de inteligência e de visão distinta, a fim de considerarem as torturas dos condenados, e, vendo-os, não somente não sentirão nenhuma dor, mas serão cobertos de alegria, e renderão graças a Deus por sua própria felicidade, assistindo à inefável calamidade dos ímpios1”.

Veja bem. Após a morte, não sentiremos “nenhuma dor” pela desgraça dos ímpios, só que entre eles nós podemos encontrar os nossos pais, nossos cônjuges, nossos filhos, enfim, aqueles mesmos pelos quais, numa rebelião aqui na Terra, ficaríamos diante dos presídios e chorando de angustia por temer pela sua integridade física.

E mais absurdo, ainda, é dizer que, quando formos para o reino dos bem-aventurados, nós ficaremos “cobertos de alegria” com o sofrimento de nossos entes queridos. Será que os nossos sentimentos em relação aos nossos parentes mudam depois que morremos?

E, se diante disso, “rendermos graças a Deus” por nossa própria felicidade, só poderá comprovar que somos os mais vis dos egoístas, já que a nossa preocupação é que somente nós sejamos felizes, não nos importando mais com as pessoas, a que durante a vida inteira dedicamos o nosso amor, muitas das quais juramos amor eterno. Será que no reino dos bem-aventurados nos tornaremos egoístas, mesmo que, quando vivos aqui na Terra, não o fossemos? Isso, com absoluta certeza, é contrário ao “amar ao próximo como a si mesmo”.

Por outro lado, se nós pensarmos assim, como afirma São Tomás de Aquino, estaremos admitindo que um ser humano - quando vivo, pois quando morre, segundo dizem, muda -, tenha mais amor a seus filhos que Deus aos seus!

Pense nisso!

Fev/2002.


1 “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina) Segundo o Espiritismo”, Allan Kardec, Araras, SP, IDE, 4ª edição, 1993.