Diante da Morte

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Numa pequena e pacata cidade do interior, vivia Maria Antônia com seu marido José Eduardo, recém casados, na maior felicidade do mundo. Até parecia que só existia o casal.

Moravam em uma casa modesta, mas confortável, adquirida com as economias que o previdente casal amoedara antes do casamento. Tinha uma vista panorâmica da cidade. Era toda arejada, pois lá ventava muito. Não tinha ninguém que não gostasse da casa e da sua localização.

Passados alguns anos começaram a pensar na possibilidade de terem seu primeiro bebê. E diante da estabilidade financeira que tinham, resolveram então tomar “as providências necessárias” para que o primeiro herdeiro do casal chegasse.

A gravidez de Maria Antônia correu sem maiores problemas. Como ia sempre ao médico ficava tranqüila quanto à saúde do bebê. Lembrava-se ainda do primeiro ultra-som realizado, e sentiu-se imensamente feliz por estar participando da formação de uma nova vida. Aquele minúsculo pontinho ali viria a ser um dia um homem, pois sua intuição já lhe falava que a criança seria do sexo masculino.

No dia marcado para o parto, foi acompanhada de José Eduardo, para o único Hospital da cidade, onde seu médico se encontrava de plantão. Nasceu a criança forte e muito bonita. Não havia quem não se encantasse com ela.

Voltaram para casa, onde já estava tudo preparado para receber o novo hóspede; berço, fraldas, cobertores, comprados com muito carinho. Enfim tudo necessário para a criança havia.

No primeiro aniversário foi realizada uma festinha para José Maria, seu nome de batismo, onde foram convidadas quase todas as crianças da pequena cidade.

A mãe acompanhava na mais completa felicidade o crescimento e o desenvolvimento do garoto. Sua ida para o jardim da infância, ainda guardava na memória. A felicidade estampada no rostinho de José Maria, quando ao entrar na escolinha deparou com muitas crianças de sua idade.

Mas certo dia José Maria passou muito mal e foi levado às pressas para o Hospital. O médico ainda não tinha nem diagnosticado a causa da doença repentina do garoto, quando ele partiu para o outro lado da vida.

Foi como se o mundo desabasse sobre a cabeça de Maria Antônia. Completamente desesperada e em prantos gritava a pleno pulmões: Por que meu Deus? Não é justo, levar assim meu filho ainda na flor da idade. Revoltada, a amorosa mãe, não conseguia entender o porquê da morte precoce de seu amado filho. Nunca mais foi a mesma pessoa. Desiludida, não mais freqüentou a Igreja que fazia parte.

Situação como essa é muito comum vermos em nosso dia-a-dia, pois infelizmente as religiões tradicionais não nos preparam para a morte, umas até dizem que ela é um castigo de Deus. Se aceitarmos que somos, em verdade, espírito eterno, a morte deveria ser para nós um fenômeno natural. Até mesmo porque faz parte das leis da natureza, pois tudo à nossa volta nasce, cresce e morre. Nem o nosso planeta escapará desta lei.

Na atitude de Maria Antônia merece destaque o fato dela não achar justo Deus ter levado o seu filho. Com o que normalmente a maioria de nós concorda. Mas perguntaríamos: o que ela achava quando Deus levava os filhos das outras mães? Diremos que aceitava como justo, pois é desta forma que muitos de nós pensamos. Entretanto este fato demonstra ser apenas um forte egoísmo de nossa parte, pois só quando isso acontece com os outros é que nós achamos normal.

Devemos, pois, repensar a nossa maneira de encarar a morte. Ela não é o fim de tudo, mas apenas o começo (ou recomeço) de uma nova vida. Assim como uma lagarta que deixa seu pesado corpo para voar às alturas, agora como uma borboleta, nós também deixaremos o nosso corpo físico para recebermos de Deus o nosso corpo espiritual, retornando à nossa condição de espírito eterno. Certamente um dia todos nós encontraremos os nossos familiares que partiram na nossa frente para a pátria espiritual. Se uma semente não morrer nunca se transformará numa frondosa árvore. Assim a morte nada mais é que uma transformação. Pense nisso.

Mai/2001.