E aconteceu no Sinai

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Na própria essência de nosso esforço de compreensão está o fato, de, por um lado, tentar englobar a grande e complexa variedade das experiências humanas, e de, por outro lado, procurar a simplicidade e a economia nas hipóteses básicas.
(ALBERT EINSTEIN)

Há tempos que estamos pensando em fazer um estudo específico sobre os acontecimentos no Monte Sinai, mas acabávamos sendo envolvidos por outros assuntos, por isso, esse foi sendo postergado. Entretanto, essa idéia ainda nos persegue. Vejamos, então, o que poderemos fazer.

Primeiramente, devemos dizer porque tal idéia surgiu. Como sempre estamos lendo textos da Bíblia, em certa oportunidade deparamos com um que afirmava que as “Leis do Sinai” haviam sido promulgadas pelos anjos. Isso nos despertou a curiosidade, pois, até então, sabíamos que Deus pessoalmente teria passado essas leis a Moisés.

Mas, antes de entrar no assunto, vejamos o seguinte relato a respeito dos fenômenos ocorridos naquela ocasião:

“Três dias depois, pela manhã, houve trovões e relâmpagos e uma nuvem espessa desceu sobre a montanha, enquanto o toque da trombeta soava fortemente. O povo que estava no acampamento começou a tremer. Então Moisés tirou o povo do acampamento para receber Deus. E eles se colocaram ao pé da montanha. Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé tinha descido sobre ela no fogo; a fumaça subia, como fumaça de fornalha. E a montanha toda estremecia. O som da trombeta aumentava cada vez mais, enquanto Moisés falava e Deus lhe respondia com o trovão. Javé desceu no topo da montanha do Sinai e chamou Moisés lá para o alto”. (Ex 19,16-20).

Chamamos sua atenção, caro leitor, para “trovões, relâmpagos, nuvem espessa, o Sinai fumegava, o fogo, a montanha toda estremecia” coisas que, presumimos, estariam bem próximas de uma ocorrência natural, tipo vulcânica. Essa região, que faz parte da placa tectônica Africana, fica bem próxima dos limites das placas da Grécia e da Arábica, e, como sabemos, é no encontro dessas placas que ocorrem as manifestações vulcânicas. Se nessa região esses fenômenos não acontecem nos dias de hoje, poderia muito bem ter acontecido naquela ocasião uma vez que a mesma possui as condições geológicas para tal e, por outro lado, a própria narrativa nos leva a acreditar nisso.

Destaquemos as seguintes passagens:

Nm 16,32: Logo que Moisés acabou de falar, o chão rachou debaixo dos pés, a terra abriu a boca e os engoliu com suas famílias, junto com os homens de Coré e todos os seus bens.

Nm 16,35: Saiu um fogo da parte de Javé e devorou os duzentos e cinqüenta homens.

Observar que fatos como “o chão rachou debaixo dos pés” e “um fogo devorou”, não estariam eles próximos de ocorrências naturais em regiões vulcânicas? Não é esse o caso daquela região? Esses dois acontecimentos se deram em Cades, local situado cerca de 230 km a nordeste do Monte Sinai, portanto dentro do que se poderia esperar para uma região deste tipo.

Podemos ainda, para corroborar essas ocorrências na região, apresentar fatos históricos narrados por hebreu Flávio Josefo. Esse historiador hebreu relata, em Antiguidades Judaicas (capítulo 7 do Décimo Quinto Livro), um abalo sísmico ocorrido a cerca de 380 km do Sinai, mais precisamente na cidade de Jerusalém, acontecido, segundo pudemos levantar, no ano 31 a.C (AGOLLO, 1994):

No sétimo ano do reinado de Herodes, que era o mesmo em que dera a batalha de Ácio, entre Augusto e Antônio, aconteceu na Judéia o maior terremoto de que jamais ali se soube; a maior parte do gado morreu e perto de dez mil homens ficaram esmagados sob as ruínas das casas.

Ressaltamos que sendo esse “o maior terremoto que jamais ali se soube” pode-se perfeitamente concluir: a) que terremotos eram fatos comuns àquela região; b)que entre vários outros, esse especificamente foi o maior.

Tendo em vista essa catástrofe, Herodes faz um discurso para levantar o ânimo dos soldados, apesar de que nada sofreram de mal nessa ocorrência. Vejamos a narrativa de Josefo, da qual transcrevemos o trecho:

Nossos males não foram, sem dúvida tão grandes como eles e outros os apregoam, pois esse terremoto não foi causado pela cólera de Deus, contra nós; mas por um daqueles acidentes que as causas naturais produzem. E mesmo que tivesse acontecido pela vontade de Deus, poderíamos nós duvidar de que sua cólera não se tenha satisfeito com esse castigo, pois de outro modo, Ele não o teria feito cessar, nem manifestado, como fez, com sinais evidentes, que Ele aprova a justa guerra que empreendemos?

E, como naquela época o nível de conhecimentos desses fenômenos da natureza eram completamente nulos, deviam ficar mesmo apavorados com essas ocorrências. Alguns deles julgavam ser a manifestação da ira de Deus, conforme podemos claramente ver pelo discurso de Herodes. Muitos desses fenômenos aconteciam no céu, local onde acreditavam ser a morada de Deus, assim pressupunham que tudo que vinha de lá era proveniente de Deus, como exemplo, citamos: “... enquanto Moisés falava e Deus lhe respondia com o trovão”, fica aí a comprovação da ignorância desses fenômenos, que são de ordem natural, mas naquele tempo eram considerados como sobrenaturais, representavam, para eles, o estado de humor de Deus.

Na seqüência da narrativa, que estamos analisando, é que Moisés recebe em duas tábuas os Dez Mandamentos: “Quando Javé terminou de falar com Moisés no monte Sinai, entregou-lhe as duas tábuas da aliança; eram tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus”. (Ex 31, 18).

Até aqui as coisas não estavam tão complicadas, a não ser pelos fenômenos ocorridos no monte Sinai, em tudo acreditávamos sem qualquer conflito. Entretanto, inesperadamente, as coisas “estremeceram”, depois de lermos no livro Atos dos Apóstolos: “Foi ele [Moisés], na assembléia do deserto, quem serviu de intermediário entre o anjo que lhe falava no monte Sinai e os nossos pais. Ele recebeu as palavras de vida, para transmiti-las a nós”. (At 7,38).

A narrativa diz “o anjo” e, pela concepção da época, isso significava que o próprio Deus teria se manifestado, entretanto, nessa passagem, segundo o que pensamos, não seria essa a idéia a prevalecer. Um pouco antes, está narrado: “Quarenta anos depois, apareceu-lhe no deserto do monte Sinai um anjo na chama de uma sarça que ardia” (At 7,30) e, posteriormente, no versículo 53 se dirá anjos, fugindo, portanto, do conceito tradicional. E, se não estivermos enganados, em At 7,38 deveria estar “um anjo”, ao invés de “o anjo”, já que, no primeiro caso, seria o artigo indefinido ficando, portanto, condizente com At 7,30.

Em outras oportunidades encontramos a confirmação de que as leis foram passadas pelos anjos, no plural mesmo, indicando terem sido mais de um. Concluímos que, é bem provável, seja essa a realidade, pois não concebemos o próprio Deus, criador do Universo infinito, vir pessoalmente entrar em contato com os seres humanos, uma vez que usaria para isso os seus mensageiros ou anjos, pois “não são todos eles espíritos encarregados para um serviço, enviados para servir àqueles que deverão herdar a salvação?” (Hb 1,14). Vejamos, então, as seguintes passagens:

Vocês receberam a Lei, promulgada através dos anjos, e não a observaram!” (At 7,53).

“Então, por que é que foi dada a Lei? Ela foi acrescentada para mostrar as transgressões, até a chegada do descendente, em vista do qual foi feita a promessa. A Lei foi promulgada pelos anjos e um homem serviu de intermediário”. (Gl 3,19).

“De fato, se a palavra transmitida por meio dos anjos se mostrou válida, e toda transgressão e desobediência recebeu um justo castigo,...”. (Hb 2,2).

Assim, na própria Bíblia, encontramos elementos que nos levam à conclusão de que não foi realmente Deus que esteve no monte Sinai. Pelo próprio conteúdo dessas leis já questionávamos sobre isso. Nos é passado o nono mandamento como “não cobiçar a mulher do próximo”, mas duas coisas nós podemos colocar sobre ele. Primeiro, Deus jamais diria um absurdo desse, pois se trata, com certeza, de produto de uma sociedade altamente machista, e, partindo do pressuposto de que o que não é proibido é permitido, diríamos que a mulher poderá cobiçar o marido da outra sem nenhum problema. O segundo, é que apesar de sempre o colocarem dessa forma, na verdade, esse mandamento é mais abrangente: “Não cobice a casa do seu próximo, nem a mulher do próximo, nem o escravo, nem a escrava, nem o boi, nem o jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo”. (Ex 20,17). Isto posto, iremos concordar com o pensamento do escritor Hélio Pinto que diz que os Dez Mandamentos na realidade são nove. No texto bíblico a mulher é colocada como propriedade do homem, coisa que naquela época era normal, não nos dias de hoje. E, além desse novo absurdo, podemos ainda dizer que uma Lei, para ser de origem divina, deve ser, acima de tudo “atemporal”, ou seja, serve para todos os tempos, também deve servir para todos os povos, o que não ocorre como se encontra escrita na passagem em relação a escravo, boi ou jumento, pois eram coisas de muito valor na época, já que, por exemplo, o jumento era instrumento de transporte, hoje temos os automóveis, ter bois significava ser alguém de posses, e quanto aos escravos, nos tempos atuais, dá até cadeia para quem escravizar alguém.

Nossa surpresa maior foi quando nos deparamos com a seguinte afirmativa:

“Os babilônios desenvolveram as leis morais mais tarde incorporadas por Moisés nos Dez Mandamentos e que ainda hoje constituem os alicerces do cristianismo”. (LOON, 1981).

Mas será que é isso mesmo? Entretanto, pesquisas posteriores acabaram por nos revelar a verdade.

Kersten, nos passa a seguinte informação:

“Moisés continua a ser considerado um grande legislador, porém, é fato sabido que os Dez Mandamentos nada mais eram que o resumo de leis que vigoraram entre povos do Oriente Próximo e da Índia, muito antes do nascimento de Moisés e que eram comuns também na Babilônia, já há 700 anos. A famosa lei do rei babilônico de Hamurabi (728-1686 a.C.), inspirada no Rig-Veda dos hindus, já continha todos os dez mandamentos”. (Jesus viveu na Índia, pág. 56).

Vejamos a correlação de algumas leis:

Leis Mosaicas

Código de Hamurabi

Não tenha relações sexuais com sua mãe. Ela é de seu pai, e é sua mãe; não tenha relações sexuais com ela. (Lv 18, 7).

Se alguém for culpado de incesto com sua mãe depois de seu pai, ambos deverão ser queimados.

Se alguém ferir o seu próximo, deverá ser feito para ele aquilo que ele fez para o outro:

fratura por fratura,

olho por olho,

dente por dente.

A pessoa sofrerá o mesmo dano que tiver causado a outro: (Lv 24, 29-20).

Se um homem quebrar o osso de outro homem, o primeiro terá também o seu osso quebrado.

Se homem arrancar o olho de outro homem, o olho do primeiro deverá ser arrancado (olho por olho).

Se um homem quebrar o dente de um seu igual, o dente deste homem também deverá ser quebrado (dente por dente).

Os juízes deverão fazer cuidadosa investigação. Se a testemunha for falsa e tiver caluniado o seu irmão, então vocês a tratarão do mesmo modo como ela própria maquinava tratar o seu próximo. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio. (Dt 19, 18).

Se alguém “apontar o dedo” (enganar) a irmã de um deus ou a esposa de outro alguém e não puder provar o que disse, esta pessoa deve ser levada frente aos juízes e sua sobrancelha deverá ser marcada.

Se um homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma mulher casada, ambos serão mortos, tanto o homem como a mulher. Desse modo, você eliminará o mal de Israel. (Dt 22, 22).

Se a esposa de alguém for surpreendida em flagrante com outro homem, ambos devem ser amarrados e jogados dentro d’água, mas o marido pode perdoar a sua esposa, assim como o rei perdoa a seus escravos.

Isso já tinha desestruturado todas as nossas convicções a respeito do assunto, não precisava de mais nada, entretanto mais um livro chegou às nossas mãos. Foi a gota d’água que veio, por definitivo, mudar conceitos antigos. que aprendemos como se fossem verdades absolutas.

Desta vez o autor foi Werner Keller, que, no seu livro e a Bíblia tinha razão... demonstrou, de forma categórica, tudo quanto já tínhamos visto anteriormente. Vejamos suas colocações (págs. 157-160):

Era perfeitamente possível concluir pela singularidade das leis morais, dadas por Deus ao povo de Israel, sem modelo nem paralelo no antigo Oriente, antes da descoberta dos elementos, indicando clara e inequivocamente que, precisamente em um dos seus trechos de maior relevo, ou seja, os Dez Mandamentos e demais leis promulgadas para Israel, a Bíblia não está sozinha, pois sobretudo ali ela se revela como imbuída do espírito do antigo Oriente. Assim, os Dez Mandamentos representam uma espécie de ‘documento de aliança’, ou a ‘lei básica’ da aliança entre Israel e seu Deus. Em absoluto, não surpreende o fato de corresponder, perfeitamente, aos acordos de vassalagem, celebrados no antigo Oriente, para regulamentar os vínculos entre um soberano e os reis vassalos, por ele instituídos para governar os povos subjugados. Os textos desses contratos de vassalagem sempre começavam citando o nome, título e os méritos do respectivo ‘grão-rei’. Correspondentemente, a Bíblia reza: ‘Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei do Egito, da casa da servidão’ (Êxodo 20.2). Logo, também, ali cita-se primeiro o nome (a palavra ‘Senhor”, segundo a praxe bíblica, substituindo o nome verdadeiro de Jeová, cujo pronunciar era proibido), o título (‘Deus”) e o mérito decisivo (‘que te tirei da terra do Egito’) do grão-rei; só que, neste caso específico, tratava-se do divino ‘grão-rei’ de Israel, do Deus da aliança. Ademais, os vassalos eram proibidos de estabelecer relações com soberanos estrangeiros. A isso corresponde o mandamento ‘Não terás outros deuses diante de Mim’ (êxodo 20.3). A forma imperativa de ‘tu deves’, ‘tu não deves’ está sempre presente nos acordos entre um grão-rei e seus vassalos; portanto, ao contrário do que supõem alguns cientistas, ela absolutamente não se restringe aos Dez Mandamentos bíblicos. Por exemplo, um daqueles tratados de vassalagem reza: ‘Não cobiçarás nenhuma região do país de Hatti’, conquanto a Bíblia diga: ‘Não cobiçarás a casa do teu próximo...’ (Êxodo 20.17). Foram apuradas ainda outras concordâncias, como as referentes à guarda das tábuas como os mandamentos na arca da aliança (as cópias dos contratos de vassalagem também eram guardadas no interior do santuário), bem como à selagem dos contratos, respectivamente, dos mandamentos, com bênção e maldições, pois também Moisés falou (Deuteronômio 11.26 a 28): ‘Eis que eu ponho hoje diante dos vossos olhos a benção e a maldição; a benção, se observardes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu hoje vos prescrevo; a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, mas vos apartardes do caminho que eu hoje vos mostro...’ Aliás, o renomado cientista católico, pesquisador de Bíblia, Roland de Vaux, já mencionado por várias vezes, encontrou em diversos acordos de vassalagem hititas a disposição de ler, em intervalos regulares, o texto do acordo, as leis bíblicas deveriam ser lidas em público, pois ‘todos os sete anos, no ano da remissão, na solenidade dos tabernáculos, quando todos os filhos de Israel se juntarem para aparecer diante do Senhor teu Deus... lerás as palavras desta lei diante de todo o Israel, o qual ouvirá... para que, ouvindo, aprendam e temam o Senhor vosso Deus, e guardem e cumpram todas as palavras desta lei’ (Deuteronômio 31.1, 10 a 12).

Tudo isso refere-se somente à forma externa dos Dez Mandamentos. No entanto, o que há em relação ao seu conteúdo espiritual? Tampouco, quanto a isso, faltam paralelos. Assim, na Assíria, um sacerdote, ao exorcizar os ‘demônios’ de um doente, teve de perguntar: ‘Será que ele (o doente) ofendeu um deus? Menosprezou uma deusa?... Menosprezou seu pai e sua mãe? Menosprezou a irmã mais velha?... Teria ele falado ‘não é assim, ao invés de ‘é assim’ (ou vice-versa)? ... Teria ele feito pesagem falsa? Invadido a casa do seu próximo? Ter-se-ia aproximado demasiadamente da mulher do seu próximo? Teria vertido o sangue do seu próximo?....

Por fim, seguem-se ainda alguns exemplos, tirados do chamado ‘ensinamento de Amenemope’, em uso no antigo Egito:

‘Não retirarás a pedra demarcando os limites do campo e não alterarás a linha, seguida pela fita do metro; não cobiçarás nem um côvado de terra e não derrubarás a demarcação das terras de uma viúva’.

‘Não cobiçarás a propriedade de um homem de posses modestas e não terás fome do seu pão’.

‘Não regularás a balança de maneira errada, não adulterarás os pesos e não diminuirás as peças da medida dos cereais’.

‘Não farás a desgraça de ninguém perante o tribunal e não corromperás a justiça’.

‘Não darás risada de um cego, não farás troça de um anão e não desfarás os planos de um paralítico’.

Da mesma forma, o ‘exemplo clássico’ que hoje em dia costuma ser citado pelos pesquisadores da Bíblia é a chamada ‘confissão negativa’, mencionada na introdução ao centésimo vigésimo quinto capítulo do Livro dos Mortos. No antigo Egito era crença que o defunto ingressaria em uma ‘sala de justiça’, onde, perante quarenta e dois juízes dos mortos, deveria fazer as seguintes declarações:

‘Não fiz adoecer ninguém.

Não fiz chorar ninguém.

Não matei ninguém.

Não fiz mal a ninguém.

Não diminuí os alimentos nos templos.

Não maculei os pães oferecidos aos deuses.

Não roubei os pães destinados aos mortos, como oferendas fúnebres.

Não tive relações sexuais (proibidas).

Não tive relações sexuais contrárias à natureza’.

E assim por diante.

Em outra parte veremos ainda que, graças às pesquisas mais recentes, hoje em dia já se tornou bem menos acentuada a diferença, outrora gritante, entre conceitos: ‘Aqui, a sublime fé monoteísta – ali, a multidade bizarra de deidades’. Em certa época, pelos menos nos tempos primitivos, aquela multidade de deidades existiu, inclusive em Israel, conquanto a idéia da grandiosidade de figuras divinas, reais, fosse divulgada igualmente nas crenças religiosas de outros povos, habitando as imediações da Terra Santa. Da mesma forma, cumpre fazer constar que também alhures houve moralidade; além das fronteiras de Israel, o povo era igualmente responsável, tinha modos, observava os preceitos da lei, ordem, ética e moral, e também ali as normas regendo o comportamento humano encontravam uma expressão que, tanto no espírito quanto na letra, correspondia perfeitamente aos regulamentos sagrados vigentes em Israel. E, mais uma vez, a Bíblia tem razão, no sentido de que, nos seus textos jurídicos, cuja peça principal são os Dez Mandamentos, ela nos transmite um trecho pertinente, comprovado por respectivos paralelos na história cultural e moral do antigo Oriente. O quadro assim constituído, e de modo a dificultar que fosse mantida a outrora levantada pretensão da singularidade das leis bíblicas, talvez confunda e intrigue a mente de algumas pessoas. Lamentavelmente, não há condições de eliminar tal confusão e insegurança. No entanto, hoje em dia, a confirmação extrabíblica dos respectivos textos bíblicos revela o relacionamento de Israel com seu ambiente cultural e histórico, bem como suas máximas, de uma maneira bastante mais clara e precisa do que antes....

Foi aqui, finalmente, que jogamos, de vez, “a tolha no chão”, vamos assim dizer, não resistindo aos inapeláveis argumentos históricos desenvolvidos por Keller.

Pode ser que eventualmente isso venha a chocar a muitos, entretanto, muitas vezes acontece isso mesmo, quando ficamos sabendo da verdade. Alguns, com certeza nos chamarão de heréticos, como se isso fosse mudar os fatos. Além de que, se o somos, estaríamos muito bem acompanhados, pois Jesus foi também herético no seu tempo. Outros, talvez, dirão que estamos possuídos por satanás, a estes pedimos estudar mais a história, pois irão ver que esse ser foi incorporado, na Bíblia, por influência da cultura persa, pela doutrina de Zoroastro.

Deveríamos fazer um estudo mais aprofundado desses assuntos bíblicos, demonstrando, por separação, a realidade da fantasia, sob pena de, no futuro, ninguém mais vai dar valor algum a ela. Pelos estudos que temos feito da Bíblia a conclusão que inevitavelmente estamos chegando é que apesar dela ter sido imposta como sendo “a palavra de Deus” ela é sim um livro histórico, em que também se encontra registrados os conceitos religiosos do povo hebreu, muitas vezes, cheios de superstições, misturadas com mitologia, lendas e conceitos pagãos, daí a necessidade de seu estudo sem preconceitos. Ressalva faremos apenas ao Evangelho de Jesus.

Mas, apesar disso tudo, ainda poderemos aceitar que os Dez Mandamentos são realmente de inspiração divina. Entretanto, teremos que identificar quem foi o “Moisés” que antes os recebeu.

Jan/2004 (revisado)

Referência bibliográfica: