Inferno ou Purgatório?

Paulo da Silva Neto Sobrinho

É comum vermos as expressões: “a Bíblia diz”, “a Bíblia fala”, “porque está na Bíblia”, “a Bíblia emprega a palavra tal em tal sentido”, etc., como se ela fosse um ser vivo com capacidade de pensar e até de se expressar. Não entendem alguns teólogos, principalmente os dogmáticos, que na verdade foram os autores bíblicos que pensaram e se expressaram, e ao longo do tempo, foi ela, por força da afirmativa de ser “a palavra de Deus”, adquirindo essa vida própria.

Se tivermos mente aberta, para analisar seu conteúdo, veremos que existem várias passagens que não podem, de forma alguma, ser atribuídas a Deus. Isso, por outro lado, colocaria em cheque a questão de ser ela somente a palavra de Deus. Ora, como ela fazia parte dos rituais religiosos, era lida nos templos, e esses rituais assumem, em todos os tempos e lugares, um caráter sagrado, assim, a Bíblia, adquiriu também o caráter de Sagrada, passando a ter, por isso, a denominação de Bíblia Sagrada, como a conhecemos hoje.

Devemos, para extrair a verdade que ela contém, analisar os fatores culturais e os de época que, de maneira irrefutável, influenciaram os autores bíblicos. Sabemos que muitas pessoas não admitem essas coisas, mas não podemos compactuar com a ignorância, e deixar as coisas como estão. Assim, para o próprio bem dela, devemos mostrar que determinadas coisas foram mudando de sentido (ou significado) com o passar dos tempos.

De uma maneira geral, para o ser humano, parece ser muito mais fácil acreditar em algo, mesmo que ele não exista, do que mudar o seu pensamento a respeito de alguma coisa em que ele já acredita. Assim, com certeza, o que iremos colocar não será ouvido por muitos. E talvez sejamos execrados por outros, além de aqueles que irão nos mandar “arder no mármore do inferno”. Mas, nada disso nos fará silenciar diante do que nossa consciência nos diz para fazer, já que buscamos “a verdade que liberta”, não a que querem a todo custo nos impor. Achamos isso uma afronta à nossa inteligência, pois agem como se ninguém, a não serem eles, tivesse capacidade de pensar.

Os cinco primeiros livros da Bíblia formam o Pentateuco. O Pentateuco é uma palavra grega que significa “cinco livros”. Antigamente foram atribuídos a Moisés. Hoje em dia, não mais, porque entre eles se relata a morte de Moisés. Compõe-se dos seguintes livros: Gênesis, Êxodo, Números, Levítico e Deuteronômio. A este é que os judeus chamavam “a Lei”, já que nele se encontravam os mandamentos e os estatutos de Deus.

O primeiro mandamento Divino aos homens, com a sua conseqüente penalidade, nós vamos encontrá-lo em Gn 2, 16-17: “E Javé Deus ordenou ao homem: ‘Você pode comer de todas as árvores do jardim. Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza morrerá’”.

Assim, a pena para a desobediência ao mandamento seria a morte. Relaciona-se, pois, a uma situação presente, e não para o futuro.

Mas, estranhamente, as penas impostas, é o que se supõe, ao primeiro casal humano foram: a) mulher: parir com dor, paixão que a arrastaria para o marido (graças a Deus), e que seria dominada por ele; b) homem: ter que trabalhar até o “suor do rosto”, para tirar da terra os produtos dos quais deveria alimentar-se, e voltar ao pó, ou seja, morrer. Devemos observar que todos os castigos impostos estão relacionados à sua vivência diária, nada de vida após a morte.

Embora não tenha estabelecido que seria uma desobediência matar alguém, Deus exige explicação de Caim sobre a morte de seu irmão Abel, e acaba por penalizá-lo. Dizendo a Caim que o solo não lhe daria mais o seu produto, mesmo que o cultivasse, e que seria errante e perdido pelo mundo. Continua tudo relacionado com a vida presente.

O homem cumprindo o “crescei e multiplicai-vos” foi povoando a Terra. E não sabemos por que, a certa altura, Deus viu que a maldade do homem crescia na Terra, e que todo o projeto do coração do ser humano era sempre mau. Arrepende-se de tê-lo criado, e resolve eliminá-lo da face da Terra. Assim, escolhe entre os homens um justo, chamado Noé, e o orienta a construir uma arca, pois iria salvá-lo e à sua família da catástrofe que se iria iniciar com o dilúvio. A maldade do homem trouxe-lhe o castigo da morte.

Depois do dilúvio, Deus diz a Noé um mandamento: “Não comer os animais com o sangue”, sem estabelecer a penalidade para quem não o cumprisse.

Deus faz uma aliança com Abraão: Se ele o considerasse o seu Deus, lhe daria uma descendência numerosa, como as “estrelas do céu”. Estabelece a circuncisão, como sinal dessa aliança perpétua. Diz ter escolhido Abraão, para que ele instrua seus filhos, sua casa e seus sucessores, a fim de que se mantivessem no caminho de Javé, praticando a justiça e o direito.

Deus diz a Abraão que o clamor contra Sodoma e Gomorra era muito grande, e o pecado de seus habitantes era muito grave. Ora, até o presente momento, Deus não havia definido o que era pecado ou não, assim não poderia culpar a ninguém de estar pecando, não é mesmo? Para atender a esse clamor, resolve destruir as duas cidades, salvando apenas Ló, sobrinho de Abraão. Para isso “Javé fez chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra, destruindo essas cidades e toda a planície, e viu a fumaça subir da terra como fumaça de uma fornalha”.

Passa-se o tempo. Estamos agora no Deserto de Sur, após a saída do povo hebreu da escravidão no Egito. Apesar de ainda não ter estabelecido nenhuma Lei para ser cumprida, Deus diz: “Se você obedecer a Javé seu Deus, praticando o que Ele aprova, ouvindo seus mandamentos e observando todas as leis, eu não mandarei sobre você nenhuma das enfermidades que mandei sobre os egípcios”. A pena para a desobediência seriam as enfermidades, ou seja, coisas, também, para uma vida terrena.

Moisés exercia a função de uma espécie de Juiz nas questões em que o povo o procurava, para que resolvesse. Pela narrativa, era o único que conhecia os estatutos e as Leis de Deus, muito embora, até aquele momento, não ficamos sabendo como Deus as tinha passado a ele. Somente após três meses no deserto, diante do Monte Sinai, é que Deus aparece a Moisés, e lhe entrega as tábuas com os Dez Mandamentos. Nessa ocasião, Moisés, apresenta ao povo várias outras normas de conduta, dizendo ser por ordem de Javé, muitas das quais a morte era a pena a ser aplicada ao infrator, contrariando a determinação de “não matarás”, contidas nas duas Tábuas que acabara de receber, as quais ainda deveriam estar debaixo de seus braços.

Entre essas normas, encontramos: “quem trabalhar no dia de sábado será réu de morte”. A grande questão é saber se essa pena realmente procede de Deus. Vejam que uma falta tão insignificante não poderia, por bom senso, ter uma pena tão grande como essa. Por isso, não a vemos como Divina, mas como uma necessidade de época, ou seja, Moisés, para implantar o culto a um Deus único, impôs essa medida extrema para atingir seu objetivo. Fizeram o mesmo na implantação do Cristianismo, quando, “a ferro e fogo”, o queriam impor a todos os seres humanos, através das Cruzadas e da Inquisição, ambas de triste memória, como atos de extrema barbárie, praticados pela humanidade, só comparáveis com os da 2ª Guerra Mundial.

Moisés sobe, pela segunda vez, ao monte, e como estava demorando, o povo resolve fazer um bezerro de ouro, e passa a adorá-lo como o deus de Israel. Atitude que fez Deus inflamar-se em sua ira, ordenando a Moisés: “Cada um coloque a espada na cintura. Passem e repassem o acampamento, de porta a porta, matando até mesmo o seu irmão, companheiro e parente”. Morrendo, naquele dia, três mil homens. Talvez Deus tenha se esquecido do “não matarás”, e até aqui não se tinha estabelecido nenhuma penalidade para quem não cumprissem os Mandamentos.

Encontramos, sim, rituais que deveriam ser feitos para expiação dos pecados. Estabeleceu-se que se alguém transgredisse, sem querer, algum dos Mandamentos de Javé, fazendo uma coisa proibida, deveria oferecer animais, sem defeito, em sacrifício pelo pecado; se fosse um sacerdote, deveria imolar, pela violação cometida, um bezerro, animal grande; se fosse a comunidade, deveria ser oferecido um bezerro, animal grande, se fosse um chefe, um bode; se fosse um homem do povo, uma cabra, e estabeleceu-se, ainda que: “O sacerdote fará, assim, o rito pelo pecado desse homem, e este ficará perdoado”. Depois, são ditadas outras normas para casos especiais e sacrifícios de reparação. Diz, ainda, quais são os animais puros e impuros, da purificação depois do parto, sobre as doenças de pele, a lei sobre o leproso, a lei da purificação do leproso, impurezas sexuais.

Estabeleceu-se, ainda, o dia do grande perdão, no qual deveria ser oferecido o bode do sacrifício pelo pecado do povo, e cujo ritual consistia: “Colocará as duas mãos sobre a cabeça do bode e confessará sobre ele todas as culpas, transgressões e pecados dos filhos de Israel. Depois de colocar tudo sobre a cabeça do bode, mandará o animal para o deserto. Assim, o bode levará sobre si, para uma região deserta, todas as culpas deles”. Completando: “Esta será uma lei perpétua para vocês: uma vez por ano será feita a expiação por todos os pecados dos filhos de Israel”. O que será que ocorreu com esse mandamento, já que, apesar de ser uma lei perpétua, não vemos ninguém o cumprindo? Observar que transferiram a Jesus a função desse “bode”, ou melhor, “cordeiro expiatório”.

Mais à frente é dito: “Não comam o sangue de nenhuma espécie de ser vivo, pois o sangue é a vida de todo ser vivo e quem o comer será exterminado”. Como ninguém cumpre esse mandamento, não seria o caso de se obedecer a essa ordem divina, exterminando todos os que o contrariam?

Estamos agora em Levítico, capítulo 26, onde Deus fala das bênçãos e maldições, como conseqüência do cumprimento ou não dos seus Estatutos e suas normas, é o momento em que se estabelecem as penalidades para a desobediência.

Vejamos, primeiramente, quais seriam as bênçãos: “Se vocês seguirem meus estatutos, guardarem meus mandamentos e os colocarem em prática, eu darei a vocês a chuva no tempo certo. Então a terra dará seus produtos e a árvore do campo seus frutos. A debulha se estenderá até a colheita da uva, e esta chegará até a semeadura. Vocês comerão até ficar saciados e habitarão tranqüilos no país de vocês. Eu farei reinar a paz no país e vocês dormirão sem alarmes de guerra. Farei desaparecer do país as feras, e a espada não passará pelo país. Vocês perseguirão os inimigos, e eles cairão diante de vocês ao fio da espada. Cinco de vocês perseguirão cem, e cem de vocês perseguirão dez mil, e os inimigos cairão diante de vocês ao fio da espada. Eu me voltarei para vocês e os farei crescer e se multiplicar, mantendo com vocês a minha aliança. E vocês comerão colheitas armazenadas e terão que jogar fora a colheita antiga, para poderem guardar a nova. Colocarei a minha morada no meio de vocês e nunca mais os rejeitarei. Eu caminharei com vocês. Serei o Deus de vocês, e vocês serão o meu povo”.

O que podemos tirar dessas bênçãos não é o céu que as religiões dizem ser o destino dos que seguem fielmente a Deus. Todas essas recompensas prometidas estão relacionadas a uma vida terrena, não a uma vida futura no céu. Ou será que estamos interpretando erradamente essa passagem? Quem sabe se pelas maldições não poderíamos esclarecer isso? E, se aí, nas entrelinhas, não estaria a questão da existência de várias vidas?

Mas, vamos às maldições: “Mas se vocês não me obedecerem e não colocarem em prática todos esses mandamentos, se vocês rejeitarem meus estatutos e desprezarem minhas normas, não pondo em prática meus mandamentos e rompendo minha aliança, então eu os tratarei do seguinte modo: mandarei contra vocês o terror, a fraqueza e a febre, que embaçam os olhos e consomem a vida. Vocês espalharão as sementes em vão, pois o inimigo de vocês é que as comerá. Eu me voltarei contra vocês, e vocês serão derrotados pelos inimigos. Seus adversários os dominarão. E vocês fugirão sem que ninguém os persiga. Apesar de tudo isso, se vocês ainda não me obedecerem, eu lhes darei uma lição sete vezes maior, por causa de seus pecados. Quebrarei a teimosia orgulhosa de vocês, fazendo com que o céu seja como ferro, e a terra de vocês como bronze. Vocês consumirão inutilmente suas energias, pois a terra não dará colheita, e as árvores do campo não produzirão frutos. Se vocês ainda se opuserem a mim e não me obedecerem, eu os castigarei sete vezes mais, por causa de seus pecados. Mandarei as feras do campo contra vocês. Elas deixarão vocês sem filhos, reduzirão seu gado e dizimarão vocês, a ponto de lhes deixar desertos os caminhos. E, apesar desses castigos, se vocês ainda não se corrigirem e continuarem a se opor a mim, eu também continuarei a ficar contra vocês, e os castigarei sete vezes mais, por causa de seus pecados. Mandarei contra vocês a espada vingadora da minha aliança. E quando vocês se refugiarem em suas cidades, eu mandarei a peste, e vocês terão de se entregar aos inimigos. Quando eu cortar de vocês o sustento de pão, dez mulheres irão assar o seu pão no mesmo forno, e darão a vocês o pão racionado, e vocês comerão, mas não ficarão saciados. E, apesar disso tudo, se vocês ainda não me derem ouvidos e continuarem a se opor a mim, eu ficarei furioso contra vocês, e os castigarei sete vezes mais, por causa de seus pecados. Vocês comerão a carne de seus filhos e a carne de suas filhas. Eu destruirei seus lugares altos, destroçarei seus altares de incenso, jogarei seus cadáveres sobre os cadáveres de seus ídolos, e rejeitarei vocês. Devastarei suas cidades, destruirei seus santuários e não aspirarei o perfume do incenso de vocês. Devastarei o país de vocês, e os inimigos que o ocuparem ficarão horrorizados. Quanto a vocês, eu os espalharei no meio das nações e os perseguirei com a espada desembainhada. Seus campos ficarão desertos e suas cidades em ruínas. Então a terra desfrutará de seus próprios sábados, durante todos os dias em que estiver desolada, enquanto vocês estiverem na terra dos inimigos. Então a terra descansará e desfrutará de seus próprios sábados. E durante todos os dias em que estiver desolada, ela descansará o descanso do sábado que vocês não lhe deram enquanto nela habitavam. Quanto aos seus sobreviventes, farei com que se acovardem na terra dos inimigos; ficarão assustados com o barulho das folhas que voam, fugirão como se fosse da espada, e cairão sem que ninguém os persiga. Tropeçarão uns nos outros, como se estivessem diante da espada, sem que ninguém os persiga. Vocês não poderão resistir aos inimigos, perecerão entre as nações, e a terra dos inimigos devorará vocês. Aqueles de vocês que sobreviverem apodrecerão no país inimigo, por causa da sua própria culpa e da culpa de seus pais. Confessarão a própria culta e a culpa de seus pais, a culpa de terem sido infiéis e de se oporem a mim. Eu também me oporei a eles e os conduzirei ao país de seus inimigos, para ver se eu dobro o coração incircunciso deles, e para ver se eles fazem penitência de sua culpa. Então eu me lembrarei da minha aliança com Jacó, da aliança com Isaac, da aliança com Abraão, e me lembrarei do país. No entanto, eles terão que abandonar o país, e este poderá então desfrutar de seus sábados, enquanto permanecer desolado com a ausência deles. Farão penitência pela culpa de terem rejeitado meus mandamentos e desprezado minhas leis. Apesar de tudo, quanto eles estiverem no país inimigo, eu não os rejeitarei, nem os desprezarei até o ponto de exterminá-los e de romper minha aliança com eles”.

Mesmo em relação às penalidades, os castigos são sempre relacionados com a vida aqui na terra, ou seja, na vida presente. Apesar das penas serem extremamente rigorosas, nada de inferno para ninguém. E é até importante ressaltar que, se Deus dá vários castigos cada vez maiores (a expressão “sete vezes mais” foi utilizada por quatro vezes), é porque espera a recuperação do infrator, por mais tardia que seja. E, ao final, diz que “não os rejeitarei, nem os desprezarei até o ponto de exterminá-los”, ou seja, mesmo que errem muito, Deus ainda possui uma enorme comiseração para com os infratores. Excluindo, portanto, qualquer idéia de penas eternas. É o que podemos deduzir de Ezequiel 33, 11: “Não sinto nenhum prazer com a morte do injusto. O que eu quero é que ele mude de comportamento e viva”.

Seguindo, vamos parar em Deuteronômio, capítulo 25, onde encontramos algo novo, pois até aqui nada merece destaque, e algumas narrativas são repetições de outras que constam dos livros anteriores. Vejamos a passagem: “Quando houver demanda entre dois homens e forem à justiça, eles serão julgados, absolvendo-se o inocente e condenando-se o culpado. Se o culpado merecer açoites, o juiz o fará deitar-se no chão e mandará açoitá-lo em sua presença, com número de açoites proporcional à culpa. Podem açoitá-lo até quarenta vezes, não mais; isso para não acontecer que a ferida se torne grave, caso seja açoitado mais vezes, e seu irmão fique marcado diante de vocês”.

Merecem comentários:

- “absolvendo-se o inocente”: isto significa que não se deve condenar um inocente.

- “condenando-se o culpado”: por questão de justiça o culpado deverá ser condenado.

- “se o culpado merecer açoites”: sinal que pode haver situação especial em que o culpado não mereça receber um castigo, uma repreensão poderia, talvez, ser mais útil.

- “o juiz... mandará açoitá-lo em sua presença”: a presença pessoal do Juiz indica a necessidade de se ter certeza do cumprimento da pena, se o culpado a merecer.

- “com número de açoites proporcional à culpa”: sendo o castigo proporcional à culpa, significa que não poderá haver pena igual para todos os tipos de infração à lei.

- “podem açoitá-lo até quarenta vezes, não mais”: significa, incontestavelmente, que tudo tem um limite, que a pena não poderá ser eterna.

Íamos passando, mas em Deuteronômio 24, 16, existe algo que, também, merece ser comentado. Diz lá: “Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa do seu próprio crime”. Isso acaba, de uma vez por todas, com essa absurda idéia de que ainda estamos pagando pelo pecado de Adão e Eva, já que o castigo está indo além do culpado, e que, de certa forma, está se perpetuando a pena imposta ao “primeiro casal”, uma vez que todas as pessoas, que vierem depois deles, continuarão indefinidamente pagando pela desobediência deles.

Vejamos agora alguma coisa sobre o profeta Isaías, já que o usam para justificar o inferno eterno.

Na visão que Isaías teve a respeito de Judá e Jerusalém, encontramos o seguinte: “Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista as maldades que vocês praticam. Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem: busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva. Então venham e discutiremos – diz Javé. Ainda que seus pecados sejam vermelhos como púrpura, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como escarlate, ficarão como a lã. Se vocês estiverem dispostos a obedecer, comerão os frutos da terra; mas, se vocês recusam e se revoltam, serão devorados pela espada. Assim fala a boca de Javé”.

Para estar de bem com Deus, é necessária a prática do amor ao próximo, atendendo-o em todas as suas necessidades. Como recompensa, Deus promete uma vida terrena boa, se não, a morte, que aqui nada mais é que estar sem Deus. Outro ponto importante é que Deus sempre usará de misericórdia para os nossos erros, já que Ele é um Deus de amor.

Mais à frente, lemos: “Se absolvermos o malvado, ele nunca aprende a justiça; sobre a terra ele distorce as coisas direitas e não vê a grandeza de Javé”. A idéia central da passagem vai de encontro ao simples perdão, como pensam alguns, já que se diz ser necessário “castigar” o culpado, para que ele, efetivamente, possa aprender a justiça.

Queremos lhes mostrar como é grande a dificuldade com a qual sempre nos deparamos, quando estudamos a Bíblia. Cada tradutor coloca o termo que lhe convém, isso, muitas vezes, quando não muda o sentido do texto, fazendo com que o leitor, menos avisado, o interprete fora do significado original, levando-o, portanto, a uma conclusão errada.

Verifiquemos a passagem de Isaías 38, 10, como exemplo, que é um caso típico disso:

1 – Bíblia Anotada: “Eu disse: Em pleno vigor de meus dias hei de entrar nas portas do além; roubado estou do resto dos meus anos”.

Nota no rodapé: sepultura. Lit., Sheol, aqui equivalente à morte, i.e., na morte o indivíduo fica separado dos vivos que podem louvar a Deus.

2 – Bíblia Ave Maria: “Eu dizia: ‘É necessário, pois, que eu me vá, no apogeu da minha vida. Serei encerrado por detrás das portas da habitação dos mortos, durante os anos que me restariam viver”.

3 – Bíblia Barsa: “Eu disse: Na metade de meus dias irei para as portas do inferno. Busquei o resto de meus anos”.

Nota no rodapé: Inferno: propriamente, Sheol, a residência dos mortos.

4 – Bíblia Pastoral: “Eu dizia: ‘Bem no meio da minha vida, eu me vou; pelo resto dos meus anos, ficarei postado à porta da mansão dos mortos”.

5 – Bíblia Vozes: “Eu disse: No melhor de meus dias devo partir. Sou trazido às portas do xeol pelo resto de meus anos”.

6 – Bíblia Shammah (em Bytes): “Eu disse: No cessar de meus dias ir-me-ei às portas da sepultura; já estou privado do restante dos meus anos”.

Observar as expressões: “do além”, “habitação dos mortos”, “inferno”, “mansão dos mortos”, “xeol” e “sepultura”, todas são repetidas em Eclesiastes 9, 10, pelo contexto, de ambas as passagens, deveriam ter o mesmo significado. Entretanto, não é o que vemos sendo usado, principalmente, para a palavra “inferno”, que adquiriu status de um lugar somente para os maus. Inclusive, notamos que a Bíblia protestante é que mais usa essa palavra.

O que podemos confirmar pelas informações contidas nelas, nas explicações e em notas no rodapé:

Habitação dos mortos: expressão freqüente que traduz o vocábulo hebraico Cheol. Os antigos hebreus não tinham, da vida futura, uma idéia tão clara como nós. Para eles, a alma separada do corpo permanecia num lugar obscuro, de tristeza e esquecimento, em que o destino dos bons era confundido com o dos maus. Donde a necessidade de uma retribuição terrestre para os atos humanos”.

“Os hebreus concebiam o cheol como imensa caverna subterrânea, tenebrosa, aonde acreditavam fossem as almas para passar uma vida amorfa, sem consolação, esquecidas de todos e esquecidas elas mesmas”.

“Para o autor (Eclesiastes), como para os seus contemporâneos, todos os homens vão, depois da morte, para um único lugar, o cheol, ou a região dos mortos. A existência nesse lugar é descrita como uma existência sem consolações, nas trevas, sem felicidade alguma, onde nenhuma relação mais se tem com o que acontece na terra”.

Ressaltamos, para melhor localizar a época desse pensamento, que o livro Eclesiastes foi escrito entre os anos 190 a 180, a.C. Ele relata as condições sociais do período dos Ptolomeus (323-145 a.C).

Seguindo: “Ao sair, eles verão os cadáveres daqueles que se revoltaram contra mim, porque o verme que os corrói não morre jamais e o fogo que os consome jamais se apaga”. A mão de Javé se manifestará para os seus servos, mas se indignará contra seus inimigos. Porque Javé vem com fogo, e seus carros parecem furacão, para desabafar sua ira com ardor e sua ameaça com chamas de fogo. É com fogo que Javé fará justiça sobre toda a terra, e com sua espada ameaça o mundo todo: são muitas as vítimas que ele faz”.

É dessa passagem que as correntes religiosas buscam sustentar o “inferno eterno”, entretanto, se bem observamos, é apenas uma figura de linguagem, sendo portanto um simbolismo, não uma coisa objetiva.

Na realidade “este inferno foi localizado no vale de Hinon, a Geena, lugar maldito, profanado outrora pelo culto de Moloc, deus dos mortos, tornado em seguida desaguadouro e ossuário, onde eram jogados, sem sepultura, os corpos dos apóstatas”.

E, “Geena. (do hebr. Gê-hinnon, vila de Hinnon). Conhecido também por ‘Vale de Josafá’ está situado ao sul de Jerusalém e era considerado lugar maldito por causa dos sacrifícios de crianças que ali fizeram ao ídolo Moloc (ou Tofet) ao qual chegaram a construir um templo. O santo rei Josias, na restauração que fez de Israel destruiu o templo e transformou o lugar em depósito de lixo. Por óbvios motivos de higiene, aí mantinham os judeus um fogo permanentemente aceso. Com o tempo, passou naturalmente esta palavra a ser empregada como sinônimo de maldição e Jesus usou-a para designar o Inferno”.

Busquemos a passagem de Marcos 9, 43: “Se tua mão for para ti ocasião de perda, corta. Melhor te será entrares na vida aleijado do que com duas mãos ires para o inferno, o fogo que não se apaga”. Várias traduções, ao invés de inferno colocam geena. Só que o significado de geena não é o inferno que os teólogos dizem. Podemos confirmar isso na explicação dada nesta passagem de Marcos constante da Bíblia Vozes: “Para o “inferno”, literalmente, para a “geena”, isto é, o vale a ocidente de Jerusalém, lixeira da cidade, onde um fogo permanente queimava os detritos, e vermes fervilhavam na podridão”. Sendo, portanto, de sentido completamente diferente do que querem dar.

E, quanto à questão do significado de fogo, devemos entender: “O fogo que fulmina a imaginação dos israelitas é fogo do trovão, admirado por sua dupla eficácia: o raio destruidor e a tempestade, fonte de chuva benfeitora. Considerado pelos semitas como o símbolo de sua divindade, o fogo se torna sinal de Javé, cenário necessário de suas manifestações, símbolo de sua presença”.

O fogo é considerado um elemento purificador, como bem podemos ver na passagem Ezequiel 24, 9-13: “Por isso, assim diz o Senhor Javé: Ai da cidade sanguinária! Eu também vou fazer uma grande fogueira. ...Coloque a panela vazia em cima das brasas, para que esquente até o ferro ficar vermelho, para que a sujeira se derreta e a ferrugem desapareça. Por mais que alguém se esforce, nem com o fogo a ferrugem se descola. A devassidão é a sua sujeira; eu quis purificar você, mas você não se deixou purificar. Por isso, você não será purificada de sua sujeira enquanto eu não derramar sobre você a minha ira”.

Vejamos a palavra Eternidade. “Em parte alguma da Bíblia se encontra a idéia de uma eternidade que seria imobilidade perfeita, ‘fora do tempo’. Mas a palavra hebraica olam para o AT e sua tradução grega aiôn para os LXX e o NT designam um período completo, determinado, apesar da incerteza de sua duração. Porque a palavra hebraica olam visa o que está oculto, secreto, cujo começo e fim são ignorados: o que é indefinido ou indeterminável. ... O “fogo” é chamado “eterno” porque é misterioso e faz parte da “duração que vem”.

Assim, a expressão “fogo eterno” poderia, dentro da perspectiva de que a “misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2, 13), ser entendida como um período de purificação, do qual não se sabe o fim, nada mais que isso. Podemos comprovar usando a passagem Salmos 103, 8-9: “O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira”.

Chegamos a uma interessante conclusão: que apesar da palavra inferno constar da Bíblia, não o podemos aceitar a não ser no sentido de “um longo tempo de purificação”, o que se confunde com o conceito de purgatório, que somos forçados a aceitar, mesmo não constando da Bíblia, já que alguém poderia alegar isso.

Kardec, analisando essa questão, diz:

“O princípio do purgatório está, pois, fundado na eqüidade, porque, comparado à justiça humana, é a detenção temporária ao lado da condenação à perpetuidade. O que se pensar de um país que não tivesse senão a pena de morte para os crimes e os mais simples delitos? Sem o purgatório, não há para as almas senão duas alternativas extremas: a felicidade absoluta ou o suplício eterno. Nessa hipótese, em que se tornam as almas culpadas somente por faltas leves? Ou elas participam da felicidade dos eleitos sem serem perfeitas, ou sofrem o castigo dos maiores criminosos sem terem feito muito mal, o que não seria nem justo nem racional”. (...)

“O purgatório não é, pois, uma idéia vaga e incerta; é uma realidade material que vemos, tocamos e experimentamos; está nos mundos de expiação, e a Terra é um desses mundos; os homens nela expiam seu passado e seu presente em proveito de seu futuro. Mas, contrariamente à idéia que deles se faz, depende de cada um abreviar ou prolongar a sua estada, segundo o grau de adiantamento e de depuração, que tenha alcançado pelo seu trabalho sobre si mesmo, deles se sai, não porque se terminou seu tempo ou por méritos de outrem, mas pelo fato de seu próprio mérito, segundo estas palavras de Cristo: ‘A cada um segundo as suas obras’, palavras que resumem toda a justiça de Deus”.

Devemos ressaltar a idéia de Orígenes, escritor e teólogo cristão do século III, que ensinava que a finalidade desse castigo era purgatorial e proporcional à culpa dos indivíduos. Com o tempo, o efeito purificador chegaria a todos (cfe. Enciclopédia Encarta).

Achamos que a mudança de sentido se deve, principalmente, à influência cultural dos povos que dominaram os hebreus. Vejam o que lemos no livro “A História da Bíblia”:

“Durante a longa residência na Pérsia, os judeus travaram conhecimento com um novo sistema religioso. Os persas seguiam um grande mestre de nome Zaratustra, ou Zoroastro”.

“Zaratustra considerava a vida como uma eterna luta entre o Bem e o Mal. O deus do Bem, Ormuzd, estava sempre em guerra com o deus do Mal e da ignorância – Ariman. Ora, isto era uma idéia nova para maior parte dos judeus”.

“Até então haviam eles reconhecido a um senhor único, ao qual deram o nome de Jeová. Quando as coisas corriam mal, quando eles eram derrotados nas batalhas ou assolados por moléstias, invariavelmente atribuíam o desastre à falta de devoção do povo. A idéia de que o pecado proviesse da interferência dum espírito do mal, nunca lhes ocorrera. A própria serpente no Paraíso parecia-lhes menos culpada que Adão e Eva, os quais conscientemente haviam desobedecido à vontade divina”.

“Sob a influência das doutrinas de Zaratustra, os judeus começaram a crer na existência dum espírito que procurava desfazer a obra de Jeová. E a esse adversário deram o nome de Satã”.

“Passaram a odiá-lo e temê-lo, e no ano 331 convenceram-se de que Satã andava pela terra”.

Podemos completar com as informações da Enciclopédia Encarta a respeito do Zoroastrismo: “Religião fundada na antiga Pérsia por Zoroastro. Os zoroástricos, chamados parsis, são numerosos na Índia. A pregação de sua doutrina se conserva nos Gathas métricos (salmos), que formam parte da escritura sagrada do Avesta”.

“Os dogmas dos Gathas consistem em um culto monoteísta de Ahura Mazda (o “Senhor da sabedoria”) e em um dualismo ético que contrapõe a Verdade (Asha) e a Mentira (Druj). Tudo o que é bom se apóia nas emanações de Ahura Mazda: Spenta Maineu (o Espírito benfeitor); todo o mal é causado por seu irmão gêmeo, Angra Maineu (o Espírito diabólico). Após a morte, a alma de cada pessoa será julgada na “Ponte da discriminação”, quem seguiu a Verdade chegará ao paraíso; os partidários da Mentira cairão no inferno”.

Isso tem muito a ver com o nosso tema, pois acabamos de destronar o “pai da mentira”, que tanto horror causa aos adeptos das religiões dogmáticas, pois dizem que ele irá arrastá-los para o fogo do inferno.

Concluindo nosso estudo vamos refletir:

“Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês que está no céu dará coisas boas aos que lhe pedirem” e com absoluta certeza o inferno eterno é coisa má.

E além do mais, se “o Pai que está no céu não quer que nenhum desses pequeninos se perca”, isso indica que irá acontecer, pois tudo o que Deus quer, de fato acontece, com absoluta certeza.

Acaba aqui o que muitas vezes é utilizado como instrumento de pressão para exigir o dízimo de pobres coitados, que com medo de irem para o inferno eterno pagam a qualquer preço seu lugarzinho no céu.

Jesus ao dizer: “daí não sairá, enquanto não pagar até o último centavo” (Mateus 5, 26) e “O patrão indignou-se, e mandou entregar esse empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida” (Mateus 18, 34) deixa claro que até pagar a dívida ou o último centavo seria o tempo em que o devedor ficaria preso ou entregue aos torturadores, não mais que isso, abolindo, portanto, a idéia do inferno eterno.

As religiões dogmáticas, ao invés de desenvolverem em seus adeptos a idéia de um Deus de amor, para que cada um passe a verdadeiramente amá-Lo, e assim deixem de praticar o mal por amor, confundem-nos com ameaças do inferno, num sentido incompatível com o amor de Deus para conosco, deixando seus fiéis em dúvidas sobre o que mesmo seguir. Usam de uma psicologia negativa, querendo que Deus seja TEMIDO, isso é puro TERRORISMO RELIGIOSO.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Abril/2002.

Bibliografia: