Nascido de uma virgem

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Era costume muito comum de nossos antepassados colocar seus heróis como provindos de nascimentos sobrenaturais, cujas mães eram invariavelmente jovens virgens. Ocorrência que também podemos verificar na mitologia de muitos dos povos da antiguidade. Falavam de deuses que em contato com jovens virgens, davam origem a semi deuses que assumiam a condição de ser humano e divino ao mesmo tempo.

Ora, é um fato perfeitamente natural, até mesmo por esses fatores culturais, querer atribuir a Jesus essa condição de nascimento sobrenatural e, como não poderia deixar de ser, nascido de uma virgem. O que não é natural é querer manter a todo custo essa visão ingênua até os dias de hoje.

Por outro lado, a Igreja de Roma sempre quis colocar o sexo como coisa impura, e em vista disso, Jesus não poderia ter vindo de forma “impura”, não é mesmo? Justifica, de certa maneira, o celibato sacerdotal, ou seja, os “santos” padres não poderiam praticar coisa considerada impura, assim não poderiam se casar. Outro fator, que veio em apoio ao celibato, foi a questão da herança dos padres, que se casados não seriam incorporadas ao patrimônio da Igreja, já que teria que ficar com os familiares. Bom, mas isso é uma outra questão, assim voltemos ao assunto central do texto.

Sempre dissemos que por ser Jesus o primogênito, evidentemente, e pelo contexto cultural da época, já que viviam numa sociedade extremamente machista, Maria ao se casar com José era indubitavelmente virgem, assim podemos considerar Jesus como realmente nascido de uma virgem.

Não foi nossa surpresa que ao lermos, recentemente, o livro “Sabedoria do Evangelho”, de Carlos Torres Pastorino, esse erudito teólogo desenvolve o mesmo argumento, senão vejamos:

A profecia de Isaías afirma que uma virgem conceberá e dará à luz um filho. O termo virgem merece ser estudado.

Em hebraico há duas palavras: betulân, que especificava a virgindade como certa; e almâh que exprimia uma oposição, sem garanti-la. Ora, Isaías escreve exatamente almáh. E verificamos que, em Deut. 22:23, a noiva, e mesmo a esposa recém-casada era chamada ne'arah betulâh.

Em grego a palavra exprime o mesmo: virgem, mas em sentido genérico tanto que as moças noivas e também as recém-casadas eram assim chamadas, e isso na própria Bíblia (cfe. Deut. 22:23; 1 Reis 1:2; Ester 2:3). Em todas essas passagens, a palavra virgem designa a moça que é dada a alguém para deitar-se com ele, supondo-se que se trata de uma virgem, isto é, de moça ainda não ligada pelo casamento a um homem.

A mesma designação é atribuída a Maria, demonstrando que, ao lhe ser dada como noiva, era virgem, o que é natural e normal. No entanto, em nenhum local dos Evangelhos se diz, nem se supõe, que Maria continuou Virgem depois. Ela era virgem quando concebeu, o que de modo geral ocorre com todas as moças.

Esses nossos esclarecimentos não visam a diminuir o respeito e a veneração que todos temos pela Mãe Santíssima de Jesus, pois o fato da virgindade nenhuma importância apresenta diante da espiritualidade.

Outra coisa que sempre falávamos é quanto à questão do sexo ser impuro. Não admitimos essa hipótese de maneira alguma, já que foi Deus que fez o ser humano em duas polaridades; a masculina e a feminina, com órgãos sexuais diferentes. Pensamos que se o sexo for realmente “pecado”, devemos convir que Deus não foi muito justo conosco, pois além de criá-lo ainda por cima coloca prazer no ato sexual, mas de “espada em punho” diz: Se fizer é pecado ou Se fizer é coisa impura. Absurdo teológico, que encontra campo fértil somente em cabeça de fanáticos, não de pessoas dadas a utilizar a inteligência, de que Deus dotou o raça humana.

Vejamos os argumentos de Pastorino:

A IMPOSIÇÃO DIVINA do uso do sexo para manutenção e multiplicação de Sua criação, nos diversos estágios evolutivos (plantas, animais e homens) vem provar que o sexo é SANTO. Não podemos admitir que Deus, Sábio e Bom, tivesse imposto obrigatoriamente as Suas criaturas uma condição que, ao cumpri-la, as tornasse imperfeitas. Se no ato sexual houvesse uma leve imperfeição sequer, ou um sinal de atraso espiritual, esse Deus seria monstruosamente mau, pois teria obrigado Sua criação a ser imperfeita e atrasada, a fim de manter e multiplicar Suas obras. Portanto, compreendendo o ato sexual em si e a maternidade como perfeições altamente espiritualizantes (porque são o cumprimento de uma Lei Divina), achamos que Maria se engrandece perante Deus com a maternidade normal, porque assim dá demonstração de ser fiel e obediente cumpridora da Vontade Divina. Compreendendo bem esse problema, o jesuíta padre Teilhard de Chardin atribui à sexualidade um sentido cósmico e afirma que o mundo não se diviniza por supressões, mas por sublimação, e ainda: que o homem e a mulher tanto mais se unirão a Deus, quanto mais se amarem, não vendo apenas o objetivo admirável mas transitório da reprodução, mas o de dar plena expansão à quantidade do amor, liberado do dever da reprodução. E diz claramente, sem subterfúgios: a mulher é, para o homem, o termo susceptível de impulsionar esse progresso para a frente. Pela mulher, e só pela mulher, pode o homem escapar ao isolamento, no qual sua própria perfeição se arriscaria prendê-lo. (L'énergie humaine, édition Seujl, pág. 93 a 96). Realmente a união sexual dentro do amor é a imagem mais fiel da união do homem com a Divindade, e por isso os místicos denominam essa unificação do homem com Deus de Esponsalício.

Na profecia de Isaías, o menino seria chamado , Himmanu-El, que significa Deus conosco, exprimindo a grande verdade de que Deus ESTA REALMENTE DENTRO DE NÓS, está CONOSCO.

A base teológica que usam para a defesa da virgindade perpétua de Maria é uma profecia atribuída ao profeta Isaías (7, 14) que diz: Eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel”. Essa profecia é tida como se fosse em relação à Jesus, assim sua mãe deveria ser uma virgem.

Vamos fazer uma análise dessa passagem para saber se realmente ela se refere a Jesus. Mas, antes temos que colocar o início do versículo para uma melhor compreensão da passagem, já que ele é sempre subtraído: Por isso, o Senhor mesmo vos dará um sinal, temos que concluir que Deus estava dando um sinal a alguém, mas quem e por que? Para saber vamos recorrer às informações constantes em nota de rodapé na Bíblia sobre esse episódio. Diz lá:

O reino do Norte (Efraim), cujo rei era Faceia, se aliou a Rason, rei de Aram, numa tentativa de se libertar do perigo assírio. Como o reino do Sul (Judá) não participou da coalizão entre o reino do Norte e Aram, estes dois temeram que Judá se tornasse aliado da Assíria; resolveram então atacar o reino do Sul, para destronar o rei Acaz e colocar no seu lugar o filho de Tabeel, rei de Tiro. Acaz teme o cerco e verifica a reserva de água da cidade. Isaías vai ao seu encontro e o tranqüiliza, mostrando que não haverá perigo, pois continua válida a promessa de que a dinastia de Davi será perene, desde que se coloque total confiança em Javé. O sinal prometido a Acaz é o seu próprio filho, do qual a rainha (a jovem) está grávida. Esse menino que está para nascer é o sinal de que Deus permanece no meio do seu povo (Emanuel = Deus conosco).

Assim, pelo contexto bíblico e de fato confirmado por essa nota, podemos observar que Deus promete um sinal ao rei Acaz e esse sinal é justamente o seu filho que está para nascer. Fora disso é distorcer a interpretação do texto. Além de que o fato é próximo e não uma previsão para um acontecimento num futuro longínquo, já que querem atribuir essa profecia a Jesus. E mais, o nome Jesus significa Deus é salvação, diferente de Emanuel (Deus conosco) que é o nome previsto na profecia, fato que o fanatismo cego não deixa muitos perceber.

Segundo a maioria dos estudiosos bíblicos, como um pouco antes, para exemplo, citamos Tourinho, o termo empregado é almah que significa Jovem mulher, não se trata, portanto, de virgindade no sentido físico.

Entendemos que algumas pessoas devem reformular o conceito que têm de moral, pois achar que a moral do homem está relacionada a seu órgão sexual é desvirtuar totalmente o significado dessa palavra. Ainda vamos mais longe, achamos que devemos passar por uma ampla revisão todos os conceitos teológicos do passado, já que muitos deles estão impregnados de um egoísmo eclesiástico incomum, onde verdades foram dobradas às conveniências religiosas que buscavam, a todo o custo, dominar a mente dos fiéis, quiçá era desejo dominar toda a humanidade. Intolerância, guerras, cruzadas, inquisição, etc. foram as armas utilizadas pelos religiosos do passado, apoiados pelos teólogos, para impor, a ferro e fogo, suas teorias completamente distorcidas dos ensinamentos de Cristo.

Novembro/2002

Bibliografia: