No Vestibular da Vida

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Dois estudantes entraram num cursinho de pré-vestibular. Desejavam fazer o vestibular para o Curso Engenharia Ultramoderno – CEU.

O primeiro a quem chamaremos de Estuda Muito era dedicado, embora ainda vivia às expensas do pai, procurava de todos os modos ser responsável. Voltado completamente para os estudos, passava longas horas do dia debruçado sobre seus livros buscando aprender cada vez mais.

Ao outro chamaremos de Estuda Nada. Era também dependente de seus pais para lhe custear os estudos. Entretanto não se dedica aos estudos, passava a maior parte de seu tempo entre uma farra e outra. Não se preocupava em levar nada a sério.

Bom, assim passou o ano. Quando finalmente é chegado o dia do vestibular. Estudo Muito e Estuda Nada lá foram para o local do exame, que demorou umas quatro horas. O exame estava dificílimo, pois todas as questões eram abertas, de tal modo que quem não tivesse conhecimento não passaria.

Realizadas as provas era só esperar o resultado. Divulgado esse se constatou que ambos passaram. De fato, e por incrível que pareça, todos os dois foram aprovados. Mas como os dois passaram? Ora, Estuda Muito já era de se esperar, mas quanto a Estuda Nada esse não tinha a menor chance, como então passou? É que ele era amigo do filho do Diretor da Faculdade e se aproveitando disso conseguiu com seu amigo um jeito de “passar” mesmo sem saber nada.

Essa é a nossa historinha. Vamos pensar um pouco sobre ela.

Faríamos uma pergunta: É justo que os dois venham a entrar no “CEU”? Tiveram o mesmo empenho, tinham o mesmo conhecimento? Se realmente formos tomar as coisas pelo lado da justiça absoluta somente Estuda Muito merecia passar, pois se dedicou e empenhou-se ao máximo nos estudos, deixando de fazer coisas próprias de sua idade, como festas, divertimento, lazer, até mesmo uma namorada não tinha, pois lhe faltava tempo para isso também. Assim como “só colhemos o que plantamos” ficaremos indignados pelo fato de Estuda Nada ter passado no vestibular e estar no mesmo lugar que Estuda Muito, sem que ele tenha feito o que esse fez.

É bem essa a visão que alguns têm a respeito do nosso destino final. Crêem que só por ter feito o cursinho, ou seja, ter se vinculado a uma determinada corrente religiosa, ou ser “amigo” do filho de Deus terão o direito de ir para o reino dos céus. Se assim for, como fica o “a cada um segundo as suas obras”? Sempre falamos, em alguma situação na vida: que fulano mereceu o justo castigo. Ora, por esse mesmo pensamento poderemos dizer também que o prêmio será justo para quem fez por merecê-lo, não é mesmo?

A conclusão que chegamos é que devemos urgentemente reformular nosso senso de justiça divina e entender em definitivo que nunca receberemos pelo que não fizemos por merecer. Por isso, só o fato de pertencermos a determinada corrente religiosa ou crermos em Jesus como Senhor e Salvador não representará nada no vestibular diante do tribunal divino, pois com certeza ele irá nos medir (quem sabe será pesar?) pelo que tenhamos feito a favor do nosso próximo, pois assim estaremos fazendo o que é necessário para quando chegar a hora do: “a cada um segundo suas obras”.

Abr/2001.