O Emprego

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Depois de um cansativo dia de trabalho Dr. Coração Mole conversava amistosamente, num barzinho próximo à sua indústria, com seu colega Dr. Coração Endurecido, proprietário de próspera empresa atacadista. Muito embora não fossem bacharéis, recebiam o título de Doutor apenas por ser um costume social esse tratamento que damos às pessoas ricas. Os dois possuíam tanto dinheiro que despesas de 10.000 dólares eram para eles apenas uns trocados.

Ao fundo um aparelho de TV ligado, passando o noticiário local. Estavam tão absortos na conversa que, a bem da verdade, não notaram nem o aparelho ligado. Só o perceberam quando o repórter passou a falar do caso de Aparecido dos Santos, pois para chamar a atenção do público anunciou: Funcionário de uma grande empresa rouba o patrão em cinco mil reais. Interessante o comportamento do ser humano somente quando passaram a noticiar coisa ruim é que tiveram a atenção despertada para o noticiário. Mostra-se a cena de Aparecido todo envergonhado dizendo ao repórter: Que trabalha na empresa há mais de 10 anos que aquele tempo todo nunca tinha feito nada que pudesse manchar sua reputação de funcionário exemplar. Entretanto como sua mãe sofrera um enfarto e não tendo dinheiro algum para pagar a cirurgia, num ato impensado resolveu tirar o dinheiro do cofre. Só que dias mais tarde seu patrão acabou descobrindo. Assim estava ele ali preso na delegacia aguardando o que iria acontecer com ele.

Da história de Aparecido dos Santos só ficamos sabendo até aqui, pois o dono do Bar mudou de canal para assistir a um jogo de futebol do time para o qual torcia.

Mas voltemos a nossa atenção à mesa onde os dois empresários se encontravam e passemos a escutar o que diziam.

- Veja Dr. Coração Mole, num caso como este eu mandaria prender este elemento até que ele me pagasse toda a dívida. Não teria a menor misericórdia deste ingrato funcionário é rua e cadeia, disse Dr. Coração Endurecido.

Interessante é que com o funcionário preso como ele iria pagar a dívida, pois sua única fonte de renda era o trabalho que acabara de perder?

Seu interlocutor parou alguns minutos para assimilar o que acabara de ouvir de seu colega, e por fim disse: - Pois meu caro Dr. Coração Endurecido, eu não agiria assim, mas diante das circunstâncias que levou o funcionário a cometer o roubo somente exigiria que me fosse devolvida a importância que ele tinha levado do cofre. Como é bem certo que não conseguiria pagar tudo de uma vez, dividiria sua dívida em suaves prestações mensais de modo que pudesse descontar em seu salário sem comprometer sua renda, pois com certeza deveria ter várias despesas já contratadas.

Aqui também se encerra a conversa dos dois, que regressaram ao lar para o descanso necessário.

Passado algum tempo, eis que na empresa de cada um destes empresários surge, na mesma época, uma vaga de auxiliar de escritório. Julgamos que você leitor tenha capacidade para preencher esta vaga. Assim lhe pergunto: Qual dos dois patrões você escolheria para trabalhar?

A empresa do Dr. Coração Mole. Puxa, que rapidez de resposta! Mesmo sem você ter pensado muito você tomou a decisão certa. É o que faríamos também.

Vejamos agora como seria se disséssemos que cada um destes dois empresários representa simbolicamente um Deus. E que de alguma forma lhe tivéssemos “roubado” algo importante. Qual deles iríamos escolher para nosso juiz? Com certeza o que representa a misericórdia, então seria o Dr. Coração Mole. Pois se nossa dívida for grande demais para pagá-la numa só vida, ele nos daria outras vidas para que tivéssemos a oportunidade de “pagar até o último ceitil”.

Mas o mais absurdo de tudo isso é que sempre colocamos Deus, a suprema e infinita misericórdia, com atitude semelhante à do Dr. Coração Endurecido, justamente o que não escolhemos para nosso juiz, pois dizemos que Ele irá nos colocar na prisão (inferno) numa condenação eterna sem as mínimas condições de pagar o que lhe devemos. Pense nisso.

Maio/2001.