O Espiritismo é o que afinal?

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Veja também: Pesquisa nas obras de Kardec

“A Ciência sem religião é manca. A religião sem a ciência é cega”. Albert Einstein

I - Introdução

Recentemente, fizemos um texto refutando um pequeno artigo que tentava demonstrar que o Espiritismo não era cristão. Sabemos que existem espíritas que não concordam com nossa opinião. E, percebemos, em nosso meio, que outros já se questionam se o Espiritismo é mesmo uma Religião.

Este assunto é grave, já que causa divergência no movimento Espírita, o que achamos fora de propósito. Deveríamos, isto sim, todos nós, concentrarmos os nossos argumentos contra os que de fora, repito de fora, querem denegrir o Espiritismo, atacando-o de todas as formas, usando até mesmo da difamação e da calunia.

Achamos que o melhor a se fazer seria uma pesquisa, para definirmos o assunto, já que não somos nenhuma autoridade em Espiritismo, e quem sabe, poderíamos realmente não estar com a razão, e é melhor confessar logo de uma vez que para nada sabermos falta-nos muito pouco. A única coisa que possuímos é um amor muito grande pela Causa Espírita, o que nos faz um defensor tenaz de seus princípios contra os nossos detratores, que mais parecem pacientes nos “últimos suspiros”, em busca do plantão de algum Hospital de Pronto Socorro, pois, a cada momento, aparece mais um. Entretanto aos que caminham conosco no movimento Espírita, tentamos ser o mais amáveis possível, digo tentamos, visto que diante de minha inferioridade, temos sempre que nos policiar, para não cometermos a indelicadeza de atacarmos a pessoa, em vez de apenas discordar de suas idéias.

Para chegar à conclusão de qual é o aspecto mais importante do Espiritismo, é necessário fazermos uma pequena comparação.

Suponhamos que alguém queira construir um edifício. Sabemos que inevitavelmente necessitará do engenheiro, do pedreiro, do servente, do armador, do carpinteiro, do bombeiro, do eletricista, do azulejista, e do pintor, se não esquecemos de nenhum. A construção será composta de algumas fases: Uma é a do lançamento da base, outra a de levantamento da parte estrutural (entijolamento, lajes, componentes hidráulicos e elétricos), e pelo menos mais uma, a do acabamento (piso e pintura). O profissional de engenharia representa a parte científica do projeto, é sumamente importante, mas só com ele, não teremos edifício algum. Precisará de todos os outros profissionais, que não possuem o conhecimento que ele como engenheiro tem, para ver, finalmente, seu projeto concluído. As fases representam o próprio desenvolvimento da execução do projeto que, embora não visíveis, são indispensáveis para se levantar o edifício, pois existe uma relação de interdependência entre elas. Se essa não existisse, um doido qualquer poderia querer iniciar a construção pelo telhado, o que inviabilizaria a execução do projeto.

É assim que vemos o Espiritismo, ou seja, qual um edifício, também necessitou do conhecimento científico, que aplicado nas várias fases de sua evolução, culminou com o que temos hoje como Corpo de Doutrina.

Devemos ter a capacidade de perceber que a parte científica do Espiritismo sozinha não leva a nada, pois, sem uma conseqüência prática, qual seria a sua utilidade? O que adianta provar cientificamente que o espírito sobrevive à morte do corpo físico, se daí nós não tiramos nenhuma aplicação para o nosso dia-a-dia? Seria a mesma coisa que um cientista descobrindo a vacina contra a AIDS, mas não a aplicasse em ninguém.

Por isso achamos que os que pensam que o Espiritismo é só Ciência, deveriam refletir sobre isso. E achamos, ainda, que eles, na verdade, não perceberam as fases de evolução que o Espiritismo passou, principalmente da do progresso da fase cientifica para a fase religiosa, tudo isso planejado e calculado pelos Espíritos Superiores.

Iremos demonstrar que em Kardec encontramos o desenvolvimento destas fases, conforme pudemos ver, quando da pesquisa na Revista Espírita. Aliás, diga-se de passagem, deveria ser lida por todos os Espíritas. Nela veremos um Kardec defensor ferrenho contra os inúmeros ataques que a Doutrina Espírita recebeu, nessa época inicial, já que ela provocou a ira do clero organizado. Quem sabe, com isso, mais pessoas iriam seguir o seu exemplo para defender o Espiritismo dos ataques insanos dos detratores.

II - O que é o Espiritismo afinal?

Tentaremos resolver as questões: O Espiritismo é Religião? É Cristão? Representa o Cristianismo? Nesse trabalho, resultado dessa pesquisa, nós vamos ver se, pelo que Kardec disse, podemos encontrar algo para, finalmente, tirarmos uma conclusão definitiva e clara sobre isso.

Assim, exporemos, a seguir, algumas questões, na esperança de serem suficientes para se chegar a uma conclusão sobre o pensamento de Kardec e dos Espíritos Superiores, os quais deram instruções durante a codificação. E esperamos que esse estudo possa ajudar a outras pessoas se esclarecerem sobre esse polêmico assunto entre nós Espíritas.

1 - O pensamento de Kardec

No período de 1857 a 1863, Kardec buscou realçar apenas a característica de ser uma ciência. Mas, não deixou, algumas vezes, de dizer que era uma ciência filosófica, que tinha, portanto, conseqüências de ordem moral.

Sem muita ênfase, dizia: “Todos aqueles que compreendessem verdadeiramente a essência do Espiritismo, deveriam praticar a caridade cristã, segundo os ensinos de Cristo”.

As bases em que o Espiritismo, segundo Kardec, estava se apoiando era nesta nova ciência. Não queria que ele fosse confundido como uma nova religião, embora reconhecesse que ele era um poderoso auxiliar da religião. Nas conseqüências morais do Espiritismo, via o sentimento do Cristianismo.

O interessante é que, ao procurar de todas as maneiras colocar em evidência seu aspecto de ciência, não o fazia sem razão, pois ao realçar a sua natureza cientifica queria atrair para ele os intelectuais, os pensadores, as pessoas de mente aberta, não se importando com qual fosse a religião que abraçavam. Várias vezes, ele enumerou pessoas de outras religiões na hoste Espírita.

Assim era proposital e deliberado não colocá-lo como uma nova religião, pois não via nele o que as religiões dogmáticas possuíam, como: culto, templos e ministros. E não via, também, misticismo algum, que era uma característica forte daqueles que professavam essas religiões. Ora, o Espiritismo vem exatamente lançar isso por terra, já que sob seu aspecto científico, estava longe, portanto, de qualquer idéia mística ou supersticiosa.

Dizia que, longe do Espiritismo ser antagonista das religiões, ele estava em todas elas.

Nesse período classificou os Espíritas em três categorias e, seguramente, ainda são válidas para os dias de hoje, apesar de quase um século e meio da Doutrina Espírita, quais sejam:

1) Espíritas Experimentadores – aqueles que só o viam como ciência de observação, sendo a filosofia e a moral para eles simples acessórios, com os quais não se preocupavam;

2) Espíritas Imperfeitos – reconheciam a importância filosófica, admiravam a moral dela decorrente, mas não a praticavam;

3) Espíritas Cristãos – seriam, segundo ele, os verdadeiros Espíritas, pois praticavam toda a moral espírita, e para eles a caridade era uma regra de conduta.

Em dezembro de 1863, referindo-se sobre a luta que o Espiritismo estava travando, para se implantar, disse que ele estava entrando numa nova fase, que seria o período religioso. Dizia isso porque já estava preparando o lançamento do livro “Imitação do Evangelho Segundo o Espiritismo”, cujo conteúdo era a explicação das máximas morais do Cristo. Acrescentando que: “Esta obra é para o uso de todo o mundo; cada um pode nele haurir os meios de conformar a sua conduta à moral do Cristo”, convidando, por isso, a todos os espíritas à prática do Evangelho.

A partir daí, a ênfase científica foi perdendo destaque, para ceder lugar ao aspecto religioso do Espiritismo. Não sem antes fazer uma ligação entre as duas fases, dizendo: “Se o acordo entre ciência e religião fosse impossível, não haveria religião possível”. Pregava a possibilidade e, até mesmo, a necessidade desse acordo: “A ciência e a religião são irmãs para a maior glória de Deus, e devem se completar uma pela outra, em lugar de se desmentir uma pela outra”. Para Kardec, o Espiritismo seria “o traço de união” que permitirá “a ciência e a religião se olharem face a face, uma sem rir e a outra sem temer”. Concluindo: “É pelo acordo da fé e da razão que ele conduz, cada dia, tantos incrédulos a Deus”.

Em junho de 1865, reafirma que: “O Espiritismo, que é o Cristianismo apropriado ao desenvolvimento da inteligência, e livre dos abusos, ligando-o ao Consolador prometido por Jesus”. Outra afirmação de Kardec digna de nota é a que disse em abril de 1866: “Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a suprema lei do Cristo, abrimos o caminho para o Espiritismo Cristão, e fomos instituídos, pois, em desenvolver-lhe os princípios, assim como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista”.

Entendemos, finalmente, Kardec, quando do seu discurso de abertura na Sociedade de Paris, feito no dia 1º de novembro de 1868, dia consagrado aos mortos, em que ele disse: “Se assim é, dir-se-á, o Espiritismo é, pois, uma religião? Pois bem, sim! sem dúvida, Senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e disto nos glorificamos, porque é a doutrina que fundamenta os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as bases mais sólidas; as próprias leis da Natureza”.

Por que, pois, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Pela razão de que não há senão uma palavra para expressar duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; que ela desperta exclusivamente uma idéia de forma, e que o Espiritismo não a tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria nele senão uma nova edição, uma variante, se assim nos quisermos expressar, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com um cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo, e dos abusos contra os quais a opinião freqüentemente é levantada”.

“O Espiritismo, não tendo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não se poderia, nem deveria se ornar de um título sobre o valor do qual, inevitavelmente, seria desprezado; eis porque ele se diz simplesmente: doutrina filosófica e moral”.

Assim, quando disse que não era uma nova religião, é porque não queria que fosse mais uma religião nos moldes das que já existiam. Queria, isto sim, separar o Espiritismo do conceito tradicional de religião. Fora isso, Kardec diz abertamente que o Espiritismo é uma Religião.

2 - O Pensamento dos Espíritos Superiores

Até aqui nós só procuramos mostrar o pensamento de Kardec. Entretanto, para ficar bem claro a que se propõe pelo Espiritismo, iremos citar parte de algumas comunicações dos espíritos que, na Codificação, falaram sobre o assunto.

1ª) Comunicação do Espírito Louis de France: “O Espiritismo é uma ciência essencialmente moral; ...o Espiritismo não é outra coisa senão a aplicação verdadeira dos princípios da moral ensinada por Jesus, ...Ele vem, como o Cristianismo bem compreendido, mostrar ao homem a absoluta necessidade de sua renovação interior ...” (RE – 1866 – pg. 158/60)

2ª) Comunicação de Lacordaire: ...uma multidão de Espíritos de todas as ordens, sob a direção do Espírito de Verdade, veio ...revelar as leis do mundo espiritual, das quais Jesus havia adiado o ensinamento, e lançar, pelo Espiritismo, os fundamentos da nova ordem social. (RE – 1868 – pg. 47).

3ª) Comunicação de São Luís: “...a Doutrina hoje está bem colocada sob o aspecto moral e religioso. ...O Espiritismo entra ...numa nova fase; ...A caridade, sua base inabalável, ...” (RE – 1868 – pg. 56/7).

4ª) Comunicação recebida em 15/04/1860, Um Espírito: “O Futuro do Espiritismo: ...será ele que reformará a legislação tão freqüentemente contrária às leis divinas; será ele que reconduzirá a religião do Cristo ...instituirá a verdadeira religião...” (OP – pg. 289).

5ª) Comunicação de 09/08/1863, em referência especial ao Livro E.S.E.: “Eis que a hora se aproxima em que será preciso declarar abertamente o Espiritismo por aquilo que ele é, e mostrar a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo; a hora se aproxima em que, diante do céu e da Terra, deverás proclamar o Espiritismo como a única tradição realmente cristã, a única instituição verdadeiramente divina e humana. Escolhendo-te, os Espíritos sabiam da solidez de tuas convicções, e que a tua fé, como uma muralha de bronze, resistiria a todos os ataques”. (OP – pg. 298).

III – Conclusão

Outra coisa importante que queremos destacar é que, segundo os próprios espíritos, quem presidia e coordenava todas as comunicações dadas pelos outros espíritos era o guia de Kardec, que se identificou como ESPÍRITO DE VERDADE. Mas, quem realmente assinava este nome? No E.S.E., capítulo O Consolador, nas instruções dos Espíritos, existem quatro comunicações assinadas pelo ESPÍRITO DE VERDADE. Por outro lado, a primeira delas é a comunicação IX que consta do livro dos Médiuns, capítulo XXXI. Nela não há nenhuma assinatura, entretanto, sobre isso Kardec coloca a seguinte nota:

“Esta comunicação, obtida por um dos melhores médiuns da Sociedade Espírita de Paris, está assinada por um nome que o respeito não nos permite reproduzir senão sob todas as reversas, tão grande seria o insigne favor da sua autenticidade, e porque, muito freqüentemente, dele se abusou nas comunicações evidentemente apócrifas; esse nome é o de Jesus de Nazaré. Não duvidamos, de nenhum modo, que não possa se manifestar; mas se os Espíritos verdadeiramente superiores não o fazem senão em circunstâncias excepcionais, a razão nos proíbe crer que o Espírito puro por excelência responda ao apelo de qualquer um; haveria, em todos os casos, profanação em lhe atribuir uma linguagem indigna dele”.

“Por essas considerações, é que sempre nos abstivemos de publicar algo que levasse esse nome; e cremos que não se poderia ser mais circunspecto nas publicações desse gênero, que não têm autenticidade senão pelo amor-próprio, e cujo menor, inconveniente é o de fornecer armas aos adversários do Espiritismo”. (LM – pg. 423).

Assim, pois, sendo as duas a mesma comunicação, e que, na do Livro dos Médiuns, Kardec diz ter sido assinada por Jesus, concluímos, s.m.j., que Ele era o Espírito que assinava como sendo o ESPÍRITO DE VERDADE.

Se essa conclusão estiver correta, agora sem mais nenhuma sombra de dúvida, podemos afirmar que, apesar do seu aspecto científico, O Espiritismo é Religião e, considerando a conclusão sobre quem é o ESPIRITO DE VERDADE, temos mais um forte argumento para afirmar categoricamente que O Espiritismo é Cristão e que O Espiritismo é o Cristianismo, na sua expressão mais sublime, visto que o próprio Cristo veio trazer novamente à Humanidade seus ensinamentos esquecidos por uns, deturpados por outros, e comercializados por muitos.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Jan/2002.

Notas Bibliográficas:

1 – Citações de Allan Kardec podemos encontrar: RE – 1858 – pg. 2, 3, 204 e 301; RE – 1859 – pg. 5 e 136; RE – 1860 – pg. 1, 5, 293/4, 300 e 366; RE – 1861 – pg. 132, 136/7, 301, 303, 341/2, 343, 375/6 e 376/7; RE – 1862 – 264, 276 e 278; RE – 1863 – pp. 379; RE – 1864 – pg. 97/9, 106/7 e 204; RE – 1865 – pg. 93 e 188; RE – 1866 – pg. 113/4; RE – 1867 – pg. 271 e RE – 1868 – pg 354-62.

2 – Referências ao Espírito de Verdade: RE – 1861 – pg. 305, 348 e 356 e OP – pg. 299.

3 – Livros consultados: RE= Revista Espírita, Allan Kardec, IDE, Araras, SP, vol. I a XI; OP= Obras Póstumas, Allan Kardec, IDE, Araras, SP e LM= Livro dos Médiuns, Allan Kardec, IDE, Araras, SP.