O Evangelho Condena o Espiritismo?

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Sempre acompanhamos a coluna de Carlos de Brito Imbassahy, Qual é a Dúvida?, no Jornal Espírita, editado pela FEESP, onde podemos esclarecer dúvidas que sempre temos. Na edição de nº 302, mês outubro de 2000, lemos sua resposta a um leitor que lhe questiona a propósito das provas que possam existir no Evangelho sobre a condenação de princípios da Doutrina Espírita.

O colunista apresenta uma relação que lhe foi oferecida por um pastor seu amigo. Nela constam as seguintes passagens:

Condenação do Espiritismo

Atos 16, 16 a 18 = Gál. 5: 19 a 21 = Rev. 21: 8 e 22:15.

Ressurreição e condenando a reencarnação

João 5: 28, 29 e 11:25 = I Co 15:40 e 20 a 25 = Fil 3:20, 21 = Atos 17:31 = Mat 12: 31, 32 = Rom 5:19 + Rev 20:4 e 5:13 e 21:34.

Salvação pela fé em Jesus

Atos 4:12 + Luc 13:24 = I Tim 4:10 = I João 4:9 e 14 = Tiag 20:14 e 26 = Rom 6, 23.

Completa: “Segundo este meu amigo, o Espiritismo não tem amparo nenhum no Novo Testamento e mais, a palavra de Jesus, segundo ele, contida nos textos acima citados, provam que o Espiritismo é condenado pelo Mestre”.

É interessante como tentam de todas as maneiras colocar o Espiritismo como sendo proibido ou condenado pela Bíblia. Nesse, em particular, chamou-nos a atenção por ser, até então, o único que encontramos que não busca a nossa condenação no Antigo Testamento. É louvável, pois parece, realmente, que o autor dessas citações compreendeu bem o que Jesus queria dizer, quando, na narrativa de Mateus 9, 16-17, disse: “Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas, põe-se vinho nove em odres novos, e ambos se conservam”.

Entretanto, não consegue ainda separar nos textos o que é verdadeiramente de Jesus e o que é apenas opinião dos diversos autores que constam do Novo Testamento. Dizemos isso, pois não podemos admitir como verdade nada que venha a ser contrário ao que Ele tenha dito, pouco nos importando qual seja a fonte. Até porque, devemos seguir o que disse: “O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu senhor”, conforme citado em Mateus 10, 24.

Não podemos deixar de falar também como, em alguns casos, mudam completamente o sentido do texto sagrado, procurando, sempre, adaptá-los às suas convicções ou dogmas, apesar da advertência clara que encontramos em 2 Pedro 3, 16: “Ao falar acerca destes assuntos, como de fato costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas cousas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles”.

Assim, no decorrer deste estudo, vamos mostrar como certas citações são contraditórias ao que Jesus nos passou e como algumas interpretações que querem dar aos textos não condizem com o seu real sentido. Infelizmente notamos que são apegados demais à letra, outras vezes não buscam o contexto, agindo com o espírito preconcebido, arraigados aos dogmas que lhes são impostos.

Vamos fazer nossos contra-argumentos por partes, utilizando os textos citados.

Condenação do Espiritismo

Atos 16, 16-18: Aconteceu que, indo nós para o lugar de oração, nos saiu ao encontro uma jovem possessa de espírito de adivinhador, a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus senhores. Seguindo a Paulo e a nós, clamava, dizendo: Estes homens são servos do Deus Altíssimo, e vos anunciam o caminho da salvação. Isto se repetia por muitos dias. Então Paulo, já indignado, voltando-se, disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando: Retire dela. E ele na mesma hora saiu.

Nessa passagem não existe nenhuma condenação feita por Jesus ao Espiritismo. O que vemos, e não há como negar, é que Paulo após ser importunado diversas vezes por uma jovem que estava possessa de espírito adivinhador fica indignado, por isso resolve, num determinado momento, livrar a jovem de tal possessão, para que também pudesse realizar sua tarefa sem ser amolado. Sabemos que nos casos de possessão o espírito exerce uma tal subjugação que, a grosso modo, impõe a sua vontade à daquele sobre o qual domina. Nesse caso, a pobre jovem não tinha nenhuma culpa nos atos que fazia, sua única culpa, conforme sabemos, é por ter ficado na mesma faixa vibracional que o espírito, assim lhe deu as condições necessárias para que a ligação entre dos dois se consumasse. Por outro lado, é uma situação que existe desde que o homem entrou no mundo, não sendo, portanto, a possessão algo que somente acontece na Doutrina Espírita, a vemos acontecer em todos os seguimentos religiosos, muito embora, revestida com outro nome, é a tal da possessão demoníaca. E não há, aqui na terra, quem possa proibir que isso aconteça, pois se encontra dentro das leis naturais. Temos é que fazer como Paulo fez, ou seja, promover a libertação daqueles que se encontram sob a influência desses espíritos inferiores, é o que também fazer, até mesmo por caridade ao nosso próximo.

Não podemos deixar de falar que a jovem, mesmo possessa, estava sendo usada por alguém que lhe explorava, fazendo que o espírito adivinhador fosse consultado proporcionando-lhe lucros. Mas, em qualquer caso isso não tem nada a ver com a Doutrina Espírita, são praticas que absolutamente não fazemos, embora vejamos muitas pessoas quererem, a todo custo, atribuir-nos tais coisas, é pura distorção dos fatos.

Por outro lado, se a comunicação com os mortos fosse mesmo condenada por Jesus, não teria sentido algum ele próprio fazer o que estava condenando. Como pode ser isto? Vejamos, então:

Mateus 17, 1-3: Seis dias depois, toma Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João, e os leva, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele.

Nessa passagem, é bem claro, que Jesus estava conversando com os espíritos Moisés e Elias, tendo como testemunhas Pedro, Tiago e João. Como vemos que Ele nunca se contradisse em nenhum dos seus ensinamentos, por que somente nesta questão estaria se contradizendo? Concluímos, então, que agora estava era justamente sancionando o intercambio com os ditos mortos, vivos em espírito, mostrando qual a maneira correta de se fazer.

Gálatas 5, 19-21: Ora, as obras da carne são conhecidas, e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias, e cousas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já outrora vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais cousas praticam.

Apocalipse 21, 8: Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.Apocalipse 22, 15: Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras, e todo aquele que ama e pratica mentira.

Não falamos de que alguns textos são interpretados segundo a conveniência dogmática de determinadas pessoas, não tendo, portanto, nenhum fundamento. Os textos acima, por exemplo, não possuem nada com Jesus condenando o Espiritismo. Vemos é Paulo e João dizer que entre outras coisas condenáveis está a feitiçaria, que parece ser a única entre estas condenações que pode ser confundida com Espiritismo. Mas esta confusão é dos que nada conhecem de Espiritismo, muitas vezes, apenas, repetem o que outros lhe passaram por puro fanatismo religioso.

Por outro lado, se querem mesmo herdar o reino de Deus deveriam seguir a orientação de Paulo aos Gálatas deixando de fazer inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções contra qualquer outra corrente religiosa, principalmente contra a Doutrina Espírita, que tem um enorme respeito por todas elas.

Ressurreição e condenação à reencarnação

João 5, 28-29: Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: e os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo.

João 11, 25: Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá;

Esses textos sim, são realmente palavras de Jesus entretanto, se aqui entendermos que Ele estava falando contra a reencarnação, temos que convir que estaria contradizendo a si mesmo e até contrário ao que pensava o povo, vejamos, então as passagens:

Mateus 11, 11-15: Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir. Quem tem ouvidos (para ouvir) ouça.

Mateus 17, 9-12: E, descendo eles do monte, ordenou-lhes Jesus: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do homem ressuscite dentre os mortos. Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? Então Jesus respondeu: De fato Elias virá e restaurará todas as cousas. Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram, antes fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do homem há de padecer nas mãos deles.

Mateus 16, 13-14: Indo Jesus para as bandas de Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser o Filho do homem? E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias, ou algum dos profetas.

Não vemos claramente Jesus dizer que João Batista era o Elias que estava para vir, ou seja, João era o Elias reencarnado. Observamos que inclusive esse era o pensamento do povo, que acreditava que um morto pudesse voltar a vida em outro corpo, se assim não fosse Jesus, não poderia ser, como pensavam, ou João Batista, ou Elias, ou Jeremias ou algum dos profetas.

Assim devemos buscar outro sentido para os dois textos anteriores. É certo que todos nós seremos julgados pelos atos que tenhamos praticado, quando na carne, quer bons ou maus. Então figuradamente sairemos do túmulo para este julgamento. E “o ainda que morra, viverá” é porque não morreremos, pois somos, na verdade, espíritos eternos, somente existindo a morte para o nosso corpo físico.

1 Coríntios 15, 40: Também há corpos celestiais e corpos terrestres; e, sem dúvida, uma é a glória dos celestiais e outra a dos terrestres.

1 Coríntios 15, 20-25: Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como em Adão todos morreram, assim também todos serão vivificados em Cristo. Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua vinda. E então virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés.

Passagens onde Paulo dá orientações aos Coríntios, não sendo, portanto, um ensinamento de Jesus. Sabemos que nosso corpo espiritual é muito diferente do nosso corpo físico, é um fato, foi o que percebeu Paulo. Não devemos ter dúvida alguma que para cada situação que Deus nos coloca, receberemos um corpo apropriado àquele meio em que iremos viver. Observem aqui na Terra, como nossos corpos possuem diferenças conforme o meio em que vivemos, ou seja, na água, na terra e no ar. Quanto à questão de a morte ter vindo por um homem, não podemos concordar com este absurdo, pois estaríamos dizendo que também a morte dos animais entrou no mundo por causa do pecado de Adão. Não condiz com “a cada um segundo suas obras” conforme afirmativa de Jesus.

Uma coisa é certa: o que terá fim aqui na terra é a maldade do homem, depois disso o reino de Deus estará estabelecido. Não existem inimigos de Deus, somente aqueles que ainda não o compreenderam, o que não quer dizer necessariamente inimigos, apenas seriam aos olhos dos ignorantes.

Filipenses 3, 20-21: Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as cousas.

Onde aqui está a condenação à reencarnação? “A nossa pátria está nos céus”, é interessante isso que Paulo diz, pois é exatamente o que a Doutrina Espírita vem confirmar, que na realidade todos nós viemos do mundo espiritual e para lá voltaremos depois da morte, que a nossa verdadeira pátria é o plano espiritual, simbolicamente “os céus”. Nela retomaremos o nosso corpo espiritual, esse corpo sem humilhação de que fala Paulo.

Atos 17, 31: Porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos.

Pelo que já expomos, não sentimos necessidade de falar sobre este item, pois estaríamos apenas repetindo argumentos já colocados.

Mateus 12, 31-32: Por isso vos declaro: Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-á isso perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir.

Não sei de onde tiram que nessa passagem existe condenação à reencarnação, por mais que tenhamos nos esforçados, não vimos nada neste sentido.

Romanos 5, 19: Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos serão feitos justos.

Apocalipse 20, 4: Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo por mil anos.

Apocalipse 5, 13: Então ouvi que toda a criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos.

Apocalipse 21,34: (???) Este capítulo só vai até versículo 27.

Na carta de Paulo aos romanos, de certa forma repete o que diz aos coríntios quanto ao pecado de Adão. Especificamente quanto ao Apocalipse, não temos nada a dizer, pois tais textos, são para nós tão confusos que qualquer coisa que fossemos dizer poderia parecer ridículo. Entretanto, achamos que somente o próprio autor poderia nos passar o que quis dizer com aquela linguagem mística e simbólica que nos trás em sua revelação.

Salvação pela fé em Jesus

Atos 4, 12: E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa ser sejamos salvos.

Lucas 13, 24: Respondeu-lhes: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão”.

Se aceitarmos que somente pela fé estamos salvos estaremos sendo contrários ao que Jesus ensinou, conforme as seguintes passagens, que também servem como argumento aos outros itens:

Mateus 16, 27: Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um conforme as suas obras.

Conforme já citamos várias vezes, a retribuição de cada um será conforme as obras que tenha praticado.

Mateus 25, 31-46: Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda; então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e fostes ver-me. Então perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te damos de comer? ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então o Rei dirá também ao que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me. E eles lhe perguntarão: Senhor quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso, e não te assistimos? Então lhes responderá: Em verdade vos digo que sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer. E irão estes para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna.

Os que foram para a direita foram os que tiveram fé, ou somente aqueles que ajudaram ao próximo? Não podemos distorcer os textos à nossa conveniência, temos dito. Os justos, ou seja, os que conquistaram sua evolução espiritual vivem na vida eterna, não mais necessitando de reencarnar.

Lucas 10, 25-37: E eis que certo homem, intérprete da lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus em provas, e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então Jesus lhe perguntou; Que está escrito na lei? Como interpretas? A isto ele respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Então Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto, e viverás. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó, e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chagando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem e, se alguma cousa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então lhe disse; Vai, e procede tu de igual modo.

O sacerdote e o levita representam todos os que se encontram à frente dos segmentos religiosos que mesmo conhecendo o que consta do Evangelho de Jesus não o coloca em prática, ou seja, não exercem o amor ao próximo através da caridade. Já o samaritano é o símbolo de todos aqueles que mesmo sem pertencerem a nenhuma das religiões organizadas pratica a caridade, seguindo, mesmo sem saber, os ensinos de Jesus. Qual deles Jesus nos oferece como exemplo a ser seguido? Foram os de fé ou o de ação? A conclusão é por demais óbvia, não foram os de fé.

Mateus 7, 21-29: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade. Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína. Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas.

Novamente estamos diante da prática da caridade como aquilo que devemos fazer para merecer o reino dos céus.

Fica até incisivo a lição de Jesus acerca do que realmente nos salva. Em nenhuma das passagens acima fala que é a fé, muito antes, pelo contrário deixa taxativo ser as obras de caridade que tenhamos feito ao nosso semelhante. Qualquer ensinamento, venha de onde vier, fora disso é contrário ao que Jesus ensina.

1 Timóteo 4, 10: Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis.

Não vemos nesta passagem que é a fé que salva. Deus não pode ser o nosso Salvador, pois tiraria o nosso mérito. O que em realidade acontece é que ele fornece a todos nós os meios de nos salvarmos. Como é justo este meio, deverá ser um que todos nós indistintamente podemos fazer. Vejam que somente a caridade é algo que todos podem fazer, mesmo aqueles que são ateus – não é o caso do bom samaritano? A fé ao contrário, os que não conhecem o Deus verdadeiro, poderão estar adorando um deus qualquer, estariam assim desprovido de fé nEle.

1 João 4, 9: Nisto se manifesta o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele.

1 João 4, 14: E nós temos visto e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo.

A questão da salvação de maneira fácil, somente por crer, aceitar ou ter fé, é contrária, conforme já cansamos de dizer, ao: “a cada um segundo suas obras”, então porque ainda insistem nesse absurdo? Entretanto, este não parece ser o pensamento de Tiago, ele conforme veremos, dizia que a fé sem obras é morta. Vamos, então à sua narrativa:

Tiago 2, 14-18 e 26: Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa, e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos, e fartai-vos, sem, contudo, lhes dardes o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim também a fé, se não tiver obras, por si só esta morta. Mas alguém dirá: Tu tens fé e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. Porque assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.

Mas, ao lemos Paulo, notamos que ele ora fala que é a fé, ora que é o amor, esse se manifestando na ajuda que damos aos necessitados, vejamos:

Romanos 5, 1: Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.

Romanos 10, 9: Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração credes que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.

1 Coríntios 13, 1-13: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então o que é em partes será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das cousas próprias de menino. Porque agora vemos como em espelho obscuramente, então veremos face a face; agora conheço em parte, então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três: porém o maior destes é o amor.

Tiago 20, 14 e 26: (???)

Não existe este capítulo, pois esta carta vai somente até capítulo 5.

Romanos 6, 23: Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Não podemos censurar os que ainda acreditam que a morte veio ao mundo porque Adão pecou. Para nós é ilógico, pois vemos tudo, na natureza em nossa volta, passar pelo ciclo nascer-viver-morrer, nada mesmo escapa de tal lei. Assim a morte do homem nada mais é que aplicação desta lei, não sendo, portanto castigo de Deus. Tenhamos que convir que aos homens era necessário dar uma explicação para a morte, daí inventaram esta lenda do pecado de Adão e Eva para que ele aceitasse a morte mais naturalmente. Temos, por lógica, aceitar que é uma lenda, pois não poderemos acreditar que um simples ato de comer uma fruta tenha provocado tamanho disparate, até porque é de se estranhar que tenha existido alguma árvore que ao comermos de seu fruto passamos a ter conhecimento do bem e do mal.

Conclusão

Provamos que Jesus nunca condenou o Espiritismo, buscando para nossa sustentação os textos do Evangelho. Mas se a Doutrina Espírita ainda incomodar a alguém, usaremos em nossa defesa as palavras de Gamaliel, mestre da lei, quando no Sinédrio advogou a favor de Pedro e os demais apóstolos, dizendo: “Daí de mão a estes homens, deixai-os; porque se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus”, conforme Atos 5, 38-39.

Outubro/2000.

Bibliografia: