O Sacrifício vicário

Paulo da Silva Neto Sobrinho

A família Nogueira, vivia num pequeno vilarejo, perto de um grande centro urbano, mudara-se para lá há muito tempo, fugindo dos problemas da cidade grande. Helena, já viúva, morava com seus três filhos, fruto do seu feliz casamento. Enviuvara-se fazia uns dez anos. Isso aconteceu após um desastre de avião, que vitimou seu marido e toda a tripulação do pequeno bimotor. Após esse tempo, sentia-se mais conformada com a situação, pois, na trágica viagem, era para ter dizimado toda sua família, entretanto, naquele dia, por ter acordado muito indisposta, resolveu não ir, e achou melhor que seus filhos também não fossem, para ficarem sem sua companhia.

Apesar de ser uma mulher trabalhadora, dependia muito de seus filhos para administrar os bens da família. Seu marido foi um próspero industrial, cujo patrimônio o colocara entre os homens mais ricos de seu país, herança essa que agora teria que ser administrada por ela e seus filhos.

Dos filhos, somente Roberto, o mais velho, assumiu o encargo de ajudar a mãe. Era extremamente dedicado, trabalhava doze horas ou mais por dia, cuidando dos negócios da família. Ao contrário dos outros dois, Cristiano e Roger, que não queriam nada com a “dureza”, passavam o dia inteiro malandrando. Eram dos tais que diziam que “sonhar com trabalho” não era sonho, era pesadelo. Tinham mesa cativa num barzinho da cidade, onde, junto com os “amigos”, ficavam quase o dia inteiro entre “um gole e outro”, e, pelos boatos, já estariam iniciados nas drogas.

Mas o destino, esse destino cruel que sempre nos pega peças, trouxe, a cada um dos dois irmãos, inimigos declarados do trabalho, uma doença fatal. Cristiano, necessitava urgente de um transplante de coração, sob risco de não sobreviver por nem mais um mês. Roger, por sua vez, com problemas renais, também não tinha nenhuma perspectiva de vida longa para o seu futuro, a não ser que encontrasse um doador compatível.

Imaginem agora como estava o coração de Helena, a mãe amorosa, desses jovens.

Tomou uma decisão que parecerá muito estranha, mas ela queria resolver, de uma vez por todas, o problema de saúde de Cristiano e Roger, assim determinou aos médicos que retirassem o coração e os rins de Roberto para salvar a vida dos outros dois filhos. É isso mesmo! Iria sacrificar um dos filhos para salvar os outros dois.

Já até sabemos o que você está pensando, “que coisa maluca” é essa que está nos contando? Como uma mãe iria sacrificar um filho mesmo que fosse para salvar vários outros? Isso é inconcebível, só doido proporia uma coisa dessas.

É claro que concordamos com você, caro leitor, mas diremos que não perdemos o juízo, pelo menos “ainda” não. Se existe alguém pinel nessa história, só pode ser muitos dos que nos lêem. Espere, não apelamos não, quer ver porque dizemos isso? Tá bom, vamos lá.

É aceito por muitos, que não uma mãe, mas um pai tenha sacrificado um filho para salvar outros, muitos dos quais nem mesmo querem ser salvos? De onde tiramos isso? Ora, não é o que a maioria diz de Deus, em relação a Jesus? Não é exatamente isso que dizem que Deus fez? Como sacrificar um filho para salvar outros que não querem nada com a dureza, que se comportam egoisticamente, não se preocupam em melhorar-se? Como sacrificar alguém em favor de muitos criminosos, estupradores, corruptos, pervertidos sexuais, ladrões e inúmeros outros que não dão a mínima para valores morais?

Deixamos, a cada um de vocês, caro leitor, a resposta aos questionamentos acima.

Maio/2003.

(Adaptação da fala do orador Espírita José Raul Teixeira, no programa Plenitude de 27/04/2003).