“Ouça quem tem ouvidos de ouvir”

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Assistimos, ontem, dia 23/01/2000 no programa “Fantástico” a reportagem com o Pe. Quevedo. O tema foi a transcomunicação instrumental, onde o pesquisador Clovis Nunes mostrou algumas imagens de espíritos obtidas por meio da TV. Ao que o Pe. Quevedo disse ser apenas fotografia de pensamento.

Notamos que a certa altura ele disse, senão textualmente, algo próximo disto: “O espírito sem o corpo físico não pode se manifestar”. Achamos muito estranho esta afirmativa partindo de um padre, pois todos eles têm a Bíblia como verdade insofismável, e nela com certeza vemos que os espíritos de quem já morreu se comunicam com os vivos. Há uns tempos atrás fiz um artigo, que reproduzo algumas partes:

Os mortos voltam para se comunicarem com os vivos?

O programa “Você Decide”, da Rede Globo de Televisão, realizado no dia 26.05.1994, teve como tema central: “Se o testemunho de um morto poderia ser aceito num tribunal”. Com o desenrolar do programa ficou bem nítido que a questão fundamental era na verdade se um morto poderia se comunicar com os vivos.

Ao final do programa o resultado apurado foi:

Sim 48.359 69%
Não 21.926 31%

Observamos que a grande maioria das pessoas acredita na possibilidade da comunicação dos “mortos” com os vivos.

Se uma pessoa disser que não acredita de forma alguma que os “mortos” se comunicam com os vivos não me importaria, pois muitas vezes a falta de conhecimento, o misticismo, o medo, os princípios religiosos que abraça, podem tolher a visão de modo que não consegue enxergar a verdade, por mais óbvia que seja. Um exemplo, não muito longe de nosso tempo, foi quando Galileu Galilei vinha, com uma nova teoria, dizer que a Terra não era o centro do Universo, quase lhe custou a vida numa fogueira.

O que não posso aceitar são as afirmações de que na Bíblia não tem, ou seja, que a comunicação dos mortos não se encontra no Livro Sagrado, e se não tem, isto não pode acontecer. Para estas pessoas só poderemos dizer que não possuem nenhum conhecimento da Bíblia ou que apenas conhecem alguma parte dela, mas não conhecem o conjunto, é que a visão do conjunto muitas vezes nos leva à compreensão de uma verdade que não aparece num simples enunciado.

Um telespectador é o exemplo do que falo, cita: “Que Paulo disse que somente morremos uma vez; que iremos aguardar o juízo final.”

Analisando estas citações vamos ver se isoladas têm sentido. Se aceitarmos que somente morremos uma vez chegaríamos à conclusão que Jesus e os apóstolos não poderiam ter ressuscitado ninguém, pois se isto acontecesse, para estas pessoas, haveria duas mortes, o que seria contrário à citação. Mas o verdadeiro sentido é de que neste corpo físico somente morreremos uma vez e em definitivo.

E, finalmente, vamos agora buscar dentro das Escrituras algumas passagens que podem sustentar ou evidenciar a comunicação com os mortos. A mais evidente do Novo Testamento, fora as que narram Jesus entre nós depois que havia morrido, é a narrada por Mateus (17, 1-4): “Seis dias depois, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou a um lugar à parte, sobre um alto monte. Transfigurou-se diante deles: seu rosto brilhava como o sol e sua roupa tornou-se branca como a luz. Então lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com Ele. Pedro interveio, dizendo a Jesus: “Senhor, como é bom estarmos aqui! Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.” Trata-se de um fenômeno de materialização, onde os espíritos de Moisés e Elias apareceram a Jesus, Pedro, Tiago e João. Repetimos espíritos, pois Moisés e Elias já haviam morrido, e nesta passagem é relatada a comunicação deles, pois conforme fala Mateus, estavam estes espíritos conversando com Jesus.

Em Atos 16, 16-18: “Certa vez, enquanto nos dirigíamos para o lugar de oração, veio ao nosso encontro uma jovem criada, que possuía um espírito adivinhador. Com suas adivinhações, ela conseguia muito lucro aos seus senhores. Ela começou a seguir Paulo e a nós, gritando: “Estes homens são servidores do Deus Altíssimo; eles vos ensinam o caminho da salvação.” E assim procedeu por muitos dias. Finalmente Paulo, aborrecido, virou-se para ela e disse ao espírito: “em nome de Jesus Cristo, eu te ordeno que saias dela.” E ele saiu no mesmo instante.” Paulo na ordem que deu ao espírito para que saísse daquela moça estava, na verdade, se comunicando com este espírito, que há algum tempo vinha lhe elogiando, que para isto se utilizava do corpo da moça, o que vulgarmente se chamaria de incorporação.

Em Atos 8, 26-29: “O anjo do Senhor dirigiu a Filipe estas palavras: “Tu irás rumo ao Sul, pela estrada que desce de Jerusalém a Gaza. Ela está deserta.” Filipe partiu imediatamente. Ora, vinha chegando um etíope, eunuco e alto funcionário da corte de Candace, rainha da Etiópia que lhe tinha entregue a guarda de todos os seus tesouros. Ele tinha ido a Jerusalém adorar a Deus. Agora voltava, lendo o profeta Isaias, sentado em sua carruagem. O Espírito disse a Filipe: “Aproxima-te e acompanha essa carruagem.” Mais uma comunicação, onde um espírito orienta a Filipe sobre como ele deveria agir.

E para que não reste mais nenhuma dúvida sobre a comunicação dos mortos com os vivos, vamos agora ver no Antigo Testamento. A passagem é bem nítida sobre a comunicação dos mortos. Iremos então ler em I Samuel 28, 7-20: “O rei disse aos seus servos: “Procurai-me uma necromante para que eu a consulte.” – “Há uma em Endor”, responderam-lhe. Saul disfarçou-se, tomou outras vestes e pôs-se a caminho com dois homens. Chegaram à noite à casa da mulher. Saul disse-lhe: “Predize-me o futuro, evocando um morto; faze-me vir aquele que eu te designar.” Respondeu-lhe a mulher: “Tu bem sabes o que fez Saul, como expulsou da terra os necromantes e os adivinhos. Por que me armas ciladas para matar-me? Saul, porém, jurou-lhe pelo Senhor: “Por Deus, disse ele, não te acontecerá mal algum por causa disto.” Disse-lhe então a mulher: “A quem evocarei?” – “Evoca-me Samuel.” E a mulher, tendo visto Samuel, soltou um grande grito: “Por que me enganaste?” – Disse ela ao rei. “Tu és Saul!” E o rei: “Não temas! Que vês? – A mulher: “Vejo um deus que sobe da terra” – “Qual é o seu aspecto?” – “É um ancião, envolto num manto.” – Saul compreendeu que era Samuel, e prostrou-se com o rosto por terra. Samuel disse ao rei: “Por que me incomodaste, fazendo-me subir aqui? – “Estou em grande angústia, disse o rei. Os filisteus atacam-me e Deus se retirou de mim, não me respondendo mais, nem por profetas, nem por sonhos. Chamei-te para que me indiques o que devo fazer.” - Samuel disse-lhe: “Por que me consultas, uma vez que o Senhor se retirou de ti, tornando-se teu adversário? Fez o Senhor como ele o tinha anunciado pela minha boca. Ele tira a realeza de tua mão para dá-la a outro, a Davi. Não obedeceste à voz do Senhor e não fizeste sentir a Amalec o fogo de sua cólera; eis porque o Senhor te trata hoje assim. E mais: o Senhor vai entregar Israel, juntamente contigo, nas mãos dos filisteus. Amanhã, tu e teus filhos estareis comigo, e o Senhor entregará aos filisteus o acampamento de Israel”. Saul, atemorizado com as palavras de Samuel, caiu estendido por terra, pois estava extenuado, nada tendo comido todo aquele dia e toda aquela noite.”

Mais claro do que isto é impossível, entretanto como diz Jesus: “ouça quem tem ouvidos de ouvir.” Pela narrativa, Saul vai procurar uma necromante afim de consultar ao espírito Samuel, sobre o que aconteceria na batalha com os filisteus. Ouve, via “incorporação”, de Samuel que Deus lhe entregaria aos filisteus, é em resumo os fatos narrados.

Por fim citaremos Deuteronômio, 18, 9-12: “Quando tiveres entrado na terra que o Senhor, teu Deus, te dá, não te porás a imitar as práticas abomináveis da gente daquela terra. Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou à evocação dos mortos, porque o Senhor, teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, teu Deus, expulsa diante de ti essas nações.”

Ao proibir a evocação dos mortos, Deus, partindo do pressuposto que esta ordem é Dele, nos dá o maior atestado de que a comunicação com os mortos é real, pois não haveria sentido nenhum proibir algo que não pudesse acontecer. Quanto ao termo espiritismo, trata-se de uma grosseira adulteração dos textos, pois é um neologismo criado em 1857 por Allan Kardec, quando aos 18 dias do mês de abril lança o “Livro dos Espíritos”. De mais a mais para os leigos espiritismo e evocação dos mortos são a mesma coisa, também, não haveria sentido proibir a mesma coisa duas vezes.

O que fica e, é para nós, irrefutável é que a comunicação dos mortos é possível desde muito tempo atrás, apesar das mentes fechadas que não quererem ver o óbvio.

Para os que têm a Bíblia como palavra de Deus, procurem sair da incoerência em que se encontram, e vejam que com seus próprios argumentos, a palavra de Deus, fala incontestavelmente da comunicação dos mortos com os vivos, e novamente, recordando Jesus: ouça quem tem ouvidos de ouvir.”

Mai/94

Bibliografia: