Consciência

Valdomiro Halvei Barcellos

“Senhor ajuda-nos a transitar das trevas para a luz, da mentira para a verdade, e da morte para a imortalidade.”

Esta oração dos upanishads, um dos livros do Vedanta, cujo título significa:ajoelhado aos pés do mestre para aprender, sintetiza o trânsito que deve fazer o ser para encontrar a sua consciência. A treva é não-ser, onde a ignorância predomina; a mentira significa a paixão, ilusão, causas de sofrimento, aquele sentido de permanência às coisas que são impermanentes; transitar da morte para a imortalidade; é o caminho para a aquisição de Sabedoria, isto é , sair do corpo para a Consciência Plena.

O Almirante Hardy, da marinha norte americana, exorou uma iluminada oração, provavelmente inspirada nos upanishads, que sintetiza as ações do homem em busca de sua consciência: “Senhor ensina-nos a fazer tudo aquilo que devemos fazer, e, ensina-nos a não fazer tudo aquilo que não devemos fazer,e, dá-nos Sabedoria para distinguir um do outro.”

Os estudiosos do comportamento humano constataram que houve uma dissociação entre a personalidade e o Psi, a consciência profunda, indivíduo. A personalidade forja-se nas experiências-existenciais e a Individualidade o Ser, que continua a viver, é o somatório das experiências-existenciais. Essa dissociação nos faz viver , ou no passado, personalizando, ou identificando-se, ou no futuro, imaginando, ou projetando algo que nunca aconteceu, ou talvez jamais venha a acontecer.

As técnicas para o desenvolvimento da consciência nos levam a estabelecer uma ponte de união entre a personalidade e o SÍ-PSÍ, tornando o SER Consciente, integral, pleno, tais as da meditação.

Somos conscientes ou estamos conscientes, qual o nosso nível?

Pedro Ouspensky, discípulo de Gurdjieff, dividiu os grupos humanos em quatro níveis de consciência:sono, consciência de vigília,consciência de si e a consciência objetiva; sendo que um dos níveis, o de consciência de vigília, o Professor Divaldo P. Franco, sob o enfoque do pensamento espírita, dividiu em estado de despertar semi-dormindo e estado de consciência desperta lúcida.

O sono é um estado puramente subjetivo e passivo. O homem está rodeado de sonhos. Todas as suas funções psíquicas trabalham sem direção alguma. Não há lógica, não há continuidade, não há causa e nem resultados nos sonhos.Imagens totalmente subjetivas, ecos de experiências passadas, oui ecos de vagas percepções do momento, ruídos que chegam ao adormecido, sensações corporais, tais como ligeiras dores, sensação de tensão muscular, atravessam o espírito sem deixar mais que um tênue vestígio na memória, e quase sempre sem deixar sinal algum. Os valores dormem. Tudo está em latência.São os homens fisiológicos, boca a baixo:comer, beber, dormir, copular sem aspirações, no entanto, o Divino nele Dorme...

O segundo grau de consciência aparece quando o homem desperta.Trabalhamos, falamos, imaginamos que somos despertos, lúcidos. Segundo a divisão proposta para o nível de consciência de vigília temos: o estado desperto em sono: somos mais o ontem do que o amanhã, semi-interiorizados, o ideal não é ainda muito interessante. O sono permanece com todas as suas impressões. O homem sabe mas não que aplicar o que sabe. Ao sono se acrescenta uma atitude crítica para com as impressões dos sonhos; estes já exercem influência intuitiva. Começam a surgir pensamentos mais bem coordenados, ações mais disciplinadas, sentimentos de contradição e de impossibilidade, ausentes totais na de sono. O homem já distingue entre o EU e o NÃO-EU.

Na consciência lúcida aspira ideais. Analisa, calcula, já começa a discernir sobre o que pode e deve; deve mas não pode; pode mas não deve. Tem alguma religião mesmo que seja como representação social. Atormenta-se quando não aplica bem e para o bem o que sabe. Busca a retificação das experiências que não deram certo. É o homem psicológico, que pensa antes de agir. Alimenta-se, dorme, e tem sexo, para viver, e não viver para; porque quando inverte cai no nível de consciência de sono.Os níveis de consciência de sono e desperta são os estados em que vivemos nós, oitenta a noventa por cento da humanidade. Mas poderemos atingir outros estados após dura e prolongada luta, impulsionando a vontade, os de consciência de si e de consciência objetiva.

A consciência de si é o estado em que o ser se torna objetivo em relação a si mesmo.Para iniciar o desenvolvimento deste nível temos que entender que somos máquina, que age por influências e choques exteriores. A idéia de que o homem é uma máquina não é nova, é realmente o único ponto de vista científico possível, pois é baseado na experiência e na observação. Durante a segunda metade do século XIX o que se chamava psico-fisiologia dava uma definição muito boa da mecanicidade do homem.Entender que somos uma máquina mas muito singular que pode deixar de ser máquina é o que possibilitará então a controlar a máquina. Para tal, temos que controlar as funções da máquina, que são sete segundo Ouspensky: função intelectiva, emotiva, instintiva, motora, sexual, emotiva-superior, intelectiva-superior.

A função intelectiva é a do pensamento, dos processos mentais: percepção de impressões, formação de representações e conceitos, raciocínio, comparação, negação, formação de palavras, linguagem. O ser usa a razão a benefício da vida. Procura a melhor técnica, o melhor método para viver. Ao seu lado está a função emotiva: alegria, tristeza, medo, surpresa, etc. Temos que estabelecer o equilíbrio entre a emoção e a razão; a meditação nos levará a isto.A função instintiva compreende quatro espécies de funções: trabalho interno do organismo, os sentidos, emoções físicas (dor, sabores, odores, prazeres), reflexos, risos, bocejos. A função motora: os movimentos exteriores, caminhar, correr, escrever, falar,movimentos esportivos. As diferenças entre as funções instintivas e motoras é que estas precisamos aprender e aquelas não. Existem funções motoras anormais ou estranhas: falar por falar, falar consigo mesmo, tiques, cacoetes. As técnicas de correção de postura fazem parte da função motora.

Somente após o controle das funções – instintivas, intelectivas, emotivas e motoras – poderemos controlar a função sexual, que em síntese constitui-se em governar as polaridades masculina e feminina e utilizá-la para a vida e não viver para fruí-la. Não obstante, o controle da função sexual demanda estudos específicos. Estas funções devem antes de tudo ser compreendidas em todas as manifestações, depois, é preciso observá-las em si mesmo. Esta observação de si que deve ser feita a partir de dados corretos, com prévia dos estados de consciência e das deferentes funções, constitui a base do estudo de si, isto é o início da psicologia.

É muito importante recordar que,enquanto observamos as diferentes funções, cumpre observar ao mesmo tempo, sua relação com os diferentes estados de consciência.

As funções emotivo-superior e intelectiva-superior só podemos anelar após o controle das cinco funções. A função emotivo-superior é o encontro com o ideal, é o êxtase. É quando projetamos vida no que fazemos, à semelhança dos artistas clássicos. Como Santa Teresa De Ávila; que vivia quando morria – dormia -; como a semente que se deixa morrer para viver, chegamos então a função intelectivo-superior, após o que entramos no estado de consciência objetiva, nesta função compreendemos que só existe vida. Vivemos o ideal. A verdade é real, verdade que inexiste no nível de sono, que é relativa na consciência desperta, sua verdade na consciência de si. Atingimos o total domínio da máquina. A consciência objetiva é a profunda, é extra-física. São aqueles seres que pairam acima da humanidade, e os que a impulsionam e dirigem:Sai-Baba, Chico Xavier, Albert Schweitzer, Einstein, Allan Kardec, Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Maria, Buda, Francisco de Assis,Jesus; deixaram de pensar em si para pensar na humanidade.

Para facilitar diríamos que o estado de sono é aquele em que os instintos imperam e agitam; no de despertar, temos o período analítico; adquirindo a consciência de si o ser passa a empregar a intuição e na consciência objetiva temos os místicos.

Conceitos de Consciência

“E um pensamento íntimo, que pertence ao homem, como todos os outros pensamentos.” Allan Kardec.

“É o encontro com outras dimensões da vida e possibilidades extra-físicas de realizações; como o contributo da psicotrônica, psicobiofísica, psicologia transpessoal, mediunidade, meditação.”Ser Consciente

“Ser consciente é ter existência real.” O homem integral.

“Um atributo altamente desenvolvido na espécie humana.” Idem ib idem.

“Relação dos conteúdos psíquicos com o ego, na medida em que é percebida pelo ego.” C.G.Jung.

"É onde está escrita a Lei de Deus.” Livro dos Espíritos.

“Soma de muitas coisas que redundam em muitas coisas que o identificam.”Prof H. Rodrigues.

“Conhecimento interior, independente de sua atividade mental. É antes de tudo tomada de conhecimento de si, o conhecimento de quem ele é, de onde está, do que sabe e do que não sabe, e assim por diante.”Ouspensky.

“É um estado no qual o homem se torna objetivo em relação a si mesmo. Objetiva contato com o mundo real, objetivo, do qual está separado pelos sentidos, sonhos, e pelos estado de sono desperto de consciência.”Ouspensky.