Educação e Desenvolvimento da Mediunidade - I

Valdomiro Halvei Barcellos

PENSAMENTO ESPÍRITA

O ESSENCIAL É QUE AJUDEMOS O POVO A PENSAR, A CRESCER E A APRIMORAR-SE. AUXILIAR A TODOS, PARA QUE TODOS SE BENEFICIEM E SE ELEVEM, TANTO QUANTO DESEJAMOS MELHORIA E PROSPERIDADE PARA NÓS MESMOS, CONSTITUI PARA NÓS A FELICIDADE REAL E INDISCUTÍVEL. ESTENDAMOS OS BRAÇOS, ALONGUEMOS O CORAÇÃO E IRRADIEMOS ENTENDIMENTO, FRATERNIDADE E SIMPATIA, AJUDANDO SEM CONDIÇÕES. QUANDO O CRISTÃO PRONUNCIA AS SAGRADAS PALAVRAS “PAI NOSSO”, ESTÁ RECONHECENDO NÃO SOMENTE A PATERNIDADE DE DEUS, MAS ACEITANDO TAMBÉM POR SUA FAMÍLIA A HUMANIDADE INTEIRA (EMMANUEL, GUIA ESPIRITUAL DE CHICO XAVIER).

PREFÁCIO

ESTE CURSO OBJETIVA transmitir conhecimentos básicos da Doutrina Espírita, necessários para que o candidato a médium possa integrar-se a um grupo de educação e desenvolvimento da mediunidade.

Além deste objetivo que poderíamos rotular de objetivo imediato, há um subjacente muito mais amplo, profundo, que visa à reforma moral dos candidatos, através do contato direto com a Verdade, consubstanciada no Evangelho que Jesus nos exemplificou e que a Luz da Doutrina Espírita readquire a sua pureza e cristalinidade originais.

Somente através da evangelização do indivíduo, da sua reforma moral que conduz a uma progressiva espiritualização e, conseqüentemente, à atrofia do egoísmo, é que conseguiremos transformar a sociedade, tornando -a mais justa, mais fraterna, mais igualitária em termos de oportunidades de ascensão para todos. É somente através da espiritualização individual que conquistaremos a Paz Social e, conseqüentemente, o progresso e a prosperidade infinitos. O Espiritismo, como “O Consolador” prometido por Jesus, é a chave para esta imprescindível e impostergável transformação social; sob o seu pálio se fará de forma branda e pacífica. Acima de tudo estará presidindo a todas as transformações o Amor que Jesus pregou e exemplificou, Ele que afirmou e demonstrou ser O Caminho a Verdade e a Vida.

SUMÁRIO

I. CONSELHO AOS INICIANTES
II. DEUS
III. ANTECEDENTES DA DOUTRINA ESPÍRITA, OS PRECURSORES DA DOUTRINA ESPÍRITA
IV. OS FENÔMENOS DE HYDESVILLE
V. AS MESAS GIRANTES
VI. A CODIFICAÇÃO ESPÍRITA
VII. O MÉTODO ADOTADO
VIII. O CARÁTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA
IX. OBRAS BÁSICAS E OUTRAS OBRAS KARDECIANAS
X. TRÍPLICE ASPECTO DA DOUTRINA ESPÍRITA
XI. O CONSOLADOR PROMETIDO POR JESUS
XII. JUSTIÇA DIVINA
XIII. O PRINCÍPIO DA AÇÃO E REAÇÃO OU LEI DE CAUSA E EFITO, OU AINDA, LEI DO CARMA E O LIVRE-ARBÍTRIO
XIV. PENAS E GOZOS FUTUROS
XV. A PRECE
XVI. PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS
XVII. PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
XVIII. EXISTÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA DO ESPÍRITO
XIX. INTERVENÇÃO DOS ESPÍRITOS NO MUNDO CORPORAL
XX. INFLUÊNCIA DOS ESPÍRITOS EM NOSSOS PENSAMENTOS E ATOS
XXI. COMUNICABILIDADE DOS ESPÍRITOS
XXII. MEDIUNIDADE
XXIII. REGISTROS DE ALLAN Kardec
XXIV. EVOCAÇÃO DOS ESPÍRITOS
XXV. MEDIUNIDADE COM JESUS
XXVI. PERDA E SUSPENSÃO DA MEDIUNIDADE
XXVII. PAPEL E INFLUÊNCIA DO MÉDIUM NAS COMUNICAÇÕES
XXVIII. INFLUÊNCIA DO MEIO NAS COMUNICAÇÕES
XXIX. MOVIMENTO ESPÍRITA
XXX. BIBLIOGRAFIA
Anexos Obsessão - Causas - Meios de combatê-la
  Interferência dos Espíritos em nossos pensamentos
  Comunicabilidade dos Espíritos
  Mediunidade com Jesus

I - CONSELHO AOS INICIANTES

O conhecimento da ciência espírita se baseia em uma convicção moral e uma convicção material. A primeira se adquire pelo raciocínio e a segunda pela observação dos fatos. Para aquele que inicia o aprendizado da doutrina, seria lógico, em primeiro lugar ver, e raciocinar em segundo. Infelizmente nem sempre pode ser assim. Seria impossível fazer-se um curso de espiritismo, como se faz um curso de Química ou Física. Os fenômenos que são da alçada dessas ciências podem ser reproduzidos à vontade; pode-se, pois, fazê-los passar, gradualmente, diante dos olhos do aluno, partindo do mais simples para o mais complexo. O mesmo não se dá com os fenômenos espíritas: não os manejamos como uma máquina elétrica. É preciso tomá-los como se apresentam, pois não depende de nós determinar-lhes uma ordem metódica. Daí resulta que muitas vezes, eles são ou ininteligíveis ou pouco concludentes para os principiantes. Podem causar admiração sem convencer.

Pode-se evitar esse inconveniente, seguindo uma marcha contrária isto é, começando pela teoria, e esse é o processo que aconselhamos a toda a pessoa que deseja honestamente se esclarecer. Pelo estudo dos princípios da ciência, princípios perfeitamente compreensíveis mesmo sem a experimentação prática, adquirem-se uma convicção moral inicial que não necessita mais do que ser corroborada pelos fatos. Ora, como nesse estudo preliminar todos os fatos foram passados em revista e comentados, resulta disto que quando os vemos, os compreendemos, qualquer que seja a ordem na qual as circunstâncias permitem observá-los.

Uma leitura atenta no Pentateuco Kardeciano, será, pois, uma primeira iniciação que permitirá analisar os fatos ou fornecerá os meios de provocá-los com conhecimento de causa, se nada se opuser, e isso sem nos perdermos nos ensaios que podem resultar infrutuosos por não serem dirigidos nos limites do possível. Enfim, no Livro dos Espíritos, observa-se o próprio ensino dos Espíritos sobre as questões de Metafísica e de Moral que se relacionam com a Doutrina Espírita.

II - DEUS

EXISTÊNCIA DE DEUS

Sendo Deus a causa primária de todas as coisas, a origem de tudo o que existe, a base sobre que repousa o edifício da criação, é também o ponto que importa consideremos antes de tudo.

Constitui princípio elementar que pelos seus efeitos é que se julga de uma causa, mesmo quando ela se conserve oculta.

Outro princípio igualmente elementar e que, de tão verdadeiro, passou a axioma é o de que todo efeito inteligente tem de decorrer de uma causa inteligente.

... Quando se contempla uma obra prima da arte ou da indústria, diz-se que há de te-la produzido um homem de gênio, porque só uma alta inteligência poderia concebê-la. Reconhece-se, no entanto que ela é obra de um homem, por se verificar que não esta acima da capacidade humana; mas, a ninguém acudirá a idéia de dizer que saiu do cérebro de um idiota ou de um ignorante, nem, ainda menos, que é trabalho dede um animal, ou produto do acaso.

Pois bem! Lançando o olhar em torno de si, sobre as obras da natureza, notando a providência, a sabedoria, a harmonia que presidem a essas obras, reconhece o observador não haver nenhuma que não ultrapasse os limites da mais portentosa inteligência humana. Ora, desde que o homem não as pode produzir, é que elas são produto de uma inteligência superior à Humanidade, a menos se sustente que há efeitos sem causas.

A isto opõem alguns o seguinte raciocínio: As obras ditas da Natureza são produzidas por forças materiais que atuam mecanicamente, em virtude das leis de atração e repulsão; as moléculas dos corpos inertes se agregam e desagregam sob o império dessas leis. As plantas nascem, brotam, crescem e se multiplicam sempre da mesma maneira, cada uma na sua espécie por efeito daquelas mesmas leis; cada individuo se assemelha ao de quem ele proveio; o crescimento, a floração, a frutificação, a coloração se acham subordinados a causas materiais, tais como o calor, a eletricidade, a luz,a umidade, etc. O mesmo se dá com os animais. Os astros se formam pela atração molecular e se movem perpetuamente em suas órbitas por efeito da gravitação. Essa regularidade mecânica no emprego das forças naturais não acusa a atuação de qualquer inteligência livre. O homem movimenta o braço como quer e quando quer; aquele, porém que o movimentasse no mesmo sentido desde o nascimento até a sua morte, seria um autômato. Ora, as forças orgânicas da Natureza são puramente automáticas.

Tudo isso é verdade; mas, essas forças são efeitos que hão de ter uma causa e ninguém pretende que elas constituam a Divindade. Elas são materiais e mecânicas; não são em si mesmas inteligentes, também isto é verdade; mas são postas em ações, distribuídas, apropriadas às necessidades de cada coisa por uma inteligência que não é a dos homens. A aplicação útil dessas forças é um efeito inteligente, que denota uma causa inteligente. Um pêndulo se move com automática regularidade e é nessa regularidade que lhe está o mérito. É toda material a força que o faz mover-se e nada tem de inteligente. Mas, que seria esse pêndulo, se uma inteligência não houvesse combinado, calculado, distribuído o emprego daquela força, para fazê-lo andar com precisão? Do fato de não estar a inteligência no mecanismo do pêndulo e do de que ninguém a vê, seria racional deduzir-se que ela não existe? Apreciamo-la pelos seus efeitos.

A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; a engenhosidade do mecanismo lhe atesta a inteligência e o saber. Quando um relógio vos dá, no momento preciso, a indicação de que necessitais, já vos terá vindo à mente dizer: aí está um relógio bem inteligente?

Outro tanto ocorre com o mecanismo do Universo: Deus não se mostra, mas se revela pelas suas obras.

A existência de Deus é, pois, uma realidade comprovada não só pela revelação, como pela evidência material dos fatos. Os povos selvagens nenhuma revelação tiveram; entretanto, crêem instintivamente na existência de um poder sobre humano. Eles vêm coisas que estão acima das possibilidades do homem deduzem que essas coisas provêm de um ente superior à Humanidade. Não demonstram raciocinar com mais lógica do que os que pretendem que tais coisas se fizeram a si mesmas?

DA NATUREZA DIVINA

Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Para compreendê-lo, ainda nos falta o sentido próprio que só se adquire por meio da completa depuração do Espírito. Mas, se não pode penetrar na essência de Deus, o homem, desde que aceite como premissa a sua existência, pode, pelo raciocínio, chegar a conhecer-lhe os atributos necessários, porquanto, vendo o que ele absolutamente não pode ser, sem deixar de ser Deus, deduz daí o que ele deve ser.

Sem o conhecimento dos atributos de Deus, impossível seria compreender-se a obra da criação. Esse o ponto de partida de todas as crenças religiosas e é por não se terem reportado a isso, como ao farol capaz de as orientar, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a onipotência imaginaram muitos deuses; as que não lhe atribuíram soberana bondade fizeram dele um deus ocioso, colérico, parcial e vingativo.


O fato de ser infinita uma qualidade, exclui a possibilidade de uma contrária, porque esta a apoucaria ou anularia. Um ser infinitamente bom não poderia conter a mais insignificante parcela de malignidade, nem o ser infinitamente mau conter a mais insignificante parcela de bondade, do mesmo modo que um objeto não pode ser de um negro absoluto, com a mais ligeira nuança de branco e vice e versa.

Deus, pois, não poderia ser simultaneamente bom e mau, porque , então, não possuindo qualquer dessas duas qualidades no grau supremo, não poderia ser Deus; todas as coisas estariam sujeitas ao seu capricho e para nenhuma haveria estabilidade. Não poderia ele, por conseguinte, deixar de ser ou infinitamente bom ou infinitamente mau. Ora, como suas obras dão testemunho de sua sabedoria, da sua bondade e da sua solicitude, concluir-se-á que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele necessariamente tem de ser infinitamente bom.

A soberana bondade implica a soberana justiça porquanto, se ele procedesse injustamente ou com parcialidade numa só circunstância que fosse, ou com relação a uma só de suas atribuições, já não seria soberanamente justo e, em conseqüência, já não seria soberanamente bom.

Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber-se Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se poderia conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, faz-se mister que ele seja infinito em tudo.

Sendo infinitos, os atributos de Deus não são suscetíveis nem de aumento, nem de diminuição, visto que do contrário não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se lhe tirassem a qualquer dos atributos a mais mínima parcela, já não haveria Deus, pois que poderia existir um ser mais perfeito.


Deus é, pois, a inteligência suprema e soberana, é único, imutável, imaterial, onipresente, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições, não pode ser diverso disso.

Tal o eixo sobre que repousa o edifício universal. Esse o farol cujos raios se estendem por sobre o Universo inteiro, única luz capaz de guiar o homem na pesquisa da verdade. Orientando-se por essa luz, ele nunca se transviará. Se, portanto, o homem há errado tantas vezes, é unicamente por não ter seguido o roteiro que lhe estava indicado.

Tal também o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas. Para apreciá-las, dispõe o homem de uma medida rigorosamente exata nos atributos de Deus e pode afirmar a si mesmo que toda a teoria, todo o princípio, todo o dogma, toda a crença, toda a prática que estiver em contradição com um só que seja desses atributos, que tenda não tanto anulá-lo, mas simplesmente a diminuí-lo, não pode estar com a verdade.

Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, só há de verdadeiro o que não se afaste, nem um til, das qualidades essenciais da Divindade. A religião perfeita será aquela de cujos artigos de fé nenhum esteja em oposição àquelas qualidades; aquela cujos dogmas todos suportem a prova dessa verificação sem nada sofrerem.

III - ANTECEDENTES DA DOUTRINA ESPÍRITA

OS PRECURSORES DA DOUTRINA ESPÍRITA

As crenças na imortalidade da alma e nas comunicações entre os vivos e os mortos eram gerais entre os povos da antiguidade.

Os anais de todas as nações mostram que, desde épocas remotíssimas da história, a evocação dos Espíritos era praticada por certos homens que tinham feito disso uma especialidade.

O mais antigo código religioso que se conhece, os Vedas, aparecido milhares de anos antes de Jesus Cristo, afirma a existência dos Espíritos. Eis como o grande legislador Manu se exprime a respeito: “Os espíritos dos antepassados, no estado invisível, acompanham certos brâmanes, convidados para as cerimônias em comemoração dos mortos, sob a forma aérea. Seguem-nos e tomam lugar ao seu lado quando eles se assentam.”

Desde de tempos imemoriais, os sacerdotes iniciados nos mistérios preparam indivíduos chamados faquires para a evocação dos espíritos e para a obtenção dos mais notáveis fenômenos de magnetismo. Louis Jacolliot, em sua obra “Le Epiritisme dans le monde” expõe amplamente a teoria dos hindus sobre Pitris, isto é, espíritos que vivem no espaço (errantes) depois da morte do corpo físico. Resultam das investigações deste autor que o segredo da evocação era reservado àqueles que tivessem quarenta anos de iniciação e obediência passiva.

Na China, desde tempos imemoriais, pratica-se a evocação dos espíritos dos avoengos. O missionário Huc refere-se à grande número de experiências, cujo fim era a comunicação dos vivos com os mortos, sendo que ainda hoje essas práticas estão em uso em todas as classes sociais.

Com o tempo e em conseqüência das guerras que forçaram grande parte da população hindu a emigrar, o segredo das evocações espalhou-se em toda a Ásia, encontrando-se ainda entre os egípcios e entre os hebreus a tradição que originou-se na Índia.

Historiadores estão de acordo em atribuir aos sacerdotes do antigo Egito poderes que pareciam sobrenaturais e misteriosos. Há referências na Bíblia a fatos dessa ordem. Um dado que confirma a prática da evocação dos mortos está na proibição formal que Moisés impôs aos hebreus para que não se entregassem a essa prática, herdada dos “egípcios: Que entre nós ninguém use de sortilégio e de encantamentos, nem interrogue os mortos para saber a verdade.” (Deuteronômio).

A despeito dessa proibição, vemos Saul ir consultar a pitonisa de Endor e, por seu intermédio, comunicar-se com a sombra de Samuel. Houve no caso o que em nossos dias denomina-se materialização.

Na Grécia, a crença nas evocações era geral. Todos os templos dispunham de mulheres chamadas pitonisas encarregadas de proferir oráculos, evocando os deuses. Ocorria, às vezes, do próprio consulente querer ver e falar diretamente à sombra evocada e, tal com na Judéia, conseguia-se pô-lo em comunicação direta com o ser ao qual desejava interrogar. Homero, na Odisséia, descreve, minuciosamente, por meio de que cerimônia Ulisses pode conversar com a sombra do divino Tirésias.

Paulo de Tarso reconhecia, em suas cartas, a prática dessas manifestações entre os primitivos cristãos ao recomendar : “Segui o amor e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis.” “Não apagueis o espírito; não desprezeis profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom.” O apóstolo João referia-se também à procedência dessas comunicações.

Na Idade Média destaca-se a figura admirável de Joana D´Arc, a grande médium, recusando renegar as vozes espirituais.

Em uma época mais recente é que podemos melhor situar a fase precursora do Espiritismo, a Terceira Revelação no Ocidente, aceito como o Consolador Prometido por Jesus à Humanidade. A diferença entre os fatos desta fase e os fenômenos da antiguidade, como bem acentua Artur Conan Doyle, está em que estes últimos episódios (os da antiguidade) eram esporádicos, ou diríamos melhor, sem uma seqüência metódica, enquanto aqueles (os da terceira revelação) “têm a característica de uma invasão organizada.”

Um dos mais notáveis precursores do espiritismo foi o vidente sueco Emmanuel Swedenborg, engenheiro militar, insigne teólogo, dotado de vastíssimo patrimônio cultural e superdotado de faculdades psíquicas. Desde sua infância teve visões, que continuaram até a sua morte. Mas as suas forças latentes eclodiram com mais intensidade a partir de abril de 1744, em Londres. Desde então, afirma Swedenborg: “...o Senhor abria os olhos de meu espírito para ver, perfeitamente desperto, o que se passava no outro mundo e para conversar em plena consciência com os anjos e espíritos...”

Um outro notável precursor, digno de menção, foi Franz Anton Mesmer, médico, descobridor do magnetismo curador. Em 1775, Mesmer reconhece o poder da cura mediante a imposição das mãos, ou seja, através da fluidoterapia. Acreditava que por nossos corpos transitam fluidos curadores, preparando o caminho para o hipnotismo do Marques de Puységur.

Fatos precursores dignos de registro ocorreram com Andrew Jackson Davis, magnífico sensitivo que viveu entre 1826 e 1910, sendo considerado por Artur Conan Doyle como o profeta da Nova Revelação. Os poderes psíquicos de Davis começaram nos últimos anos da infância, ouvindo vozes de espíritos que lhe davam conselhos, à clarividência seguiu-se a clariaudiencia. “Na tarde de 06 de março de 1884, Davis foi tomado por uma força que o fez voar, em Espírito, da pequena cidade onde residia até as montanhas de Castskill, fazendo uma viagem de cerca de 40 milhas. Swedenborg foi um dos mentores espirituais de A.J.Davis”.

IV - OS FENÔMENOS DE HYDESVILLE

Em 1884, Hydesville era um vilarejo típico do Estado de Nova York, com uma população primitiva, certamente semi - educada, mas, como os demais pequenos centros de vida americanos, mais livres de preconceitos e mais receptivos às novas idéias que qualquer povo da época.

Situada à cerca de quarenta quilômetros da nascente cidade de Rochester, consistia de um grupo de casas de madeira, de aspecto muito humilde. Foi numa dessas simples residências que se iniciou o desenvolvimento daquilo que na opinião de muitos é a coisa mais importante que deu a América para o bem estar do mundo. Era habitados por uma família honesta de fazendeiros, os Fox, de religião metodista. Além do pai e da mãe havia duas filhas morando na casa, ao tempo em que as manifestações atingiram tal ponto de intensidade que atraíram a atenção geral. Eram as filhas Margareth, de 14 anos e Katherine (Kate), de 11 anos.

Foi em 1848 que os misteriosos ruídos registrados pelos antigos inquilinos voltaram a ser ouvidos. Eram sons de arranhaduras que, embora desconhecidos pelos iletrados fazendeiros, tinham ocorrido na Inglaterra em 1661, e em Oppenheim, em 1520.

Manifestavam-se na porta da frente, tal como se alguém do lado de fora tentasse desesperadamente adentrar a porta da casa. Segundo consta (Conan Doyle - “A História do Espiritismo”), até meados de março de 1848 não incomodaram a família Fox, porém, dessa data em diante cresceram continuamente de intensidade. Às vezes eram simples batidas; outras vezes soavam como arrastar de móveis. As meninas ficavam tão alarmadas que se recusavam a dormir separadas dos pais e iam para o seu quarto. Tão vibrantes eram os sons que as camas tremiam e se moviam.

Foi em 31 de março de 1848, com a irrupção de sons altos e continuados que a jovem Kate desafiou a força invisível. Eis o depoimento da Sra. Fox, que consta do livro de Conan Doyle, já citado: “Minha filha menor, Kate, disse batendo palmas: Sr. Pé-de-cabra, faça o que eu faço. Imediatamente seguiu-se o som, com o mesmo número de palmas.” A pequena Kate, em sua ingenuidade, já havia apelidado o comunicante de pé-de-cabra, em decorrência do barulho típico que ele fazia, no seu andar misterioso.

Nessa data memorável, naquele quarto rústico, congregando gente simples do vilarejo, gente ansiosa e expectante, num círculo iluminado por velas, inaugurou-se a linha telegráfica entre os dois planos da vida.

A Sra. Fox perguntou: “Quantos filhos eu tenho?” Sete pancadas foram ouvidas. Mas...ela tinha apenas seis filhos! Contudo, imediatamente se lembrou que tivera um cujo desencarne ocorrera em tenra idade.

A partir dessa data a evolução dos fatos foi muito rápida. Improvisaram um alfabeto através das pancadas (tiptologia), convencionou-se também que uma pancada significaria sim e duas não.

Com o auxílio do alfabeto rudimentar estabeleceu-se uma linha contínua de comunicações. Ele, o comunicante, chamavá-se Charles R. Rosma e fora assassinado naquela casa a cinco anos, com golpes de faca, pelos antigos moradores. Seu corpo foi levado para a adega e ali enterrado a três metros de profundidade. Também fora constatado que o móvel do crime fora o roubo de dinheiro, produto da venda de artigos diversos, já que Rosma era mascate.

No verão de 1848, David Fox, outro filho do casal, auxiliado por Mr. Henry Bush e Mr Lyman Granger, e outros, escavaram a adega. A uma profundidade de um metro e meio encontraram uma tábua; aprofundando a escavação identificaram carvão e cal e, finalmente, cabelos e ossos humanos, testemunhados por um médico que afirmou pertencerem a um esqueleto humano.

Vários artigos foram publicados nos jornais da época, dando ampla difusão ao relatório dos fatos “misteriosos” ocorrido na residência dos Fox.

Com os fenômenos de Hydesville iniciava uma nova fase no tortuoso caminho da civilização: o homem, rendendo-se à evidência dos fatos, começava aceitar um outro plano de vida, invisível, mas nem por isso menos real.

Kate e Margareth foram posteriormente submetidas às mais complexas experiências, sob a direção de sábios pesquisadores europeus, entre eles William Crookes, na Inglaterra. Unanimemente reconheceram as faculdades mediúnicas das irmãs e confirmaram a existência do espírito.

V - AS MESAS GIRANTES

Até então os Espíritos, na nação americana do norte, só se comunicavam através do processo a que já nos referimos, o qual, além de grosseiro, era muito moroso, trabalhoso e tedioso.

Em fins de 1850 os próprios espíritos indicaram uma nova maneira de comunicação: bastava simplesmente que se colocassem ao redor de uma mesa, em cima da qual as pessoas poriam as mãos. Levantando em dos seus pés, a mesa diria (enquanto se recitava o alfabeto) uma pancada toda a vez que fossa referida a letra que servisse ao espírito para formar as palavras. Este processo, ainda que muito lento, produziu resultados excelentes, e assim se chegou às mesas girantes e falantes.

As mesas girantes não se limitavam a levantar-se sobre um pé para responder às perguntas feitas; moviam-se em todos os sentidos, giravam sob os dedos dos pesquisadores elevando-se no ar, às vezes. Entre os anos de 1853 e 1855, os fenômenos das mesas girantes constituíram verdadeiro passatempo, sendo diversão quase obrigatória nas reuniões sociais. A ponto do padre Ventura de Raulica considerar este fenômeno como “o maior acontecimento do século”.

A divulgação dessas experiências e “a seguir a conversão do Juiz americano Mr. Edmond, materialista que rira da crença dos espíritos, pasmaram todos os nortes-americanos, aumentando ainda mais o interesse pelas manifestações inteligentes”.

Paris inteira assistia, atônita e estarrecida, a esse turbilhão feérico de fenômenos imprevistos que, para a maioria, só alucinadas imaginações poderiam criar, mas que a realidade impunha aos mais céticos e frívolos.

VI - A CODIFICAÇÃO ESPÍRITA

ALLAN KARDEC, O PROFESSOR E O CODIFICADOR

Na cidade de Lion, na rua Sala, 76, nasceu no dia 3 de outubro de 1804 aquele que se celebrizaria sob o pseudônimo de Allan Kardec, de tradicional família francesa de magistrados e professores, filho de Jean Baptiste Antoine Rivail e de Jeanne Louise Duhamel. Batizado pelo padre Barthe a 15 de junho de 1805 na igreja de Saint Denis de la Croix-Rousse, recebeu o nome de Hippolyte Leon Denizard Rivail.

Em Lion fez os seus primeiros estudos, seguindo depois para Yverdon, na Suíça, a fim de estudar no Instituto do célebre professor Pestalozzi. O Instituto desse abalizado mestre era um dos mais famosos e respeitados em toda a Europa, reputado como escola modelo, por onde passaram sábios escritores do Velho Continente.

Desde cedo Hippolyte Leon tornou-se um dos mais eminentes discípulos de Pestalozzi, um colaborador inteligente e dedicado, que exerceria, mais tarde, grande influência sobre o ensino da França. Registra a Revista Espírita de maio de 1869, que dotado de notável inteligência e atraído por sua vocação, desde os 14 anos ele ensinava aos condiscípulos menos adiantados tudo o que aprendia.

Concluindo os seus estudos em Iverdon, regressou a Paris, onde tornou-se conceituado Mestre, não só em Letras, como em Ciências, distinguindo-se como notável pedagogo e divulgador do Método Pestalozziano. Conhecia algumas línguas com o italiano, o alemão, etc. Tornou-se membro de várias sociedades científicas.

Encontrando-se no mundo literário de Paris com a Professora Amélie Gabrielle Boudet, pessoa culta, inteligente, autora de diversos livros didáticos, o professor Rivail contrai com ela matrimônio, conquistando uma preciosa colaboradora para a sua futura atuação missionária. Como pedagogo, no primeiro período da sua vida, Rivail publica numerosos livros didáticos. Apresenta, na mesma época, planos e métodos referentes à reforma do ensino francês. Entre as obras publicadas, destacam-se: Curso Teórico e Prático de Aritmética, Gramática Francesa Clássica, Catecismo Gramatical da Língua Francesa, além de programas de cursos ordinários de física, química, astronomia e fisiologia.

Ao término desta longa atividade e experiência pedagógica, o professor Hippolyte estava preparado para outra tarefa - a codificação da Doutrina Espírita.

Começa, então, a missão de Allan Kardec, quando em fins de 1854 ouviu falar, pela primeira vez, nas mesas girantes, através do amigo Senhor Fortier, um pesquisador emérito do magnetismo. A princípio Kardec revelou-se cético, mas não intransigente, face à sua posição de livre pensador, de homem austero, sincero, observador e, inclusive, pesquisador do magnetismo. Exigindo provas, mostrou-se inclinado à observação mais profunda dos ruidosos fatos amplamente divulgados pela imprensa francesa.

Assistindo aos propalados fenômenos na casa da sonâmbula senhora Roger, depois na casa de madame Plainemaison e, finalmente, na casa da família Baudin, recebe muitas mensagens através da mediunidade das jovens Caroline e Julie. Conclui afinal que eram efetivamente manifestações inteligentes, produzidas pelos Espíritos dos homens que deixaram a Terra.

Recebendo depois dos senhores Carlotti, René Taillandier, Tiedeman-Manthése, Sardou, pai e filho, e Didier, editor, “...50 cadernos de comunicações diversas...”, Kardec se dedica àquela ciclópica e desafiadora tarefa da Codificação Espírita, elaborando as obras básicas em função dos ensinamentos fornecidos pelos espíritos, sendo a primeira delas “O Livro dos Espíritos”, publicada em 18 de abril de 1857 e tida como marco inicial da codificação do Espiritismo.

Explicando a sua convicção, Kardec sustenta que a sua crença apóia-se em raciocínio e fatos. É do seu feitio examinar antes de negar ou afirmar, a priori, qualquer tema, “... Foi, portanto, como racionalista estudioso, emancipado do misticismo, que ele se pôs a examinar os fatos relacionados com as mesas girantes”. ... “tendo adquirido no estudo das ciências exatas o hábito das coisas positivas, sondei, perscrutei esta nova ciência (O Espiritismo) nos seus mais íntimos refolhos; busquei explicar-me tudo, porque não costumo aceitar idéia alguma, sem lhe conhecer o como e o porquê...”.

Fundou Kardec em 1º de abril de 1858 a primeira sociedade espírita com o nome de “Societé Parisiense des Études Spirites”. No mesmo ano editou a Revista Espírita, primeiro órgão espírita na Europa. No dia 15 de janeiro de 1861, lançou “O Livro dos Médiuns” e depois, sucessivamente, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, “O Céu e o Inferno” e “A Gênese”.

Em 30 de abril de 1856, Kardec recebeu pela primeira vez a revelação de sua missão, através da médium Japhet, missão essa confirmada em 12 de junho de 1856, através da médium Aline, e, finalmente, a 12 de abril de 1860, na casa do senhor Dehau, nova confirmação da sua missão, pela voz do médium Crozet.

Kardec deixou consignado por escrito que empregou nessa laboriosa tarefa toda a solicitude e dedicação de que fora capaz. Na Revista Espírita de maio de 1869 lê-se: “... trabalhador infatigável, sempre o primeiro e o último a postos. Allan Kardec desencarnou a 31 de março de 1869”. “... Nele, como em todas as almas fortemente temperadas, a lâmina gastou a bainha”.

Cumprida estava modelarmente a missão do expoente máximo da Terceira Revelação, abrindo caminho ao Espiritismo, “... a grande voz do Consolador Prometido ao mundo pela Misericórdia de Jesus”.

VII - O MÉTODO ADOTADO

No que tange ao método, Kardec adota o intuitivo - racionalista - Pestalloziano, um processo didático defendido pelo fundador do Instituto de Yverdon, não desprezando, todavia, o valor da análise experimental.

Kardec cultiva o espírito natural da observação, apregoando o uso do raciocínio na descobertas da verdade. Sustenta a necessidade de proceder do simples para o complexo, do particular para o geral. Recomenda a utilização de uma memória racional, fazendo uso da Razão para reter as idéias, de modo a evitar o processo de repetição mecânica das palavras. Procura despertar no estudo a curiosidade do observador de molde a avivar a atenção e a percepção.

O lastro contido no ensino basilar é sempre intuitivo, o que Kardec considera “... como fundamento geral dos nossos conhecimentos e o meio mais adequado para desenvolver as forças do espírito humano, da maneira mais geral”. Entendia Kardec que “... todo o bom método devia partir do conhecimento dos fatos adquiridos pela observação, pela experiência e pela analogia, para daí se extraírem, por indução os resultados e se chegar a enunciados gerais que pudessem servir de base de raciocínio, dispondo-se esses materiais com ordem, sem lacuna, harmoniosamente”.

Pelo eficiente e racional método de sua dialética, Kardec foi saudado por Camille Flammarion como “o bom senso encarnado”.

Em conclusão, a resplandecente missão do mestre de Lion, exercida com tanto estoicismo e devoção, asseguram-nos, desde agora, a convicção de sua retumbante vitória.

VIII - O CARÁTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA

Revelar, do latim revelare, cuja raiz, velum, véu, significa sair de sob o véu e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida.

O compromisso primeiro de qualquer revelação tem de ser com a verdade. E o espiritismo, nesse ponto, não poderia transigir, mesmo porque o advento do Espiritismo é a confirmação e a realização da promessa de Jesus de que nos enviaria o Espírito Verdade, “O Consolador”, para nos transmitir (revelar) gradativamente uma infinidade de informações - verdade necessárias à nossa evolução espiritual, e que não poderiam ter sido vulgarizadas ao tempo de Jesus, pois o povo não apresentava ainda as condições necessárias para compreender as verdades mais profundas.

“A terceira revelação (terceira revelação no Ocidente, antecedida pela primeira revelação através de Moisés e pela segunda, através de Jesus), vinda numa época de emancipação e maturidade intelectual, em que a inteligência já desenvolvida não se resigna a cumprir papel passivo, em que o homem nada aceita às cegas, mas quer ver aonde o conduzem, que saber o porque e o como de cada coisa - tinha ela que ser ao mesmo tempo o produto de um ensino (revelação espiritual) e o fruto do trabalho, da pesquisa e do livre exame...”.

Eis ai o duplo caráter da doutrina espírita: é ao mesmo tempo produto da revelação divina e produto da pesquisa metódica, científica.

Outra característica importante da revelação espírita: sua revelação não dependeu de apenas uma personalidade, de um revelador. Ela se deu em vários pontos do mundo ao mesmo tempo e por intermédio de uma variedade incontável de médiuns.

Não podemos deixar de ressaltar, uma, que é essencial e progressiva, ou seja, não nos foi revelada pronta e acabada. Como doutrina está sendo construída, está expandindo o seu alcance. A Codificação realizada por Kardec corresponde à base, ao alicerce. Em cima dessa base sólida, granítica, está sendo erguido um majestoso edifício de conhecimentos.

IX - OBRAS BÁSICAS E OUTRAS OBRAS ESPÍRITAS KARDECIANAS

As Obras Básicas da Codificação Kardeciana são as seguintes por ordem cronológica de edição:

O LIVRO DOS ESPÍRITOS. Lançado em Paris, França, em 1ª edição, aos 18 de abril de 1857, sob o título de “Le Livre des Esprits”.

O LIVRO DOS MÉDIUNS. 1ª edição em Paris, França em janeiro de 1861. Título original francês: “Le Livre des Médiuns ou Guide des Médiuns et des Évocateurs”.

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO. 1ª edição em Paris, França, em abril de 1864, sob o título “L´Évangile selon le Spiritisme”.

O CÉU E O INFERNO. Lançado em Paris, França, 1ª edição, no ano de 1865. Título do original francês: “Le Ciel et L`enfer ou La Justice Divine selon le Spiritisme”.

A GÊNESE. 1ª edição em Paris, França, em janeiro de 1868, sob o título “La Gènese, Lês Miracles et les Préditions Selon le Spiritisme”.

Os conteúdos das obras básicas, em resumo, expõem e consolidam os princípios e os elementos constitutivos da Doutrina Espírita, em sua totalidade, segundo o ensino dos Espíritos, a sistematização e a codificação desses ensinos, por Allan Kardec.

Assim, o primeiro dos cinco livros que integram a referida codificação, O Livro dos Espíritos, trata dos seguintes assuntos:

“Princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade (...)”, abordados esses princípios em quatro partes, saber:

PARTE PRIMEIRA : Das causas primárias. Com quatro capítulos: De Deus; dos elementos gerais do Universo; da criação; do princípio vital.

PARTE SEGUNDA: Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos. Com onze capítulos: Dos espíritos; da encarnação dos espíritos; da volta do Espírito extinta a vida corpórea, à vida espiritual; da pluralidade das existências; considerações sobre a pluralidade das existências; da vida espírita; da volta do Espírito à vida corporal; da emancipação da alma; da intervenção dos Espíritos no mundo corporal; das ocupações e missões dos Espíritos; dos três reinos.

PARTE TERCEIRA: Das leis morais. Com doze capítulos: Da lei divina ou natural; da lei de adoração; da lei do trabalho; da lei de reprodução; da lei de conservação; da lei de destruição; da lei de sociedade; da lei do progresso; da lei de igualdade; da lei de liberdade; da lei de justiça; da lei de amor e de caridade; da perfeição moral.

PARTE QUARTA: Das esperanças e consolações. Com dois capítulos: Das penas e gozos terrenos; das penas e gozos futuros.

O segundo livro, por ordem cronológica de lançamento, O Livro dos Médiuns, no seu frontispício, apresenta o subtítulo: “Guia dos médiuns e dos evocadores” e resume o seu conteúdo assim:

“Ensino especial dos Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações, os meios de comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as dificuldades e os tropeços que se podem encontrar na prática do Espiritismo, constituindo o seguimento de O Livro dos Espíritos”.

PARTE PRIMEIRA: Noções preliminares. Com quatro capítulos: Há Espíritos? Do maravilhoso e do sobrenatural; do método; dos sistemas.

PARTE SEGUNDA: Das manifestações espíritas. Com trinta e dois capítulos: da ação dos Espíritos sobre a matéria; das manifestações físicas; das mesas girantes; das manifestações inteligentes; da teoria das manifestações físicas; das manifestações físicas espontâneas; das manifestações visuais; da bicorporeidade e da transfiguração; do laboratório do mundo invisível; dos lugares assombrados; da natureza das comunicações; da sematologia e da tiptologia; da pneumatografia ou escrita direta e da pneumatofonia; da psicografia; dos médiuns; dos médiuns escreventes ou psicógrafos; dos médiuns especiais; da formação dos médiuns; dos inconvenientes e dos perigos da mediunidade; do papel dos médiuns nas comunicações espíritas; da influência do médium; da influência do meio; da mediunidade nos animais; da obsessão; da identidade dos espíritos; das evocações; das perguntas que se podem fazer aos espíritos; das contradições e das mistificações; do charlatanismo e do embuste; das reuniões e das sociedades; regulamento da sociedade parisiense de estudos espíritas; dissertações espíritas; vocabulário espírita.

O terceiro livro, O Evangelho Segundo o Espiritismo, tem, em sua folha de rosto, a síntese do seu conteúdo, que é:

“A explicação das máximas morais do Cristo em concordância com o Espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida”.

O seu estudo se desdobra em uma introdução e vinte e seis capítulos, assim enunciados: Não vim destruir a lei; meu reino não é deste mundo; há muitas moradas na casa de meu Pai; ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo; bem-aventurados os aflitos; o Cristo Consolador; bem-aventurados os pobres de espírito; bem-aventurados os que têm puro o coração; bem-aventurados os que são misericordiosos; amar ao próximo como a si mesmo; amai os vossos inimigos; não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita; honrai a vosso pai e a vossa mãe; fora da Caridade não há salvação; não se pode servir a Deus e a mamon; sede perfeitos; muitos os chamados, poucos os escolhidos; a fé transporta montanhas; os trabalhadores da última hora; haverá falsos cristos e falsos profetas; não separeis o que Deus juntou; estranha moral; não ponhais a candeia debaixo do alqueire; buscai e achareis; daí gratuitamente o que gratuitamente recebestes; pedi e obtereis; coletânea de preces espíritas.

O céu e o inferno é o quarto livro do Pentateuco Kardeciano; tem como subtítulo “ A justiça Divina segundo o Espiritismo”. Contém, segundo o resumo constante em sua folha de rosto, o: “exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e os demônios, sobre as penas, etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação real da alma durante e depois da morte’.

PARTE PRIMEIRA: Com onze capítulos: o porvir e o nada; temor da morte; o céu e o inferno; o purgatório; doutrina das penas eternas; as penas futuras segundo o espiritismo; os anjos ; os demônios; intervenção dos demônios nas modernas manifestações; da proibição de evocar os mortos.

PARTE SEGUNDA. Exemplos: Com oito capítulos: o passamento; espíritos felizes; espíritos em condições medianas; espíritos sofredores; suicidas; criminosos arrependidos; espíritos endurecidos; expiações terrestres.

O quinto e último livro tem no respectivo frontispício o título completo - “Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo” e mais este resumo:

“A Doutrina Espírita há resultado do ensino coletivo e concordante dos Espíritos”.

A ciência é chamada a constituir a Gênese de acordo com as leis da natureza.

Deus prova a sua grandeza e seu poder pela imutabilidade das suas leis e não pela ab-rogação delas.

Para Deus, o passado e o futuro são o presente’.

Esta obra se divide nas seguintes partes: introdução. A gênese, com doze capítulos, a saber: caráter da revelação espírita; Deus; o bem e o mal; papel da ciência na gênese; antigos e modernos sistemas do mundo; uranografia geral; esboço geológico da Terra; teorias sobre a formação da Terra; revoluções do globo; gênese orgânica; gênese espiritual e mosaica. Os milagres, com três capítulos, a saber: caracteres dos milagres; os fluidos; os milagres no Evangelho. As predições, também com três capítulos: teoria da presciência: predições do Evangelho; os tempos são chegados.

Respeitando os abalizados estudiosos do Pensamento Espírita somos de parecer que deve ser incluída como Obra Básica o “O Que É o Espiritismo?”.

X - TRÍPLICE ASPECTO DA DOUTRINA ESPÍRITA

“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que dimanam dessas mesmas relações”.

Podemos defini-lo assim:

O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.”Em vista disto, constituindo a Doutrina Espírita um sistema de princípios filosóficos e éticos, de comprovação científica, apresenta três notórios aspectos: os filosóficos, o científico e o religioso”.

“... Quando o homem pergunta, interroga, cogita, quer saber o” como e o "porque” das coisas, dos fatos, dos acontecimentos, nasce a FILOSOFIA, que mostra o que são as coisas e porque são as coisas. (...) “.

O caráter filosófico do Espiritismo está, portanto, no estudo, que faz, do homem, sobretudo Espírito, de seus problemas, de sua origem, de sua destinação. Esse estudo leva ao conhecimento do mecanismo das relações dos homens, que vivem na Terra, com aqueles que já se despediram dela, temporariamente, pela morte, estabelecendo as bases desse permanente relacionamento, e tudo comanda inteligentemente - Deus.

Definindo as responsabilidades do espírito - quando encarnado (Alma) e também quando desencarnado, o Espiritismo é Filosofia, uma regra moral de vida e comportamento para os seres da Criação, dotados de sentimento, razão e consciência.(...).

O Espiritismo não se constitui de uma religião a mais, visto que não tem culto instituído, nem igrejas, nem imagens, nem rituais, nem dogmas, mitos ou crendices, nem tão pouco hierarquia sacerdotal. Podemos, porém considerá-lo em seu aspecto religioso, quando estabelece um laço moral entre os homens, conduzindo-os em direção ao Criador, através da vivência dos ensinamentos do Cristo. É no seu aspecto religioso que “(...) repousa a sua grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus, estabelecendo a renovação definitiva do homem, para a grandeza do seu imenso futuro espiritual. (...)”

“(...) Espiritismo passa de Filosofia à Ciência, quando confirma, pela experimentação, os conhecimentos filosóficos, que prega e dissemina. (...)”.

“Como filosofia, trata do conhecimento frente à razão, indaga dos princípios, das causas, perscruta o Espírito, enfim, interpreta os fenômenos; como ciência, prova-os”.

Os fatos ou fenômenos espíritas, isto é, produzidos por espíritos desencarnados, são substância mesma da ciência Espírita e seu objeto é o estudo e o conhecimento desses fenômenos, para a fixação das leis que os regem. (...)”.

“(...) No seu aspecto científico e filosófico, a doutrina será sempre um campo nobre de investigações humanas, como outros movimentos coletivos de natureza intelectual, que visam o aperfeiçoamento da Humanidade. (...)”.

No aspecto filosófico do Espiritismo, enquadra-se o estudo dos problemas da origem e da destinação do homem, bem como o da existência de uma inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

No aspecto científico, demonstra experimentalmente a existência da alma e sua imortalidade, principalmente através do intercâmbio mediúnico entre os encarnados e os desencarnados.

O Espiritismo não se constitui uma religião a mais, visto que não tem culto....Sim A RELIGIÃO.

O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as relações com o mundo corpóreo, (...)”. “(...) É ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica (...), compreendendo “todas as conseqüências morais que dimanam dessas mesmas relações”.

Através dos ensinamentos espíritas pode-se fazer uma diferença entre Religião, propriamente dita, e religiões no sentido de seitas humanas. “Religião, para todos os homens, deveria compreender-se como sentimento divino que clarifica o caminho das almas e que cada espírito aprenderá na pauta do seu nível evolutivo. Neste sentido, a Religião é sempre a face augusta e soberana da Verdade; porém, na inquietação que lhes caracteriza a existência na Terra, os homens se dividiram em numerosas religiões como se a fé também pudesse ter fronteira (...)”.

“(...) A Religião é o sentimento divino que prende o homem ao Criador. As religiões são organizações dos homens, falíveis e imperfeitas como eles próprios; dignas de todo o acatamento pelo sopro e inspiração superior que as faz surgir, são como gotas de orvalho celeste, misturados com os elementos da Terra em que caíram. (...)”.