Educação e Desenvolvimento da Mediunidade - II

Valdomiro Halvei Barcellos

(continuação)

XI - O CONSOLADOR PROMETIDO POR JESUS

O Consolador prometido por Jesus, também designado pelo apóstolo João como o Santo Espírito, seria enviado a Terra com a missão de consolar e lidar com a verdade. “(...) Sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade, Jesus anunciou a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele dissera”, ressalta Kardec.

O Consolador, como o Espírito de Verdade, dará aos encarnados o conhecimento de sua origem, da necessidade de sua estada na Terra e do seu destino, bem como espalhará a consolação pela fé e pela esperança.

Constitui o Espírito Consolador, portanto, a Terceira Revelação de Deus aos povos do ocidente, e procede de Espíritos sábios e bondosos, que, do Além, enviaram os seus ensinamentos através dos instrumentos mediúnicos, num verdadeiro derramamento da mediunidade na carne.

A Revelação Cristã sucedeu à revelação Mosaica; a revelação dos Espíritos veio completá-la. Várias são as razões que justificam a promessa do Cristo, o aparecimento do Espírito de Verdade, como o Consolador. Uma delas seria a inoportunidade de uma revelação total e completa pelo Cristo, numa época em que o homem não estaria amadurecido para compreendê-la. Outra razão é a do esquecimento dos homens das verdades apregoadas no seu Evangelho. Mais do que isto, destacam-se, como outra razão ainda, as distorções premeditadas que a mensagem evangélica sofreu ao longo dos tempos. Foram “(...) dois mil anos de fermentação (...), de criminosas deformações da mensagem cristã.”

A relação entre o Espiritismo e o Consolador está no fato de a Doutrina Espírita conter “(...) todas as condições do Consolador que Jesus prometeu”; ou seja, “(...) o Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos, pois fala sem figuras, sem alegorias, levantando o véu intencionalmente lançado sobre certos mistérios; vem, finalmente, trazer a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem (...)”.

Finalmente, se de um lado o Espírito de Verdade se apresentava aos homens, à frente de elevadas entidades espirituais, que voltaram a Terra para completar a Obra do Cristo, de outro lado Kardec se coloca a postos, à frente de criaturas espiritualizadas, dispostas a colaborarem na imensa tarefa. “(...)”.

Kardec foi o instrumento de que se serviu o Alto para completar a mensagem do Cristo, que Ele mesmo havia prometido.

XII - JUSTIÇA DIVINA

CÓDIGO PENAL DA VIDA FUTURA

1°. A ALMA OU ESPÍRITO sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as imperfeições que não consegue corrigir na vida corporal. O seu estado feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

2°. A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.

3°. Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.

A soma das penas é, assim proporcionada à soma das imperfeições, como a dos gozos à das qualidades.

A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que têm três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade ou quarto, menos sofrerá.

De todo extintas, então a alma será perfeitamente feliz. Também na Terra, quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez perfeições, tem mais gozos do que outra menos rica de boas qualidades.

4°. Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, temos que o futuro é aberto a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.

5°. Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito.

O INFERNO está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o CÉU igualmente onde houver almas felizes.

6°. O bem e o mal que fazemos decorrem das qualidades que possuímos. Não fazer o bem quando podemos é, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre.

7°. O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as conseqüências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.

8°. Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento mau que não tenha conseqüências fatais, como não há uma única ação meritória, um só movimento da alma que se perca, mesmo para os mais perversos, por isso que constitui tais ações um começo de progresso.

9°. Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguinte, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.

10°. O Espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a conseqüência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências.

11°. A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida.

12°. Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do castigo: - a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo ato meritório, segundo o seu valor.

13°. A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.

Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimento é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao bem.

Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e anulá-los pela prática do bem.

Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do espírito renegado, ou de o libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando não existe mais (Vide Cap. VI, n°25, citação de Ezequiel, na obra O Céu e o Inferno. A. Kardec.); por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.

14°. Dependendo da melhoria do Espírito a duração do castigo, o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a pena seria eterna.

15°. Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não lobrigarem o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. (Perpétuo é sinônimo de eterno. Diz-se o limite das neves perpétuas; o eterno gelo dos pólos; também se diz o secretário perpétuo da Academia, o que não significa que o seja Ad perpetuam.... (idem 14°, acima).

16°. O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.

ARREPENDIMENTO, EXPIAÇÃO E REPARAÇÃO constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.

17°. O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.

Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são conseqüentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.

A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem as havia feito o mal. Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiveram queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimentos e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo; em tais casos a reparação se opera fazendo-se o que se deveria fazer e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se humilde se se tem sido orgulhoso, amável se se foi austero, caridoso se se tem sido egoísta, benigno se se tem sido perverso, laborioso se se tem sido ocioso, útil se se tem sido inútil, frugal se se tem sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpretados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do próprio passado. (A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça, que se pode considerar verdadeira lei de reabilitação moral dos Espíritos. Entretanto, essa doutrina religião alguma ainda a proclamou. Algumas pessoas repelem-na porque acham mais cômodo o poder quitarem-se das más ações por um simples arrependimento, que não custa mais que palavras, por meio de algumas fórmulas; contudo, crendo-se, assim, quites, verão mais tarde se isso lhes bastava. Nós poderíamos perguntar se esse princípio não é consagrado pela lei humana, e se a justiça divina pode ser inferior à dos homens? E mais, se essas leis se dariam por desafrontadas desde que o indivíduo que as transgredisse, por abuso de confiança, se limitasse a dizer que as respeita infinitamente.

Por que hão de vacilar tais pessoas perante uma obrigação que todo o homem honesto se impõe como dever, segundo o grau de suas forças?

Quando esta perspectiva de reparação for inculcada na crença das massas, será um outro freio aos seus desmandos, e bem mais poderoso que o inferno e respectivas penas eternas, visto como interessa à vida em sua plena atualidade, podendo o homem compreender a procedência das circunstâncias que a tornam penosa, (a sua verdadeira situação).

18°. Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem as suas faltas pelas tribulações da vida, e purificando-se das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Se se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é sem dúvida, nesses mundos de expiação, em torno dos quis pululam Espíritos imperfeitos, desencarnados à espera de novas existências que lhes permitam reparar o mal, auxiliando-os no progresso.

19°. Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o domina.

Então, desde que se manifestem os primeiros vislumbrar de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir, votado à eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas.

20°. Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda (guia) que por eles vela, na persuasão de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e, bem assim, de espreitar-lhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.

O bem e o mal são praticados em virtude do livre-arbítrio, e, conseguintemente, sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou para outro sentido.

Persistindo no mal, sofrerá as conseqüências por tanto tempo quanto durar a persistência, do mesmo modo que dando um passo para o bem, sente imediatamente benéficos efeitos.

OBSERVAÇÃO: Erro seria supor que, por efeito da lei do progresso, a certeza de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode estimular a perseverança no mal, sob a condição do ulterior arrependimento: primeiro porque o Espírito inferior não se percebe do termo da sua situação; e segundo porque, sendo ele o autor da própria infelicidade, acaba por compreender que de si depende o fazê-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar no mal será infeliz; finalmente, que o sofrimento será intérmino se ele próprio não lhe der fim. Seria, pois, um cálculo negativo, cujas conseqüências o Espírito seria o primeiro a reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se verifica, precisamente, tal hipótese, visto como é para sempre interdita qualquer idéia de esperança, não tendo pois o homem interesse em converter-se ao bem, para ele sem proveito.

Diante dessa lei, cai também a objeção extraída da presciência divina, pois, Deus, criando uma alma, sabe efetivamente se, em virtude do seu livre-arbítrio, ela tomará a boa ou a má estrada; sabe que ela será punida se fizer o mal; mas sabe também a que tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro, cedo ou tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das penas eternas conclui -se que Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que está previamente condenada a torturas infinitas.

A responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo.

Assim, o suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro a comete-lo, esse sofre ainda maior pena.

22°. Conquanto infinita a diversidade de punições, algumas há inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas conseqüências, salvo pormenores, são pouco mais ou menos idênticas.

A punição mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir pela lentidão do desprendimento da alma; nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na conseqüente perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.

Naqueles que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida espiritual, o trespasse é rápido, sem abalos, quase nula a turbação de um pacífico despertar.

23°. Um fenômeno mui freqüente entre os Espíritos de certa inferioridade moral é o acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e perplexidades da vida.

24°. Para o criminoso, a presença incessante das vítimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel.

25°. Espíritos hão mergulhado em densa treva; outros se encontram em absoluto insulamento no Espaço, atormentados pela ignorância da própria posição, como da sorte que os aguarda. Os mais culpados padecem torturas muito mais pungentes por não lhes entreverem um termo.

Alguns são privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passam com intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações que a outrem ocasionaram. Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo arrependimento lhes traga a calma para entrever a possibilidade de, por eles mesmos, pôr termo à sua situação.

26°. Para o orgulhoso relegado às classes inferiores, é suplício ver acima dele colocados, cheios de glória e bem-estar, os que na terra desprezara. O hipócrita vê desvendados, penetrados e lidos por todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular; o sátiro, na impotência de os saciar, tem na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz tormento; vê o avaro o esbanjamento inevitável do seu tesouro, enquanto que o egoísta, desamparado de todos, sofre as conseqüências da sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe serão mitigadas, nem amigas mãos se lhe estenderão às suas mãos súplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém dele se compadecerá na morte.

27°. O único meio de evitar ou atenuar as conseqüências futuras de uma falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas conseqüências.

28°. A situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão a por si mesmo preparada na vida corpórea.

Mais tarde, outra ENCARNAÇÃO se lhe faculta para novas provas de expiação e reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu livre-arbítrio; e se ele não se corrige, terá sempre uma missão a recomeçar, sempre e sempre mais acerba, de sorte que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito tinha a expiar; e os que gozem uma felicidade aparente, em que pese aos seus vícios e inutilidades, pagá-la-ão mui caro em ulterior existência. Nesse sentido foi que Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap V.)

29°. Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver satisfeito à justiça, sofre a conseqüência dos seus erros. Por infinita misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção.

30°. Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade humana, as penas, por temporárias, constituem concomitantemente castigos e remédios auxiliares à cura do mal. Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais galés por certo tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de moléstias resultantes da própria incúria, a compadecerem-se com meios curativos mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama, esperando alta tanto mais pronta quanto mais estritamente observadas as prescrições do solícito médico assistente. Se os doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.

31°. Às penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se as da vida corpórea, que são conseqüentes às imperfeições do homem, às suas paixões, ao mau uso das suas faculdades e à expiação de presentes e passadas faltas. É na vida corpórea que o Espírito repara o mal de anteriores existências, pondo em práticas resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e vicissitudes mundanas que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser. Justas são elas, no entanto, como espólio do passado - herança que serve à nossa romagem para a perfectibilidade. (Vede 1ª parte, cap V, ‘O PURGATÓRIO’, n°3 e seguintes; e, após, 2ª parte, cap.VIII, “EXPIAÇÕES TERRESTRES’. Vede, também, O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, cap. V,” BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS’.).

32°. Deus, diz-se, não daria prova maior de amor às suas criaturas, criando-as infalíveis e, por conseguinte, isentas dos vícios inerentes à imperfeição? Para tanto fora preciso que Ele crie seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, que em conhecimentos, que em moralidade. Certo, porém, Deus poderia fazê-lo, e se o não fez é que em sua sabedoria quis que o progresso constituísse lei geral. Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. E pois que o fato existe, devemos aceita-lo.

Inferir dele que Deus não é bom nem justo, fora insensata revolta contra a lei.

Injustiça haveria, sim, na criação de seres privilegiados, mais ou menos favorecidos, fruindo gozos que outros porventura não atingem senão pelo trabalho, ou que jamais pudessem atingir. Ao contrário, justiça divina patenteia-se na igualdade absoluta que preside à criação dos espíritos; todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas.

Isto posto, nada mais justo que a liberdade de ação a cada qual concedida. O caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a todos as mesmas condições para atingí-la. A lei, gravada em todas as consciências, a todos é ensinada. Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo, para que cada qual tivesse seu mérito.

Todos somos livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si mesmo.

O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é fatalmente impelido para um nem para outro.

33°. Em que pese à diversidade de gênero e graus de sofrimentos dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode resumir-se nestes três princípios:

1° - O sofrimento é inerente à imperfeição.

2° - Toda imperfeição, assim como toda falta dela promanada, traz consigo o próprio castigo nas conseqüências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada falta ou indivíduo.

3° - Podendo todo o homem libertar-se das imperfeições por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.

A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: -- TAL É A LEI DA JUSTIÇA DIVINA.

XIII - O PRINCÍPIO DA AÇÃO E REAÇÃO OU LEI DE CAUSA E EFEITO, OU AINDA, LEI DO CARMA E O LIVRE-ARBÍTRIO

“Carma vem do sânscrito Karman, que é um nome - forma vindo da raiz kri, que significa fazer . Literalmente, Carma significa fazer, ato, ação”.

Usada no sentido filosófico, a palavra carma tem um significado técnico que pode ser mais bem traduzido para o português pela palavra “CONSEQUÊNCIA”.

Todas as nossas ações geram reações, conseqüências. Cada vida humana é o resultado de uma séria de causas e efeitos - uma condensação de ações passadas, algumas das quais praticadas em vidas pretéritas (reencarnações) bem recuadas. Essa interligação de causa e efeito ou carma é uma das Leis Imutáveis de Deus que regulam o equilíbrio Cósmico Universal. E o homem, como unidade do Universo, está sujeito a essa Lei.

Não se pense por isso que Carma tem a mesma acepção de “fatalidade”, “destino, ou de “acaso”. A Lei do Carma está relacionada com o Livre-Arbítrio, já que, de forma natural, ou seja, segundo as Leis de Deus, quem inicia um movimento ou ação é responsável, daí por diante, por todas as reações ou conseqüências dos seus atos.

Dessa forma, os construtores de nosso destino somos nós mesmos e depois ficamos sujeitos à fatalidade daquilo que construímos.

O presente não pode ser explicado senão como fruto do passado, das ações livremente desencadeadas, cujas conseqüências são o que agora chamamos o nosso destino.

Da mesma forma que o passado representa a semeadura do presente, o presente representa a semeadura do futuro. “A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”. Colhemos o que plantamos. Tal é a Lei.

Não se pode dizer, com isso, que Deus ou a Lei do Carma “castiga” ou “recompensa”, no sentido comum desses termos. A Lei do Carma (Lei de Causa e Efeito ou Princípio de Ação e Reação) é infalivelmente justa. Sua aplicação depende de nós mesmos. Cada homem é o seu próprio carrasco ou o seu próprio juiz absoluto.

A doutrina que explica a Lei do Carma é bastante consoladora para as mentes humanas, pois por ela o homem compreende que pode traçar o seu próprio destino e é assim que, invariavelmente, o faz. O homem é o arquiteto do seu próprio destino, através de causas iniciativas no passado. Cada vida é, assim, o resultado de um conjunto único de causas e efeitos.

De todo este encadeamento lógico ressalta que “...a liberdade é a condição necessária da alma humana, que, sem ela, não poderia construir seu destino.”

“Apesar da liberdade do homem parecer, à primeira vista, muito restrita pelas próprias limitações das condições físicas, sociais ou interesses de cada um, na realidade, sempre podemos contornar tais obstáculos e agir da maneira que mais nos pareça acertada.”

“A liberdade e a responsabilidade são correlativas no ser e aumentam com sua elevação; é a responsabilidade do homem que faz sua dignidade e moralidade. Sem ela, não seria ele mais do que um autômato, um joguete das forças ambientais.”

“Quando resolvemos fazer ou deixar de fazer alguma coisa a nossa consciência sempre nos alerta a respeito, aprovando-nos ou censurando-nos”.

Apesar da voz íntima nos alertar, sempre usamos o que foi decidido pela nossa vontade ou livre-arbítrio. Nada nos coage nos momentos de decisões próprias, daí ser correto afirmar que somos responsáveis pelos nossos atos. Somos os construtores do nosso destino.

“Livre-arbítrio é, pois, definido como a faculdade que tem o indivíduo de determinar a sua própria conduta, ou, em outras palavras, a possibilidade que ele tem de, “entre duas ou mais razões suficientes de querer ou de agir, escolher uma delas e fazer que prevaleça sobre as outras.”

“Aceitar a vida guiada por um determinismo onde todos os acontecimentos estão fatalmente pré-estabelecidos, é raciocinar de uma maneira muito simplista, senão ingênua; porque, se assim fosse, o homem não seria um ser pensante, laborativo, capaz de tomar resoluções e de interferir no progresso; seria apenas uma máquina robotizada, irresponsável, à mercê dos acontecimentos.”

“Fatalidade existe unicamente pela escolha que o Espírito fez, ao reencarnar, desta ou daquela prova para sofrer...”

“O livre-arbítrio, a livre vontade do Espírito exerce-se principalmente na hora das reencarnações. Escolhendo tal família, certo meio social, ele não sabe de antemão quais são as provas que o aguardam, mas compreende, igualmente, a necessidade destas provações para desenvolver suas qualidades, curar seus defeitos, despir seus preconceitos e vícios. Estas provações podem também ser conseqüência de um passado nefasto, que é preciso reparar, e ele aceita-se com resignação e confiança.”

“As vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa... Duas espécies são as vicissitudes da vida: -- umas tem sua causa na vida presente; outras fora desta vida; remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são conseqüências natural do caráter e do proceder dos que o suportam.”

XIV - PENAS E GOZOS FUTUROS; DURAÇÃO DAS PENAS

O conceito de céu e de inferno para a Doutrina Espírita difere totalmente do conceito católico ou protestante. E espiritismo nos esclarece que não há regiões circunscritas de beatífica felicidade (céu) ou de sofrimentos atrozes e eternos (inferno).

O céu, na verdade, é o resultado de um estado de espírito caracterizado por uma intensa felicidade, no qual não há espaço para o mal e nem para a tristeza. O inferno, por sua vez, pode ser traduzido por uma vida de provações extremamente dolorosas, sem perspectivas de uma vida melhor.

O estado da alma após o desencarne, estado de felicidade ou de sofrimento, depende dos atos praticados nesta e em outras vidas. Não há recompensa ou sofrimento gratuito e eterno; há sim o resultado da Lei de Causa e Efeito (carma). A soma das penas é proporcional à soma das imperfeições, assim como o gozo e a felicidade celestial resulta das virtudes cultivadas em vida.

Como há uma Lei do Progresso (Lei de Deus) que faculta a todas as almas atingir a perfeição, através do arrependimento, da expiação e da reparação, juntamente com a possibilidade das reencarnações, temos que o inferno é um estado de alma transitório e está em toda a parte onde haja almas sofredoras, assim como o céu está igualmente onde houver almas felizes.

CONDIÇÕES PARA A REMISSÃO DAS PENAS

O espírito para se libertar do círculo da dor e do sofrimento, inclusive da necessidade de reencarnar, causados pelo uso perverso ou equivocado do livre-arbítrio, que o leva a desrespeitar a Lei de Deus, consciente ou inconscientemente, conhecedor ou ignorante da Lei, necessita expiar as faltas cometidas.

“A expiação varia segundo a natureza e a gravidade da falta podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida...

O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são necessárias e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.

A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contato com as mesmas pessoas que de si tiveram queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes o reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito.”

“Compreendendo, assim, o significado de penas e recompensas, devemos nos esforçar para reparar as faltas cometidas em vidas anteriores, ou nesta vida mesmo, e aproveitar ao máximo a experiência e a oportunidade na carne, buscando incessantemente o progresso moral.

“Toda conquista na evolução é problema natural de trabalho, porque todo progresso tem preço; no entanto, o problema crucial que o tempo impõe é débito do passado, que a Lei apresenta à cobrança.

Retifiquemos a estrada, corrigindo a nós mesmos.

Resgatemos nossas dívidas, ajudando e servindo sem distinção.

Tarefa adiada é luta maior e toda atitude negativa, hoje, diante do mal, será juro de mora no mal amanhã.”

Concluindo,(VIDE ÍTEM XII, n°33).

XV - A PRECE

QUALIDADE DA PRECE

Quando orardes, não vos assemelheis aos hipócritas, que fingem orar conservando-se em pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo que já receberam as suas recompensas. Mas, quando quiserdes orar, entrai no vosso o quarto e, fechando a porta, orai a vosso Pai em segredo; e o vosso Pai, que vê tudo o que se passa em segredo, vos dará a recompensa.

Não afeteis orar muito em vossas preces, como fazem os pagãos, julgando que pela qualidade de palavras serão atendidos. Não vos torneis semelhantes a eles, porque vosso Pai sabe do que necessitais antes de lho pedirdes.(Mt.Cap. VI, 5 a 8).

Quando vos aprestardes para orar, se tiverdes alguma queixa contra alguém, perdoai-lha a fim de que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe também os pecados. Se não lhe perdoardes, vosso Pai, que está nos céus, também não perdoará os vossos pecados. (Mc.Cap. XI, 25 e 26).

Propôs também esta parábola aos que confiavam em si, como se fossem justos e desprezavam os outros:

Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu, publicano o outro. O fariseu, de pé, orava intimamente desta forma: Meu Deus, graças vos dou por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem mesmo como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo o que possuo.

O publicano, pelo contrário, conservando-se afastado, nem mesmo ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tende piedade de mim, que sou pecador.

Eu vos declaro que este voltou para sua casa, justificado, e o outro não; porque aquele que se exalta será humilhado e aquele que se humilha será exaltado.(Lc.Cap.XVIII, 9a 14).

As qualidades da prece foram, assim, distintamente definidas por Jesus. Quando quiserdes orar, disse ele, evitai que vos vejam; orai secretamente; evitai orar muito, pois não é pela multiplicidade das palavras que sereis atendidos, mas pela sinceridade da prece. Se, antes de orar, tiverdes algum ressentimento contra alguém, perdoai-lhe, porque a prece deixa de ser agradável a Deus, quando não parte de um coração puro de todo o sentimento contrário à caridade. Orai, enfim, com humildade, como o publicano, e não com orgulho, como o fariseu; examinai as vossas faltas e não as vossas qualidades, e, quando vos comparardes aos outros , procurai o que de mal existe em vós.

EFICÁCIA DA PRECE

Tudo quanto pedires pela prece, crede que obtereis e que vos será concedido.(Mc.Cap. XI, 24).

Há pessoas que contestam a eficácia da prece, fundada em que conhecendo Deus a nossa necessidade, é supérfluo que lhas exponhamos, Acrescentam que encadeando-se todo o Universo por meio de leis eternas, não podem os nossos votos alterar os decretos de Deus. Sem dúvida alguma, existem leis naturais e imutáveis, que Deus não derrogaria conforme o capricho de cada um; mas daí a se crer que todas as circunstâncias da vida são submetidas à fatalidade vai grande distância. Se assim fora, o homem não seria mais que um instrumento passivo, sem livre-arbítrio e sem iniciativa, hipótese em que só lhe restaria curvar a cabeça sob o peso de todos os acontecimentos, sem buscar evitá-los, sem procurar desviar-lhe os golpes. Se Deus lhe concedeu raciocínio e inteligência, foi para que deles se servisse, assim como lhe deu a vontade para querer, a atividade para ser posta em ação. O homem, pela liberdade que tem de agir em outro sentido, é que faz com que seus atos lhe tragam para si e para outrem conseqüências derivadas do que ele praticou ou deixou de praticar. Da sua iniciativa se originam acontecimentos que escapam forçosamente à fatalidade e que nem por isso destróem a harmonia das leis universais, do mesmo modo que o adiantamento ou o atraso do ponteiro do relógio não derroga a lei do movimento a que esta sujeito o mecanismo.

Assim, Deus pode aceder a certos pedidos sem infirmar a imutabilidade das leis que regem o conjunto, dependendo sempre isso do assentimento de sua vontade.

Seria ilógico concluir desta máxima: “Tudo quanto pedirdes pela prece vos será concedido”, que baste pedir para obter; como injusto fora acusar a Providência por não anuir a todos os pedidos que lhe são feitos, porquanto, melhor que nós, ele sabe o de que necessitamos. Dessa maneira é que procede o pai prudente: recusa ao filho o que seja contrário ao interesse deste. Em geral, o homem só vê o presente. Ora, se o sofrimento é útil à sua felicidade futuro, claro está que Deus o deixará sofrer, como o cirurgião deixa que o doente sofra numa operação que lhe trará a cura.

O que Deus poderá conceder, se confiante o homem lhe suplicar, é a coragem. Na paciência e na resignação, igualmente encontra ele meios de escapar aos embaraços, pelo auxílio das idéias que os bons Espíritos lhe sugerem, deixando-lhe, porém, o mérito da ação. Deus assiste os que se ajudam a si mesmos, confirmando esta máxima: “Ajuda-te e o céu te ajudará”. Não auxilia os que tudo esperam do socorro estranho, sem usar das próprias faculdades, sem nada fazer, preferindo a maior parte das vezes ser socorrido por milagre.

Exemplifiquemos: Um homem se extraviou no deserto. Sofreu horrível sede, sente-se desfalecer, deixa-se cair no chão, e pede a Deus assistência. Espera, mas nenhum anjo lhe vem trazer água. Todavia, um bom Espírito lhe sugere a idéia de se levantar e seguir um dos atalhos que vê diante de si. Por movimento maquinal, reunindo todas as forças, levanta-se e caminha ao acaso. Chegando a uma proeminência, descobre ao longe um regato, e, ao vê-lo, recobra a coragem. Ora, se ele tiver fé, exclamará: “obrigado meu Deus, pela idéia que me inspiraste e pela força que me deste”. Se na tiver fé, exclamará: Que boa idéia tive eu! Que fortuna em preferir o atalho da direita ao da esquerda; realmente o acaso nos auxilia muitas vezes! Como me felicito pela minha coragem me por me não haver deixado desanimar! Mas, perguntarão, por que não lhe disse claramente o bom Espírito: Segue por este atalho e ao fim encontrarás o que precisas? Por que não se mostrou para guiá-lo e erguê-lo do abatimento? Por esse modo o convenceria da intervenção providencial.

Tal não se deu, primeiro, para que ele aprendesse ser preciso ao homem auxiliar-se a si mesmo, fazendo uso das próprias forças; segundo, para, deixando-o na incerteza, despertar-lhe a fé. Deus põe em prova a confiança nele depositada e a submissão à sua vontade. Aquele homem se achava na situação de uma criança que cai e, se percebe alguém, grita e espera que esse alguém venha levantá-la. Se, porém, não vê ninguém, faz esforços e ergue-se sozinha.

Se o anjo que acompanhou Tobias lhe houvera dito: “Sou enviado de Deus para te guiar na tua viagem e preservar-te dos perigos”, Tobias não teria tido mérito algum. Confiando no companheiro, nem precisaria pensar; por isso, o anjo só se deu a conhecer quando ele regressou.

AÇÃO DA PRECE. TRANSMISSÃO DO PENSAMENTO

A PRECE É UMA EVOCAÇÃO. Por meio dela pomos o pensamento em relação com o ente a quem a dirigimos. Pode ter por escopo um pedido, um agradecimento, uma glorificação. Quem a faz pode pedir para si ou para outrem, pelos vivos ou pelos mortos. As preces dirigidas a Deus são ouvidas pelos Espíritos encarregados da execução da vontade divina; as que se dirigem aos bons Espíritos são levadas a Deus. Quando se ora a outros seres, alem de Deus, é simplesmente como a intermediários ou intercessores, pois nada se pode obter sem a vontade de Deus.

O Espiritismo faz compreender a ação da prece, explicando o processo da transmissão do pensamento, que o ser por quem se ora venha ao nosso chamado, quer o nosso pensamento chegue até ele. Para compreender o que se passa nessas circunstâncias, convém imaginar que todos os seres, encarnados e desencarnados, se acham mergulhados no mesmo fluido universal que enche o Espaço, tal qual o estamos, neste planeta, na atmosfera. Aquele fluido recebe uma impulsão da vontade.

É o veículo do pensamento, tal qual o ar é o veículo do som, com a diferença de que as vibrações do ar são circunscritas, ao passo que as do fluido universal se estendem ao infinito.

Então, logo que o pensamento é dirigido para um ser qualquer, na Terra ou no Espaço, de encarnado a desencarnado ou vice e versa, uma corrente fluídica se estabelece, de um para outro, transmitindo o pensamento, tal qual o ar transmite o som.

A energia da corrente está na razão da energia do pensamento e da vontade. É por esse meio que a prece chega aos Espíritos, estejam onde estiverem; que eles se comunicam entre si; que nos transmitem suas inspirações; que as relações se estabelecem à distância, entre os encarnados, etc.

Esta explicação é principalmente dada a quem não compreende a utilidade da prece puramente mística. Não tem por fim materializar a prece, mas dar-lhe efeito inteligível, demonstrando que ela pode ter ação direta, efetiva, sem que por isso o seu efeito deixe de estar subordinado à vontade de Deus, juiz supremo de todas as coisas, de quem, somente, depende a eficácia daquela ação.

Pela prece o homem atrai o concurso dos bons Espíritos, que vêm sustentá-lo nas boas resoluções e inspirar lhe bons pensamentos. Assim, adquire ele a força necessária para vencer as dificuldades e entrar no bom caminho, se deste se houver afastado. Também assim, desviará de si os males que por sua culpa atraísse. Por exemplo: um homem vê a sua saúde arruinada pelos excessos cometidos e arrasta, até ao fim de seus dias, uma vida de sofrimentos. Terá razão de se queixar quando não alcançar a cura? Não, porque pela prece poderia ter obtido força para resistir às más tentações.

Separando-se os males da vida em duas partes, uma formada pelas tribulações que o homem não pode evitar e a outra pelas que lhe causam sua incúria e excessos, ver-se-á que esta excede de muito àquela. Torna-se, pois, evidente que o homem é o autor da maior parte das suas aflições, e que as evitaria se sempre agisse com prudência e acerto.

É igualmente real que essas misérias resultam de infringirmos as leis de Deus, e que, se as observássemos, fielmente, seríamos perfeitamente felizes. Se não excedêssemos o limite do necessário na satisfação das nossas necessidades, evitaríamos as enfermidades que são a conseqüências dos excessos, e as vicissitudes a que essas moléstias nos arrastam; se limitássemos as nossas ambições, não teríamos a ruína; se não quiséssemos subir além do que podemos, não teríamos a queda; se fôssemos humildes, não passaríamos pela decepção de ver abatido o nosso orgulho; praticássemos a lei da caridade, não seríamos mendigos, nem invejosos ou ciumentos; evitaríamos questiúnculas e as dissensões; se não fizéssemos mal aos outros, não recearíamos as vinganças, etc.

Admitindo que o homem nada possa contra os outros males, e que a prece seja ineficaz para deles preservá-lo, já não será bastante que possa libertar-se de todos os que provêm de si mesmo? Ora, aqui a ação da prece se concebe facilmente, pois tem por fim obter a inspiração salutar dos bons Espíritos e a força para resistir aos maus pensamentos, cuja execução pode ser funesta. Neste caso, não é o mal que eles desviam, mas o nosso mau pensamento que, aliás, nos pode causar mal; não embaraçam, em coisa alguma, os decretos de Deus; não suspendem o curso das leis da natureza; apenas impedem que infrinjamos essas leis, dirigindo o nosso livre-arbítrio. Mas fazem-no sem que o saibamos, de modo oculto, para não nos tolher a vontade. O homem ficará, então, na posição de quem solicita bons conselhos e os põe em prática, mas conservando sempre a liberdade de os seguir ou não. Deus assim o quer para que o homem tenha responsabilidade dos seus atos e para lhe deixar o mérito da escolha entre o bem e o mal. Isso, o homem pode ter a certeza de obter sempre, se o pede com fervor. A esse caso é que se aplicam estas palavras do Evangelho: “Pedi e obtereis”.

Reduzida mesmo a esta proporção, a eficácia da prece não traria imensos resultados? Ao Espiritismo estava reservado demonstrar-nos seus efeitos, revelando as relações existentes entre o mundo corporal e o espiritual. Mas aqueles não são os seus únicos efeitos. A prece é recomendada por todos os espíritos; renunciar a ela é desconhecer a bondade de Deus, é renunciar à sua assistência e ao bem que pode alcançar aquele que ore, e bem assim aquele por quem se ore.

Acedendo ao pedido que lhe é dirigido, Deus tem muitas vezes em vista recompensar o intuito, a dedicação e a fé daquele que ora. Eis por que a prece do homem de bem tem mais mérito aos olhos de Deus, e sempre mais eficácia. O homem viciado e mau não pode orar com fervor e com a confiança que somente a verdadeira piedade inspira. Do coração do egoísta, que apenas pelos lábios ora, só palavras saem, jamais os impulsos caridosos que dão a prece grande poder. É tão real isto, que, instintivamente, os egoístas recorrem de preferência as preces daqueles que, por sua conduta mais agradável a Deus, são mais ouvidos.

Uma vez que a prece exerce uma espécie de ação magnética, poder-se-ia supor o seu efeito subordinado à potência fluídica. Mas, assim não é. Os Espíritos, pela ação fluídica que exercem sobre os homens, suprem, se preciso, a influência de quem ora, que atuando diretamente em seu nome, quer dando-lhe momentaneamente uma força excepcional, quando digno desse favor ou quando a súplica possa ser útil.

Aquele que não se julgue em condições de exercer salutar influência, nem por isso deve abster-se de orar em favor de outrém, acreditando-se indigno de ser ouvido. A consciência de sua inferioridade é uma prova de humildade, sempre agradável a Deus, que leva em conta a intenção caridosa. O fervor e a confiança em Deus são o primeiro passo para o bem, passo que os bons Espíritos se sentem felizes em incentivar. Repelida só o é a prece do orgulhoso que, confiante na sua força e no seu merecimento, crê poder substituir-se à vontade do Eterno.

O valor da prece esta no pensamento, sem dependência de local, de palavras e de ocasião em que seja formulada. Portanto, pode-se orar em qualquer lugar e a qualquer hora, só ou em comum.

A influência do local ou da ocasião depende de as circunstâncias favorecerem ou não o recolhimento. A prece em comum tem ação mais poderosa, quando todos se associam de coração ao mesmo pensamento, objetivando o mesmo fim, porque é como se muitos cantassem, em coro, ao mesmo tempo. Mas, que importa seja grande o número dos que orem, se cada qual orar insuladamente e por conta própria? Cem pessoas reunidas podem orar com o sentimento de egoístas; enquanto que duas ou três, unidas pelo pensamento, podem orar irmanadas em Deus, obtendo a sua prece mais resultado que a daquelas cem.

Se eu não entender o que significam as palavras, serei um bárbaro para aquele a quem falo, e aquele que me fala será para mim um bárbaro. - “Se oro numa língua que não entendo, meu coração ora, mas minha inteligência nenhum fruto colhe - “. Se apenas com o coração louvardes Deus, como é que um daqueles que só a sua própria língua entendem dirá amém, quando terminardes a vossa ação de graça, uma vez que ele não entende o que dizeis? - Não é que a vossa ação não seja boa; ela, porém, não concorrerá para a edificação dos outros. (Paulo, 1ª. Epístola aos Cor. Cap. XIV,vv.11,14, 16 e 17).

O que dá valor à prece é o pensamento que se lhe liga. Ora, impossível é que se ligue o pensamento ao que não se compreende, porquanto o que não se compreende não pode tocar o coração. Na sua imensa maioria, as preces feitas numa linguagem que aquele que as faz não compreende, não passam de um agregado de palavras que nada dizem ao Espírito. Para que a prece toque a alma, preciso é que cada uma de suas palavras desperte uma idéia. Ora, se não lhe compreendermos as palavras ela nenhuma idéia despertará. Será a repetição de uma fórmula cuja maior ou menor virtude dependerá do número de vezes que seja repetida. Muitos oram por obrigação e alguns unicamente em obediência a um costume. Assim, uns e outros se julgam exonerados do dever de orar, desde que repetiram certo número de vezes, em tal ou qual ordem, a mesma oração.

Deus, porém que lê nos corações, conhece o pensamento e a sinceridade de cada um. Julga-lo mais sensível à forma do que ao fundo é rebaixá-lo.

DA PRECE DITA PELOS MORTOS E PELOS ESPÍRITOS SOFREDORES

Os Espíritos sofredores reclamam as preces. Estas lhes são úteis porque lhes mostram que neles se pensa e isso basta para que se sintam menos abandonados, menos desgraçados. Mais direta ação tem ainda sobre tais Espíritos a prece: reanima-lhes a coragem, excita-lhes o desejo de se elevaram pelo arrependimento e pela reparação, e chega mesmo a impedir que pensem no mal. Neste sentido, as preces logram, não só lhes aliviar, mas também abreviar os sofrimentos.(Livro O Céu e o Inferno, 2ª parte, “Exemplos” de A Kardec).

Certas pessoas não admitem a prece pelos mortos porque, segundo a crença que professam, duas unicamente são, para a alma, as alternativas: salvar-se ou ser condenada às penas eternas, sendo inútil à prece, num caso e noutro. Sem discutir o valor dessa crença, admitamos, por um instante, a realidade das penas eternas e irremissíveis, e admitamos, também, que as nossas preces sejam impotentes para lhes pôr termo. Dada essa hipótese, perguntamos: será lógico, será caridoso, será cristão rejeitar a prece pelos réprobos? Por impotentes que fossem para libertá-los, as preces não seriam para eles uma demonstração de piedade, capaz de lhes amenizar os sofrimentos?

Quando, na Terra, um homem é condenado à galé perpétua, embora não haja a menor esperança de se obter para ele o perdão, seria defeso a uma pessoa caritativa ir carregar com ela as correntes que o algemam, a fim de alivia-lo do peso delas? Quando alguém é atacado de um mal incurável, ser-nos-á lícito, por não haver para ele nenhuma esperança de cura, abandoná-lo, sem que procuremos dar-lhe algum alívio? Lembremo-nos de que entre os réprobos pode encontrar-se alguém que nos seja caro, um amigo, talvez um pai, mãe ou um filho, digamos se, pelo fato de não podermos esperar haja perdão para ele, lhe recusaríamos um copo de água para lhe matar a sede, bálsamo que lhe cure as chagas? Não sereis capazes de fazer por ele o que faríeis por um galé? Não, isso não seria Cristão. Uma crença que petrifica o coração não se pode aliar com a de um Deus que, em primeiro lugar coloca, no rol dos deveres da criatura, o amor ao próximo.

O não admitir a eternidade das penas, não implica a negação de uma penalidade temporária, porquanto Deus, na sua justiça, não pode confundir o bem com o mal. Ora, negar, neste caso, a eficácia da prece, fora negar a eficácia do consolo, fora negar que haurimos força na assistência moral que nos querem bem.

Outros se fundam em razão mais especiosa: a imutabilidade dos decretos divinos. Deus, dizem esses não pode mudar suas decisões porque lho peçam as criaturas; não fosse assim, e o mundo careceria de estabilidade. O Homem nada tem, pois, que pedir a Deus; só tem que submeter e adora-lo.

Há neste modo de pensar uma falsa aplicação da imutabilidade da lei divina, ou melhor - ignorância da lei, no que respeita a penalidade futura. Essa lei os Espíritos do Senhor a revelaram agora, quando o homem já se acha suficientemente maduro para compreender o que, na fé, está conforme ou contrário aos atributos divinos.

Segundo o dogma da eternidade absoluta das penas, nenhumas contas são tidos o pesar e o arrependimento do culpado . Supérfluo lhe é qualquer desejo de se tornar melhor, uma vez que está condenado a permanecer no mal perpetuamente. Se foi condenado por limitado tempo, a pena cessará quando expiar o prazo da condenação. Mas quem nos diz que, ao se verificar isto, não sejam mais acentuadas as suas disposições para melhorar? Quem nos diz que, a exemplo do que ocorre com muitos condenados da Terra, ao sair da prisão ele não se conserve tão mau quanto antes? No primeiro caso, seria aumentar o castigo continuar a afligir um homem que se converte ao bem; no segundo, seria conceder a graça a um quem permaneceu culpado. A lei de Deus é mais previdente do que isso. Sempre justa, eqüitativa e misericordiosa, ela não prefixa duração à pena, seja qual for, e se resume assim:

ESTUDAR ‘O CÉU E O INFERNO’ 1ªPARTE, CAPS. VI, VII, VIII.

XVI - PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS

São habitados todos os globos que se movem no espaço?

“Sim e o homem terreno está longe de ser, como supõe, o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição. Entretanto, há homens que se têm por espíritos muito fortes e que imaginam pertencer a este pequenino globo o privilégio de conter seres racionais. Orgulho e vaidade! Julgam que só para eles criou Deus o Universo.”

Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o objetivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos fora duvidar da sabedoria de Deus, que não fez coisa alguma inútil. Certo, a esses mundos há de ele ter dado uma destinação mais séria de que a de nos recrearem a vista. Aliás, nada há, nem na posição, nem no volume, nem na constituição física da Terra, que possa induzir à suposição de que ela goze do privilégio de ser habitada, com exclusão de tantos milhares de milhões de mundos semelhantes.

É a mesma a constituição física dos diferentes globos?

“Não; de modo algum se assemelham.”

Não sendo uma só para todos a constituição física dos mundos, seguir-se-á tenham organizações diferentes os seres que os habitam?

“Sem dúvida, do mesmo modo que no vosso os peixes são feitos para viver na água e os pássaros no ar.”

Os mundos mais afastados do Sol estarão privados de luz e calor, por motivo de esse astro se lhes mostrar apenas com a aparência de uma estrela?

“Pensais então que não há outras fontes de lua e calor além do Sol e em nenhuma conta tendes a eletricidade que, em certos mundos, desempenha um papel que desconheceis e bem mais importante do que o que lhe cabe desempenhar na Terra? Demais, não dissemos que todos os seres são feitos de igual matéria que vós e com órgãos de conformação idêntica à dos vossos.” (O Livro dos Espíritos).

DIFERENTES CATEGORIAS DE MUNDOS HABITADOS

Do ensino dado pelos Espíritos, resulta que muito diferentes umas das outras são as condições dos mundos, quanto ao grau de adiantamento ou de inferioridade dos seus habitantes. Entre eles há os em que estes últimos são inferiores aos da Terra, física e moralmente; outros, da mesma categoria que o nosso; e outros que lhe são mais ou menos superiores a todos os respeitos. Nos mundos inferiores, e existência é toda material, reinam soberanas as paixões, sendo quase nula a vida moral. À medida que esta se desenvolve, diminui a influência da matéria, de tal maneira que, nos mundos adiantados, a vida é, por assim dizer, toda espiritual.

Nos mundos intermédios, misturam-se o bem e o mal, predominando um ou outro, segundo o grau de adiantamento da maioria dos que os habitam. Embora se não possa fazer, dos diversos mundos, uma classificação absoluta, pode-se contudo, em virtude do estado em que se acham e da destinação que trazem, tomando por base os matizes mais adiantados, dividi-los, de modo geral, como segue:

MUNDOS PRIMITIVOS: Destinados às primeiras encarnações da alma humana.

MUNDOS DE EXPIAÇÃO E PROVAS: Onde domina o mal.

MUNDOS DE REGENERAÇÃO: Nos quais as almas ainda têm o que expiar haurem novas forças, repousando das fadigas da luta.

MUNDOS DITOSOS: Onde o bem sobrepuja o mal.

MUNDOS CELESTES OU DIVINOS: Habitações de Espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem.

A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas, razão por que aí vive o homem a braços com tantas misérias.(O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap.III.)

MUNDOS TRANSITÓRIOS

Há, de fato, como já foi dito, mundos que servem de estações ou pontos de repouso aos Espíritos errantes?

“Sim, há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que lhes podem servir de habitação temporária, espécies de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiada longa erraticidade, estado este sempre um tanto penoso. São, entre os outros mundos, posições intermédias, graduadas de acordo com a natureza dos Espíritos que a elas podem ter acesso e onde eles gozam de maior ou menor bem-estar.” (O Livro dos Espíritos).

XVII - PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS

CONCEITOS DE REENCARNAÇÃO

“Reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo”.

P. “Como pode a alma que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se?”.

R. “Sofrendo a prova de uma nova existência”.

“A reencarnação tem início no momento da fecundação e somente conclui entre 7 e 8 anos de idade, isto é, o espírito se vai impregnando na matéria, vai dominando-a até atingir os pródomos da adolescência, quando está totalmente reencarnado, quando absorve o impacto material e passa a controlar o corpo. Neste período se deu a reencarnação total”.

OBJETIVOS DA REENCARNAÇÃO

“Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isto, onde a justiça?”

“Beneficiados com a reencarnação, o estacionamento é quebrado de modo natural, para que sintamos a sede de novos conhecimentos, fome de amor e ânsia de compreensão, de vez que não ignoramos que sede a fome são fatores que nos obrigam a trabalhar muito. Então, espiritualmente, semelhantes fatores na vida do Espírito estão vigorando para todos nós, com a função de nos estimularem ao burilameto e ao progresso”. “A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceram para todos o mesmo ponto de partida, mesma aptidão, mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, encarnação para todos os espíritos é um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe quando inicia na vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo esse tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros degraus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seu labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação e é quando se torna um castigo”.

P. “Em que se funda o dogma da reencarnação?”

R. “Na justiça de Deus e na revelação, pois incessantemente repetimos; o bom pai deixa aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento. Não te diz a razão que seja injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorar-se? Não são filhos de Deus todos os homens? Só entre os egoístas se encontram a iniqüidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão.”

Todos os espíritos tendem para perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcança-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. Sua justiça, porém, lhes concede realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova.

Não obraria Deus com equidade, nem de acordo com a sua bondade, se condenasse para sempre os que talvez hajam encontrado oriundos do própio meio onde foram colocados e alheios à vontade que os animava, obstáculos ao seu melhoramento.

Se a sorte do homem se fixasse irrevogavelmente depois da morte, não seria uma única a balança em que Deus pesa as ações de todas as criaturas e não haveria imparcialidade no tratamento que a todos dispensa.

A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para Espírito muitas existências sucessivas é a única que corresponde à idéia que formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condições morais inferiores; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças. Pois que nos oferecem os meios de repararmos os nossos erros. A razão nô-la indica e os Espíritos a ensinam.

O homem, que tem consciência da sua inferioridade, haure consoladora esperança na doutrina da reencarnação. Crê-se na justiça de Deus, não pode contar que venha achar-se, para sempre, em pé de igualdade com os que mais fizeram do que ele. Sustem-no, porém, e lhe reanima a coragem a idéia de que aquela inferioridade não o deserda eternamente do supremo bem e que, mediante novos esforços, dado lhe será conquista-lo. Quem é que ao cabo da sua carreira, não deplora haver tão tarde ganho uma experiência de que já não mais pode tirar proveito? Entretanto, essa experiência tardia não fica perdida, o espírito a utilizará em nova experiência”.

PROCESSO DA REENCARNAÇÃO

“Desde o momento em que o gameta masculino viaja pela Trompa de Falópio, na busca do óvulo, ei-lo já sob o impulso magnético do psiquismo do futuro reencarnante. No instante da fecundação se dá o início da imantação do espírito no organismo em formação.”

Desde a concepção, o espírito, ainda que errante (espírito entre uma encarnação e outra) está, por um cordão fluídico, preso ao corpo com o qual se deve unir. Este laço se estreita cada vez mais, à medida que o corpo vai se desenvolvendo.

Desde esse momento o espírito sente uma perturbação que cresce sempre, até as proximidades do nascimento, ocasião em que ela se torna completa, então o Espírito perde a consciência e não recobra as idéias senão gradualmente, a contar do instante em que a criança começa a respirar; a união então é completa e definitiva”.

“A reencarnação, tanto quanto a desencarnação, é um choque biológico dos apreciáveis. Unido à matriz geradora do santuário materno, em busca de nova forma, o perispírito sofre a influência de fortes correntes eletromagnéticas, que lhe impõem a redução automática. Constituído à base de princípios químicos semelhantes, em suas propriedades, ao hidrogênio, a se expressarem através de moléculas significativamente distanciadas umas das outras, quando ligado ao centro genésico feminino, experimenta expressiva contração, à maneira de indumento de carne sob carga elétrica de elevado poder.

Os princípios organogênicos essenciais do perispírito do reencarnante então se encontram reduzidos na intimidade do altar materno e, à maneira de um imã, vão aglutinando sobre si os recursos de formação do nosso vestuário de carne que lhe será o vaso próximo de manifestação.

O perispírito torna-se, portanto, um molde fluídico, elástico, que calca sua forma sobre a matéria. Daí dimanam as condições fisiológicas de renascimento. As qualidades ou os defeitos do molde reaparecem no corpo físico, que não é na maioria dos casos se não imperfeita e grosseira cópia do perispírito.

Os contornos e minúcias anatômicas vão desenvolver-se de acordo com os princípios de equilíbrio e com a lei de hereditariedade. A forma do reencarnante dependerá dos cromossomos paternais; adicione, porém, a esse fator primordial, as influências dos moldes mentais da mãe, atuação do próprio interessado, o concurso dos espíritos Construtores (espíritos especializados que ajudam na organização do novo corpo), o auxílio afetuoso das entidades amigas (aqui podemos acrescentar que as vibrações desordenadas do campo mental pode trazer conseqüências graves sobre o reencarnante) e poderá fazer uma idéia do que vem a ser o templo físico que ele (reencarnante) possuirá.

A hereditariedade qual é aceita nos conhecimentos científicos do mundo, tem os seus limites. Desse modo os progenitores fornecem determinados recursos ao espírito reencarnante, mas esses recursos estão condicionados às necessidades da alma que lhe aproveita cooperação, porque, no fundo, somos herdeiros de nós mesmos.

Assimilamos as energias de nossos pais terrestres, na medida de nossas qualidades boas ou más, para o destino enobrecido ou torturado que fazemos jus, pelas nossas conquistas ou débitos que voltam a Terra conosco, emergindo de nossas anteriores experiências.

Quando a criança respira começa o Espírito a recobrar as faculdades, as qualidades e as aptidões anteriores adquiridas, que haviam ficado temporariamente em estado de latência e que, voltando ele renasce qual se fizera pelo seu trabalho anterior, o seu renascimento lhe é um novo ponto de partida, um novo degrau a subir. Ainda aí a bondade do Criador se manifesta, porquanto, adicionadas aos amargores de uma nova existência, as lembranças, muitas vezes aflitivas e humilhantes do passado poderão perturba-lo e lhe criar embaraços.

XVIII - EXISTÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA DO ESPÍRITO

Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. É eterno, único, imaterial, imutável, todo poderoso, soberanamente justo e bom. Deve ser infinito em todas as suas perfeições, porque supondo-se um único de seus atributos imperfeito, não seria Deus. Sendo Eterno e creador da Vida, nunca deixou de crear um só instante.

Deus criou a matéria que constitui os mundos; criou também os seres inteligentes, que chamamos ESPÍRITOS, encarregados de administrarem os mundos materiais, segundo as leis imutáveis da criação, e que são PERFECTÍVEIS pela sua natureza. Em se aperfeiçoando, aproximam-se da divindade.

O Espírito, propriamente dito, é o princípio inteligente; sua natureza nos é desconhecida; para nós, ele é imaterial, porque não tem nenhuma analogia com o que chamamos matéria.

Os Espíritos são seres individuais; têm um envoltório etéreo, imponderável, chamado perispírito, espécie de corpo fluídico, tipo da forma humana. Eles povoam os espaços, que percorrem com rapidez do relâmpago, e constituem o mundo invisível.

A origem e o modo de criação dos espíritos nos são desconhecidos; apenas sabemos que foram criados SIMPLES E IGNORANTES, quer dizer, sem ciência e sem conhecimento do bem e do mal, mas, com igual aptidão para tudo, porque Deus, em sua justiça, não poderia isentar uns do trabalho que houvesse imposto aos outros para chegarem a perfeição. No princípio, estão numa espécie de infância, sem vontade própria, e sem consciência perfeita de sua existência.

Para concorrer, como agentes do poder divino, à obra dos mundos materiais, os Espíritos revestem temporariamente um corpo material. Pelo trabalho que sua existência corpórea necessita, aperfeiçoam sua inteligência e adquirem, em observando a lei de Deus, os méritos que deverão conduzi-los a felicidade eterna.

A encarnação não é imposta ao Espírito, no princípio, como uma punição; ela é necessária ao seu desenvolvimento e ao cumprimento das obras de Deus, e todos devem suportá-la, tomem o caminho do bem ou do mal; somente aqueles que seguem a rota do bem, avançam mais depressa, estão menos longe para alcançarem o objetivo e aí chegarem em condições menos penosas.

Os Espíritos encarnados constituem a Humanidade que não é circunscrita a Terra, mas que povoa todos os mundos disseminados no espaço.

A Alma do homem é um Espírito encarnado.

O aperfeiçoamento do Espírito é fruto de seu trabalho próprio.

A vida espiritual é a vida normal do espírito: ELA É ETERNA; a vida corpórea é transitória e passageira não é senão um instante na eternidade.

Nas encarnações sucessivas, sendo o Espírito pouco a pouco despojado de suas impurezas e aperfeiçoado pelo trabalho, chega ao fim de suas existências corpóreas; pertence, então, à ordem dos PUROS ESPÍRITOS ou dos anjos, e goza, ao mesmo tempo da vida completa de Deus e de uma felicidade sem mácula pela a eternidade, esta é a nossa fatalidade.

XIX - INTERVENÇÃO DOS ESPÍRITOS NO MUNDO CORPORAL

Os Espíritos podem se manifestar de maneiras bem diferentes: pela visão, audição, toque, ruídos, movimento dos corpos, escrita, desenho, música, informática, etc. Eles se manifestam por intermédio de pessoas dotadas de uma aptidão especial para cada gênero de manifestação, e que se distinguem sob o nome de MÉDIUNS. É assim que se distinguem os médiuns videntes, falantes, audientes, sensitivos, de efeitos físicos, desenhistas, tiptólogos, escreventes, psicotrônicos, etc. Entre os médiuns escreventes, há inúmeras variedades, segundo a natureza das comunicações que estão aptos a receber.

O fluido que compõe o perispírito penetra todos os corpos e os atravessa como a luz atravessa os corpos transparentes; nenhuma matéria lhe opõe obstáculo. É por isso que os Espíritos penetram por toda à parte, nos lugares o mais hermeticamente fechados; é uma idéia ridícula crer-se que eles se introduzem por uma pequena abertura, como o buraco de uma fechadura ou o tubo de uma chaminé.

O Perispírito, embora invisível para nós no estado normal, não deixa de ser matéria etérea. O Espírito pode em certos casos, fazê-lo sofrer uma espécie de modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível; assim é que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário do que o do vapor que é invisível quando está mais rarefeito, e que se torna visível quando está condensado.

Os Espíritos que se tornam visíveis e se apresentam, quase sempre, sob a aparência que tinham quando vivos e que podem fazê-los reconhecer.

É com a AJUDA DO SEU PERISPÍRITO, que o Espírito atua sobre seu corpo vivo; é ainda com esse mesmo fluído que ele se manifesta atuando sobre a matéria inerte, que produz os ruídos, os movimentos de mesas e outros objetos, que ergue, tomba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente se se considerar que entre nós, os mais poderosos motores se acham nos fluídos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.

É igualmente com a ajuda do seu perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem, falarem, ou desenharem; não tendo mais o corpo tangível para atuar ostensivamente quando quer se manifestar, ele se serve do corpo do médium, de quem empresta os órgãos que faz atuarem como se fosse seu próprio corpo, e isso pela emanação fluídica que derrama sobre ele.


Quando a mesa se destaca do solo e flutua no espaço sem ponto de apoio. O Espírito não a ergue com a força do braço, mas a envolve e a penetra com uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza o efeito da gravitação, como o ar faz para os balões e os papagaios de papel. O fluido do qual esta penetrada lhe dá, momentaneamente, uma leveza específica maior. Quando ela esta pregada no solo, está num caso análogo ao da campânula pneumática sob a qual se faz o vácuo. Estas não são senão comparações para mostrar a analogia dos efeitos, e não similitude absoluta das causas.

Compreende-se, depois disso, que não é mais difícil ao Espírito erguer uma pessoa do que erguer uma mesa, de transportar um objeto de um lugar para outro ou de lançá-lo em qualquer parte; esses fenômenos se produzem pela mesma lei.


O objetivo providencial das manifestações, é convencer os incrédulos de que tudo não termina, para o homem, com a vida terrestre, e de dar os crentes idéias mais justas sobre o futuro. Os bons Espíritos vêm nos instruir tendo em vista o nosso melhoramento e o nosso adiantamento, e não para nos revelar o que não devemos ainda saber, ou o que não devemos aprender senão pelo nosso trabalho. Se bastasse interrogar os Espíritos, para se obter a solução de todas a dificuldades científicas, ou para fazer descobertas e invenções lucrativas, todo o ignorante poderia tornar-se sábio facilmente, e todo o preguiçoso poderia se enriquecer sem esforço; é o que Deus não quer. Os Espíritos ajudam o homem de gênio pela inspiração oculta, mas não isentam nem do trabalho das pesquisas, a fim de deixar-lhe o mérito.

Seria fazer uma idéia bem falsa dos Espíritos vendo neles apenas os auxiliares dos ledores de sorte; os Espíritos sérios recusam-se ocupar de coisas fúteis; os Espíritos levianos e zombeteiros se ocupam de tudo, respondem a tudo, predizem tudo a que se quer, sem se inquietarem com a verdade, e sentem um prazer maligno ao mistificarem as pessoas muito crédulas; é por isso que é essencial estar perfeitamente fixados sobre a natureza das perguntas que se podem dirigir aos Espíritos. (O Livro dos Médiuns, n°286: Perguntas que se podem dirigir aos Espíritos).

As manifestações não estão, pois, destinadas a servirem aos interesses materiais, cujo cuidado está entregue à inteligência, ao discernimento e à atividade do homem.(...) Sua utilidade está nas conseqüências morais que dela decorrem; mas se não tivessem por resultado senão fazer conhecer uma nova lei da Natureza, de demonstrar, materialmente, a existência da alma e sua imortalidade, isso já seria muito, porque seria um novo e largo caminho aberto à filosofia.

Pode-se ver, por essas poucas palavras, que as manifestações espíritas, de qualquer natureza que sejam, NADA TÊM DE SOBRENATURAL NEM DE MARAVILHOSO. (O Que É O Espiritismo, A. Kardec, Ed I D E).

XX - INFLUÊNCIA DOS ESPÍRITOS EM NOSSOS PENSAMENTOS E ATOS

“A influência dos espíritos sobre nossos pensamentos e atos é tão grande que, de ordinário, são eles que nos dirigem. Esta influência pode ser boa ou má, oculta ou ostensiva, fugaz ou duradoura. Qualquer situação fica claro que a influenciação se concretiza através da sintonia que se estabelece.

É conveniente recordar que “(...) pensar é vibrar, é entrar em relação com o universo espiritual que nos envolve, e, conforme a espécie das emissões mentais de cada ser, elementos similares se lhe imanizarão, acentuando-lhes as disposições e cooperando com ele em seus esforços ascensionais ou suas quedas e deslizes”.

Não podemos descuidar da nossa casa mental e seguir, vida a fora, arrastado pela ação maléfica dos atrasados”. Os Espíritos infelizes, de mente ultrajada, vivem mais com os companheiros encarnados do que se supõe. Misturam-se nas atividades comuns, perambulam no ninho doméstico, participam das conversações, seguem com os comensais, de quem dependem, em processo legítimo de vampirização...

Perturbam-se e perturbam.

Sofrem e fazem sofrer.

Odeiam e geram ódios.

Amesquinhados em si mesmos, amesquinham os outros.

Infelicitados, infelicitam “.

Já a ação dos Espíritos Superiores é outra. “Os bons Espíritos só para o bem aconselham...”. “(...) suscitam bons pensamentos, desviam os homens da senda do mal, protegem na vida os que se lhes mostram dignos de proteção e neutralizam a influência dos Espíritos imperfeitos, sobre aqueles a quem não é grato sofrê-la”.

Tomando consciência de que “... O pensamento exterioriza-se e projeta-se, formando imagens e sugestões que arremessa sobre os objetivos que se propõe atingir...” “... nada mais natural que se consiga harmonia, felicidade, quando a emissão mental for equilibrada e edificante; ou, aflição e quedas morais, se o pensamento for desequilibrado e doentio”.

“A química mental vive na base de todas as transformações, porque realmente evoluímos em profunda comunhão telepática com todos aqueles encarnados e desencarnados que se afinam conosco”.

Podemos neutralizar a influência dos maus espíritos, “... praticando o bem e pondo em Deus toda a ...confiança...” e procurando repelir as sugestões inferiores e não atender aos maus pensamentos que geram a discórdia, as lutas antifraternas, o ciúme, a inveja e a exaltação do orgulho.

“À medida que se perseverar no propósito firme de melhoria, através do desligamento do mal, a influência provocada pelas entidades inferiores dará lugar aos conselhos e sugestões edificantes dos benfeitores espirituais”.

“Pelo que foi dito, ficou patenteada a ação que os espíritos exercem uns sobre os outros, sobretudo entre desencarnados e encarnados, estabelecendo-se, assim, uma reciprocidade constante de intercâmbio. Daí ser difícil, senão impossível, em determinadas ocasiões, distinguir um pensamento próprio de um que nos é sugerido”. Geralmente “os pensamentos próprios são os que nos acodem em primeiro lugar, sendo que não há grande interesse em se estabelecer à distinção entre um pensamento próprio e um sugerido; em muitas ocasiões é útil que não saibamos distinguir.”

Foi, evidentemente, compreendendo o valor desta questão que Kardec concluiu: “... se fora útil que pudéssemos distinguir claramente, Deus nos houvera proporcionado os meios de o conseguirmos, como nos concedeu o de diferençarmos o dia da noite. Quando uma coisa se conserva imprecisa, é que convém assim aconteça”.