Desfazendo equívocos e disparidades

Fausto de Vito

de Uberaba, MG

Primeiro, por ordem alfabética, dentre os quatro Editores Executivos da afamada revista “VEJA”, o Sr. Jaime Klintowitz, escrevendo sobre o assunto Religião, na edição de 19-12-2001, em longa matéria, às páginas 124 a 128, fez o que sempre fazem as pessoas que se põem a abordar o Espiritismo sem conhecê-lo – sejam adversárias ou neutras. Assim é que, mesmo quando procuram elogiá-lo, proferem disparates às dúzias, de mistura com inverdades simplesmente lamentáveis, a deporem, ou antes, a desacreditarem os próprios autores mal-informados, senão levianos.

Confusão confessional

O supracitado jornalista, autor da reportagem “Um povo que acredita”, procura fundamentar-se em pesquisa que se diz realizada pela empresa “Vox Populi”, entrevistados nada menos de 1.017 adultos residentes em 184 municípios de diferentes regiões brasileiras. A propósito, lembro ter lido e ouvido, diversas vezes, que dados estatísticos nem sempre são confiáveis: ou porque teriam tido coleta defeituosa ou resultados induzidos ou, pior, manipulados.

Entrevejo nisto uma consulta popular complexa incrivelmente efetivada por telefone interurbano com 1.017 pessoas (afora muitos insucessos) em 184 cidades! E consegue-se cada pessoa certa, dentre mais de mil, disponíveis e capacitadas a responder um longo questionário contendo nome e talvez outros dados; escolaridade; classe social; condições sócio-econômicas; crença em Deus; filiação religiosa; opinião sobre o destino da alma; motivos determinantes da ida para o Inferno ou o Purgatório ou o Céu: crença no Diabo; e possíveis outros quesitos.

No presente caso, não pretendo pôr em dúvida a integridade profissional de “Vox Populi”, organização havida por idônea, mas apenas e de modo muito especial discordar parcialmente do método adotado, em primeiro lugar, de agrupar militantes espíritas e adeptos do Candomblé (são inconfundíveis, porque diferentes, inclusive com os praticantes da Umbanda, imperdoavelmente omitidos); em segundo lugar, por atribuir aos espíritas, assim como aos seguidores do Candomblé, A CRENÇA NO DIABO!!!

Requisitos da Comunicação

Qualquer pessoa dedicada à Comunicação – mormente de Massa – deve saber que, ao expor fatos ou situações reais ou fictícias ignóbeis, envolvendo crueldade ou torpeza, é importante ela própria não se imiscuir, não descer moralmente, aprovando tais fatos ou situações ou mesmo deleitando-se com eles. Classifica-se esta louvável atitude de isenção como nobreza de linguagem e dignidade de caráter. Por sua vez, quando se comenta assunto pertinente a terceiros, como é o caso de tratar de convicções religiosas alheias, suscetíveis de análise e apreciação, portanto SITUADO O AUTOR EM POSIÇÃO NEUTRA, é da ética que ele proceda, o tempo todo, como observador imparcial, bem como competente e respeitoso. É bem conhecido o belo preceito que aconselha não invadir seara alheia…

Ponho de parte dúvidas pessoais quanto à exatidão estatística da referida pesquisa: não melhora nem piora a implícita porcentagem de espíritas no País, ainda mais que o Espiritismo não é religião mas uma doutrina que assume tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso, assim como, para nós, a qualidade de adeptos está acima da quantidade. Longe de nós a ilusão de repentina conversão geral da Humanidade ao Espiritismo! Ver-se-ia uma incalculável legião de fanáticos e ignorantes, porquanto destituídos do necessário esclarecimento e conseqüente conscientização espírita. Logo, não resolve afirmar-se que o Brasil tem tantos milhões de determinados seguidores desta ou daquela religião, se, na maioria, são apenas rotulados como tais. Os espíritas realmente esclarecidos são conscientizados sobre os fundamentos da sua Doutrina e, sobretudo, sua fé é raciocinada, ou seja: “Têm a Fé que a sua Razão aprova!” Do mesmo modo, nada significam mega-espetáculos de religiosidade instintiva e comparecimentos maciços de devotos interessados na melhoria de vida e não na melhoria da alma, ou seja, a renovação íntima..

Estranho interesse

Nesta altura, indagariam nossos leitores que interesse teria o Sr. Jaime Klintowitz em pretender denegrir o Espiritismo – Doutrina sem outro interesse senão trabalhar pelo bem da Humanidade, contribuindo para o seu progresso moral e intelectual, bem como praticando a caridade por amor ao próximo, tal como ensinou e exemplificou o Divino Mestre e Senhor, Jesus Cristo.

Eis que o considerável jornalista, se não foi desrespeitoso para com nossa Doutrina, me pareceu desdenhoso, depreciador, referindo-se a ela, conforme se lê em trechos de seu trabalho: “…dezenas de outras crenças, de origens tão diversas como cultos de raízes africanas e o espiritismo do francês Alan Kardec”. Outro desagradável equívoco do Editor Executivo de “VEJA”: “…é comum ver alguém que se diz católico fazer três desejos ao colocar uma fitinha do Senhor do Bonfim e ainda freqüentar um centro espírita”. Mais esta impropriedade: “…deixam-se levar por rituais do candomblé, pelo espiritismo kardecista ou pelo último modismo místico, sejam cristais mágicos, sejam mantras hinduístas”.

É, com tal vocação para desmerecer a benemérita Doutrina Espírita, por não lhe conhecerem os superiores fundamentos e os superiores objetivos, que tanto a empresa de pesquisas “Vox Populi” quanto o próprio jornalista Sr. Jaime Klintowitz, a exemplo de uns tantos adversários gratuitos, acreditam descobrirem fartos motivos para atacá-la (com quais finalidades, não se sabe), esquecidos, porém, de que tais motivos se originam de falhas exclusivamente humanas. Estas – bem devem saber seus detratores voluntários ou apenas desavisados – são geradas pela ignorância e pelo fanatismo de quantos conspurcam a pureza do Espiritismo ao contaminá-lo com crendices e interesses escusos, tendentes a envolvê-lo num sincretismo mortal, nas mãos de indivíduos inescrupulosos. E tal desastre pode acontecer realmente – devo reconhecer, assim como meus confrades esclarecidos –, pois, salvo raras exceções, os responsáveis pelos órgãos de defesa e orientação doutrinárias que temos, no Brasil, parecem levar muito a sério o princípio da tolerância ou do respeito ao livre-arbítrio… Parecem chefes de família em cujas casas cada um e qualquer um fazem o que bem entendem.

Neste ponto, sou levado a presumir que o Editor Executivo da revista “VEJA” repete o grande equívoco de muitas pessoas que da Codificação do Espiritismo não conhecem nem as Obras Básicas, produzidas pela sabedoria e pelo bom-senso de Allan Kardec (Prof. Hippolyte-Léon Denisard Rivail), que não inventou aquilo que o jornalista, desdenhosamente (você que me lê já foi tratado com desprezo e lembra como se sentiu?), chamou de “o espiritismo do francês Alan Kardec”, além de confundi-lo e desfigurá-lo perante imensa legião de leitores que obviamente acreditam no que ali se publica, ao adjetivá-lo como “espiritismo kardecista”, qual se houvesse outro Espiritismo. Não satisfeito com tais dislates, o autor da infeliz reportagem, embora destinada, por natureza, a público de todas as categorias e opiniões, acaba endossando a afirmação falsa, absurda e injuriosa dos citados 22% de imaginária parceria em que “Espíritas/Candomblé acreditam no Diabo”!!!

A melhor atitude

Não vale gastar mais palavras para desfazer semelhante disparate, produzido que foi pela estatística de “Vox Populi”. É pueril demais, se não for atestado de ignorância. Poderá alguém dissertar longamente sobre, por exemplo, Economia e Finanças, mas, se não conhecer os mecanismos da Política Cambial, a qual delas faz parte, o melhor a fazer será não falar nas complexidades do Câmbio… Assim também, quando se trata de Religião (embora o Espiritismo não seja religião), por que tecer alguém tal crítica depreciativa, com base no que viu ou que ouviu e sem ter inferido as explicações de, ao menos, simplesmente, um pequeno livro elucidativo de autoria do Codificador, Allan Kardec – “O que é o Espiritismo”: “uma ciência de observação e uma doutrina filosófica experimental com base na moral do Cristo”? Dele ocupando-se honestamente, ilustraram-se outros verdadeiros sábios pesquisadores e escritores da Europa e das Américas: Léon Denis, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano, William Crookes, Aleksandr Aksakof, Andrew Jackson Davis, Camille Flammarion, Charles Richet, Albert Schrenck-Notzing, Gustave Geley, Frederic W. H. Myers e o grande Victor Hugo, assim como os brasileiros Prof. José Herculano Pires, Dr. Carlos Imbassahy, Dr. Adolpho Bezerra de Menezes, Dr. Hernani Guimarães Andrade, Dr. Deolindo Amorim, Dr. Inácio Ferreira, Dr. Odilon Fernandes e tantos mais autores que consagramos em obras fundamentais, além do trabalho sério e devotadíssimo de médiuns psicógrafos respeitáveis, como: Francisco Cândido Xavier, Yvonne do Amaral Pereira, Divaldo Pereira Franco, Zilda Gama, Carlos Antônio Baccelli e outros também respeitáveis.

O Espiritismo – é bom que se reconheça – não é uma religião (ainda que os adeptos adotem a religiosidade predominante dos latinos, como a prece para diversos fins, a pregação evangélica, o transe místico em vibrações psíquicas e a comunhão espiritual com Deus, Jesus e Espíritos Benfeitores. Não é uma religião, tampouco a miscelânea religiosa que os crentes de determinadas seitas e tendências espiritualistas se esforçam por chamar de Espiritismo e os demais mal-avisados o aceitam, sem conhecimento de causa..

Finalmente, a oferta dos presentes esclarecimentos, que me cumpre fazer, a bem da verdade e em defesa da sublime Doutrina Espírita, ao Sr. Jaime Klintowitz, aos Srs. Dirigentes da revista “VEJA”, aos responsáveis por “Vox Populi” e a quantos mais possam interessar.

E-mail: faustodevito@aol.com.br

(Jornal Verdade e Luz Nº 193 Fevereiro de 2002)