Destruição de Cadernos

Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves

de Ribeirão Preto, SP

“Na escolaridade da Terra é preciso estar em prontidão para o aprendizado.”¹

Neste último mês presenciei uma situação que chamou insistentemente minha atenção, e me incomodou. Eu passava em uma calçada próxima a uma escola, quando alunos, com cerca de 12 a 16 anos, comemoravam o término do ano letivo, jogando violentamente seus cadernos e fichários contra o muro da escola, destruindo-os. Num outro dia, a cena repetiu-se. E eu ainda me lembrei dela outras vezes, porque as folhas – muitas mesmo – esparramadas pelo chão, cheias de exercícios de matemática e ciências, ficaram ali por mais alguns dias…

Não podia deixar de pensar naquela cena. Talvez no primeiro dia explicações simplistas poderiam responder por ora o problema, tal como atribuir aos alunos o título de vândalos ou coisa que o valha. A insistência da cena fez-me pensar e buscar outras respostas.

Era uma agressão ou apenas felicidade de terminar o ano letivo? Por que a destruição? Se era agressão, a quem agrediam: à escola, aos professores, ao material, a si mesmos?

Como uma coisa como estudar pode ser encarada como algo ruim?

Como uma curiosidade nata por saber tudo, que existe nas crianças pequenas, pode dar lugar ao desprezo e desconforto quando estão maiores?

Como um aspecto importantíssimo para nosso desenvolvimento e evolução – o estudo – pode ser assim considerado?

Qual a responsabilidade dos professores nesta situação?

Qual a responsabilidade da escola nesta situação?

Como pensar este quadro à luz da Doutrina Espírita?

Relembrando o Evangelho, sobre nossa passagem por aqui: “A passagem dos Espíritos pela vida corpórea é necessária, para que eles possam realizar com a ajuda do elemento material, os propósitos cuja execução Deus lhes confiou. É ainda necessária por eles mesmos, pois a atividade que então se vêem obrigados a desempenhar ajuda-os a desenvolver a inteligência ”². Há de se ver a escola como oportunidade de crescimento e preparo para o que vem a seguir, em nossa caminhada em mais uma experiência reencarnatória.

A humanidade criou a escola no intuito de possibilitar, às gerações que chegam, o acesso a todo o conhecimento já desenvolvido pelas gerações anteriores. É uma forma de não ter que reinventar a roda, enfim, é um campo riquíssimo para o aprendizado.

O Livro dos Espíritos vem ampliar esta questão: “O homem deve progredir, mas sozinho não o pode fazer porque não possui todas as faculdades: precisa do contato dos outros homens. No isolamento, ele se embrutece e se estiola. Nenhum homem dispõe de faculdades completas e é pela união social que eles se completam uns aos outros, para assegurarem seu próprio bem estar e progredirem. Eis porque, tendo necessidade uns dos outros, são feitos para viver em sociedade e não isolados”³ (perg. 768)

“O homem se desenvolve por si mesmo, naturalmente, mas nem todos progridem ao mesmo tempo e da mesma maneira; é então que os mais adiantados ajudam os outros a progredir, pelo contato social.”³ (perg. 780, grifo meu).

Assim, dá para supor a importância deste lugar, que é a escola, para o crescimento não só intelectual, mas também moral, posto que é um campo de convivência e trocas.

Espero que esta reflexão possa trazer alguma contribuição para os envolvidos na situação descrita:

Referências Bibliográficas:

  1. Auto-realização. Pelo Espírito Leocádio José Correia, psicografado por Maury Rodrigues da Cruz. SBEE, Curitiba, 2000.
  2. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. IV, item 25.
  3. O Livro dos Espíritos. Allan Kardec.

E-mail: verdeluz.marlene@bol.com.br

(Jornal Verdade e Luz Nº 192 Janeiro de 2002)