E depois?

Orson Peter Carrara

de Matão, SP

Desde criança guardo as benéficas impressões das palestras. Em mim, foram sementes valiosas, plantadas por meus pais, que vibram em minha memória. Não me lembro dos temas ou dos oradores, mas ficou na memória da vivência infantil a harmonia e o bem-estar que a divulgação espírita através das palestras podem promover nos corações.

Digo podem, porque tenho refletido seriamente sobre algo, que comento no presente artigo. Promover palestras está na moda, como sempre esteve. É algo muito salutar. Jesus já usava a técnica expositiva para ensinar, explicar. E os Centros Espíritas usam este recurso valioso para transmitir a Doutrina Espírita. Isto é inquestionável, pois a validade das palestras de estudo e divulgação tem reconhecido destaque.

Noto, porém, que para a maioria do público freqüentador de palestras, há todo o entusiasmo, a alegria, a empolgação para a palestra. Antes, durante e nos momentos breves do depois. Embora também haja os indiferentes que nunca valorizam as palestras espíritas e não comparecem, às custas das mais diversas desculpas, violentando até os esforços dos organizadores e palestrantes. Sim, porque é muito importante valorizar os eventos do Movimento.

Mas, para os que comparecem e vibram, aplaudindo, abraçando o expositor, como fica o depois? Sim, depois da palestra! No dia seguinte, na rotina da casa, da cidade, da família espírita.

Quais os resultados posteriores de uma palestra?

De uma palestra vibrante, estimuladora, para 100 pessoas, quantas colherão efetivamente os resultados para um efetivo engajamento neste esforço dos espíritos para despertar nossa atenção para a esperança, o trabalho, a renovação interior.

Por que se empolgam tanto e depois não tem constância, não assumem responsabilidades, não se envolvem ou não se comprometem com a Casa que lhes faculta receber tantos ensinos?

Este é o grande problema. A Casa e o Movimento precisam dos trabalhadores que se engajam, que se comprometam pela Causa e não simplesmente de cumpridores de obrigação. Aquele de simplesmente ir ao Centro...

Vemos a excessiva preocupação com atividades de beneficência, quando a Doutrina prioriza o estudo e a divulgação. E por que os dirigentes não divulgam as publicações, não estimulam o público a assinaturas da imprensa? Por que mantém a casa apenas para receber as pessoas, discursar poucos minutos e em seguida sair correndo para o passe?

Esta tem sido a causa da indiferença que tanto criticamos. Falamos da irresponsabilidade de nossos companheiros, mas o que fazemos para integrá-los, se preferimos que eles continuem simplesmente recebendo passe ou entregando cesta básica?

Qual é o objetivo da Doutrina? A que veio o Espiritismo? Qual é o maior esforço dos espíritos, os codificadores e os que se manifestam atualmente, senão abrir os nossos olhos para o trabalho de esclarecimento aos que ignoram tudo que já conhecemos? E por outro lado, para que melhoremos a nós mesmos?

A Doutrina é muito mais que isso. Para criar um depois mais ativo, comecemos desde já a deixar viver os freqüentadores de nossas Casas, as belezas da Doutrina Espírita, com o estudo do livro, com o envolvimento no Movimento, com o comprometimento a Causa, sem nos considerarmos os donos da Doutrina, pois que não o somos, nem para tal somos capacitados. Por que não divulgamos mais, ao invés de segurarmos só para nós?

(Jornal Verdade e Luz Nº 180 de Janeiro de 2001)