Educação e afetividade

Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves

de Ribeirão Preto, SP

A afetividade sempre pareceu ligada à Educação, tanto que normalmente o papel do educador foi considerado pertinente à Mulher que, acreditava-se, era mais afeita às questões da afetividade.

Intuitivamente, professores, pais e educadores percebem, no dia a dia, a importância dos laços afetivos no processo de educação.

Também no campo científico, muitas pesquisas caminham na direção de entender de que forma a afetividade se relaciona com a educação. Wallon, um educador e médico francês, que viveu de 1789 a 1962, deixou uma enorme contribuição neste sentido, e que hoje está sendo redescoberta pelos educadores.

Wallon atribui à emoção - que como os sentimentos e desejos, são manifestações da vida afetiva - um papel fundamental no processo de desenvolvimento humano. Quando nasce uma criança, todo contato estabelecido com as pessoas que cuidam dela, são feitos via emoção. Entende-se por emoção formas corporais de expressar o estado de espírito da pessoa, manifestações físicas, alterações orgânicas, como frio na barriga, secura na boca, choro, etc.

O Livro dos Espíritos, na questão 384, refere-se a isto: "Por que os primeiros gritos da criança são de choro? Para excitar o interesse da mãe e provocar os cuidados necessários. Não compreendes que, se ela só tivesse gritos de alegria, quando ainda não sabe falar, pouco se inquietariam com as suas necessidades?"

Wallon destaca o caráter social da criança neste sentido, pois que se não houvesse a atenção do adulto nessa fase inicial de sua vida, a criança morreria. O recém-nascido não tem ainda outras formas de se comunicar com o outro, que não a emoção, esta sim, forma eficiente de comunicação; e que funciona em mão dupla. Nossa comunicação com o bebê também é emocional, corporal. É comum se dizer que não é fácil enganar uma criança. Isto porque ela "lê" no corpo, mais que nas palavras. Podemos dizer coisas bonitas a uma pessoa, mas nosso corpo pode estar mandando uma mensagem de repulsa. É esta mensagem que a criança percebe, pois ainda não desenvolveu, a contento, a comunicação verbal, racional, que nós, adultos, usamos primordialmente, quase nos esquecendo destas outras formas de comunicação.

Segundo Wallon, quando, em alguma situação da nossa vida, há o predomínio da função cognitiva, estamos voltados para a construção do real, como quando classificamos objetos, fazemos operações matemáticas, definimos conceitos, etc. Quando há o predomínio da função afetiva, neste momento estamos voltados para nós mesmos, fazendo uma elaboração do EU. É só lembrarmos das nossas experiências carregadas de emoção, como por exemplo o nascimento de um filho, a perda de um ente querido, ou algo assim. No impacto da emoção, nossa preocupação é a construção que fazemos de um novo eu, a mulher que se transforma mãe, o esposo que se torna viúvo…

No caso da criança, o choro inicial, o desconforto das cólicas, do frio ou calor demasiado, a exploração do próprio corpo, representam a construção do eu, nesse primeiro momento, corporal. Mais para frente, graças à exploração dos objetos, e da linguagem, vai construindo seu eu psíquico. Todo processo de educação significa também a constituição de um sujeito. A criança, seja em casa, na escola, na evangelização, em todo lugar; está se constituindo como ser humano, através de suas experiências com o outro, naquele lugar, naquele momento. A construção do real vai acontecendo, através de informações e desafios sobre as coisas do mundo, mas o aspecto afetivo nesta construção continua muito presente.

Constituir-se como sujeito não se trata de apenas recuperar sua bagagem, trazida de experiências anteriores, de outras vidas, mas também de "reformar seu caráter" se for o caso. "Os Espíritos não ingressam na vida corpórea senão para se aperfeiçoarem, para se melhorarem; a debilidade dos primeiros anos os torna flexíveis; acessíveis aos conselhos da experiência e daqueles que devem fazê-los progredir. É então que se pode reformar o seu caráter e reprimir as más tendências." (O Livro dos Espíritos, perg. 385).

Se nós adultos tivéssemos a consciência do quão importante são estes momentos para a criança em formação, com certeza repensaríamos sobre muitas de nossas ações cotidianas.

Conforme a criança vai crescendo, as crises emotivas vão se reduzindo - ataques de choro, birras, surtos de alegria, cenas tão comuns na infância - vão sendo melhores controladas pela razão, num trabalho de desenvolvimento da pessoa. Questão essa abordada por Kardec, na pergunta 380, cuja resposta dos Espíritos vem nos esclarecer: "Enquanto criança, é natural que os órgãos da inteligência, não estando desenvolvidos, não possam dar-lhe toda a intuição de um adulto; sua inteligência, com efeito, é bastante limitada, até que a idade lhe amadureça a razão."

Heloysa Dantas diz em seu livro, A Infância da Razão, seguindo a teoria de Wallon, que "a razão nasce da emoção e vive de sua morte". No início da vida, a emoção predomina. Conforme a criança vai desenvolvendo-se, as emoções vão sendo subordinadas ao controle das funções psíquicas superiores, da razão. E por toda a vida, razão e emoção vão se alternando, numa relação de filiação, e ao mesmo tempo de oposição.

Enquanto não dermos atenção a este fator afetivo na relação educador-educando, corremos o risco de estarmos só trabalhando com a construção do real, do conhecimento, deixando de lado o trabalho da constituição do próprio sujeito - que envolve valores e o próprio caráter - necessário para o seu desenvolvimento integral, como homem e como Espírito imortal.

Bibliografia:

DANTAS, H.; A Infância da Razão, SP, Ed. Manole, 1990.

GALVÃO, I.; Henri Wallon, RJ, Ed. Vozes, 1995.

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(Jornal Verdade e Luz Nº 178 de Novembro de 2000)