Fases históricas do Espiritismo

Amílcar Del Chiaro Filho

de Guarulhos, SP

Quando Allan Kardec desencarnou, em 31 de março de 1869, deixou uma doutrina fortemente embasada na ciência e na filosofia, com conseqüências religiosas. Foram quase 15 anos de labor constante, investigações profundas e ilações filosóficas, à par das experimentações exaustivas.

Não sendo ele próprio médium, na acepção que damos a esse termo, serviu-se de outras pessoas mediunicamente capazes, como o pesquisador se serve do microscópio e o astrônomo do telescópio para as suas investigações.

Com a base Kardequiana, e sem a sua presença, o Espiritismo passou por novas fases, retraindo-se em alguns lugares para expandir-se em outros. Amèlie Boudet, a sua extraordinária esposa, atuou firmemente para manter as diretrizes espíritas de Kardec. Sem o extraordinário líder, os ataques recrudesceram. O episódio das fotografias transcendentais, acolhidas pela Revista Espírita, em que um retratista apregoava que ao fotografar uma pessoa, aparecia na foto parentes falecidos da pessoa retratada, levou Pierre Gaetan Lemarrye, então diretor da Revista, as barras dos tribunais. Madame Allan Kardec citada como testemunha, enfrentou com galhardia um juiz faccioso, que antecipadamente já condenara o réu, exigindo respeito aos seus cabelos brancos e à memória de seu esposo.

Nesse ínterim, começa a surgir a figura gigantesca de Léon Denis, como a maior liderança mundial do Espiritismo. Belgica, Portugal e Espanha são campos férteis para a propagação da Doutrina Espírita, mas já no século XX - as duas nações ibéricas são submetidas à ditaduras atreladas ao clero, e o Espiritismo é colocado na clandestinidade.

O Continente Europeu que já sofrera com a primeira guerra mundial, sofre novo e terrível golpe com a Segunda Grande Guerra, ainda mais cruel que a primeira. O nazismo provoca o holocausto de milhões de judeus, e a fé religiosa esfria. O ateísmo ganha terreno e o Espiritismo fenece.

Contudo, viceja nas Américas, especialmente na Argentina, Cuba, mas especialmente no Brasil. Porém já não é o mesmo Espiritismo científico e filosófico, mas principalmente religioso. O caráter religioso do povo brasileiro é o adubo nas raízes da Doutrina. Ela sobrevive ao Estado Novo, ao escárnio da ciência psiquiátrica e ao clericalismo das igrejas católica e protestante.

Lá nos seus albores, um apêndice incômodo, o Roustanguismo, insere-se artificialmente na Doutrina Espírita, defendida pela mais importante instituição doutrinária. Porém, parte do movimento resiste e surge lideranças extraordinárias como Herculano Pires, Deolindo Amorim, Carlos Imbassahy e muitos outros.

A mediunidade abençoada de Francisco Cândido Xavier traz as nuances da fé, do amor ao próximo, e aprofunda ainda mais o sentido religioso. Emmanuel dá diretrizes e cores francamente religiosas ao Espiritismo brasileiro. Ele passa a ser uma religião, embora diferente, sem cultos ou sacerdócios.

Agora, com a idade de Francisco Cândido Xavier e o seu iminente retorno à pátria espiritual, muitos procuram nos horizontes do movimento, um novo líder. Acreditamos que esta procura é vã, pois entraremos numa nova fase, a da responsabilidade coletiva. Qual será a fisionomia do Espiritismo após Chico Xavier? Parafraseamos Léon Denis: O Espiritismo será aquilo que dele os espíritas fizerem.

(Jornal Verdade e Luz Nº 189 de Outubro de 2001)