Justiça e Amor

Vera Gaetani

de Ribeirão Preto, SP

Ao afirmar que "Justiça sem amor é como terra sem água", Emmanuel sintetiza, através da comparação simples e forte, qual é o pensamento da espiritualidade superior sobre o assunto, o que significa que a justiça é perfeita porque ELE a fez assistida pelo amor, para que os caídos não sejam aniquilados.

Quem lê André Luiz percebe, nos seus relatos, com que amor são tratados espíritos viciosos e criminosos e com que desvelo são eles acompanhados em suas novas experiências terrestres, a fim de saírem vitoriosos.

E a justiça humana? Esta tem por símbolo uma mulher de olhos vendados, segurando numa das mãos uma balança de dois pratos e na outra uma espada, o que nos permite interpretar que ela pretende ser imparcial, equânime, isto é, tem a disposição de reconhecer igualmente o direito de cada uma mas... a espada, no mínimo, simboliza a força que garante ainda, em alguns pontos da Terra, a pena de morte e a prisão perpétua.

Se a justiça humana fosse mais iluminada e aquecida pelo sol do amor divino, cremos nós que ela corrigiria, na prática, dois enganos.

O primeiro deles é que o erro não pode ser confundido com a pessoa que errou. Assim como em medicina já se aprendeu a separar o enfermo da enfermidade, a criatura transviada tem que ser educada, tanto quanto o doente tem que ser tratado.

O segundo engano é que a nossa justiça "julga os atos que considera puníveis, pelos últimos lances de superfície", isto é, não leva em consideração todas as ocorrências que lhe deram começo, desde os menores impulsos. A Justiça humana identifica os culpados pelas tragédias já consumadas, mas ignora os verdadeiros motivos que estão atrás da conduta infeliz.

Desconsiderando as tramas de vidas passadas, o trabalho realizado na sombra pelas inteligências desencarnadas; considerando apenas a vida presente, nossa justiça não procura saber se o criminoso, antes de agir como tal, foi uma criança amada, se teve lar, se freqüentou escola, se foi devidamente alimentada nos primeiros e decisivos anos de vida, se foi induzida ao uso das drogas muito cedo por força do ambiente em que viveu, se sofreu violência física e/ou psicológica. É bom lembrar que muitas crianças vivenciam tudo isso antes de tornarem adultos criminosos. Se a justiça se apiedasse dessas criaturas, o amor se incumbiria de inspirar soluções diferentes que não fossem apenas a construção de penitenciárias, reformatórios e manicômios.

É, pois, com esperança que registramos a existência de movimentos de pessoas e instituições que procuram tutelar crianças vitimizadas e "adolescentes de risco", assim chamados porque estão vivendo em condições predisponentes para se viciarem ou se tornarem criminosos.

Em nosso âmbito pessoal, não permitamos que a justiça caminhe sem amor "para que não se converta em garra de violência". Apiedemo-nos dos vencidos de todas as condições. Na Terra ninguém está habilitado a julgar ninguém, porque ninguém conhece a história do outro desde o princípio e ninguém está apto a perceber no presente a causa invisível da degradação das criaturas.

Diante das tragédias, dos escândalos públicos ou da vida privada, mantenhamos a conduta de comentar pouco, orar e auxiliar silenciosamente, porque não sabemos se amanhã não será o nosso instante infeliz e orienta-nos o Mestre que façamos aos outros o que desejamos nos seja feito.

Bibliografia:

"Religião dos Espíritos" e "Justiça Divina" - Emmanuel

(Jornal Verdade e Luz Nº 176 de Setembro de 2000)